Estátuas

•24/05/2012 • Deixe um comentário


Poesia do educador popular e fundador do núcleo 13 de maio de educação popular, coletivo que trabalha há mais de 25 anos na formação política da classe.

Estátuas

Abaixo o mastodonte de granito!
Força, todos juntos,
que as cordas já uivam
asfixiando como um urso
o pedestal.
Pronto! O homem de pedra
estrondeia e se estatela
no meio da praça.
Empunhemos as marretas e os
martelos!
(Foices não! Ainda uma vez não:
enfeites e armadilhas.)
Vamos, espatifem o seu olhar sereno
espicacem o seu vulto solene
sua testa larga, suas orelhas.
Desmoronem e esfrangalhem todos os
dinossauros
e suas cabeças de esclerose.
Dilacerem todas as múmias
e seus catecismos simplórios.
Profanem os altares do socialismo
científico
e todos seus lugares sagrados
pois é a hora dos iconoclastas
e o crepúsculo dos deuses.
Nos pedestais vazios
se quiserem
soergam a altiva Liberdade
com seu facho novaiorquino
e seus raios democráticos.
Sim. Façam tudo isso
mas, ao final, sepultadas as
caricaturas
ao menos por curiosidade,
abram seus livros.
Desvencilhados de monumentos
e fetiches
desacorrentem seu pensamento crítico
derrubem também as comportas
com que cercam em pântano
o fluir de sua dialética,
e a louca paixão pela humanidade.
Então outra vez
companheiro Carlos e Frederico
companheira Rosa e companheiro
Ilitch
serão vocês
perigosos
outra vez.

Humberto Bodra

a vida

•22/05/2012 • Deixe um comentário


a vida
breve
(como
nunca)

a arte
longa
(como
sempre)

e eu
aqui

(meia
boca)

entre

A lua com gatilho – Raúl González Tuñón

•20/05/2012 • Deixe um comentário


Abaixo a tradução que fiz do poema-manifesto do poeta-lutador argentino Raúl González Tuñón. Mais uma reflexão sobre o papel da poesia nos dias de bárbarie em que vivemos.

A LUA COM GATILHO

É preciso que nos entendamos.
Eu falo de algo certo e de algo possível.
Certo é que todos comam
e vivam dignamente
e é possível saber algum dia
muitas coisas que hoje ignoramos.
Então, é necessário que isto mude.

O carpinteiro fez esta mesa
verdadeiramente perfeita
onde se inclina a menina dourada
e o pai celeste resmunga.
Um ebanista, um pedreiro,
um ferreiro, um sapateiro,
também sabem o seu.

O mineiro desce à mina,
ao fundo da estrela morta.
O campesino semeia e ceifa
a estrela já ressuscitada.
Tudo seria maravilhoso
se cada qual vivesse dignamente.

Um poema não é uma mesa,
nem um pão,
nem um muro,
nem uma cadeira,
nem uma bota.

Com uma mesa,
com um pão,
com um muro,
com uma cadeira,
com uma bota,
não se pode mudar o mundo.

Com uma carabina,
com um livro,
isso é possível.

Compreendes por que
o poeta e o soldado
podem ser uma mesma coisa?

Marchei atrás dos operários lúcidos
e não me arrependo.
Eles sabem o que querem
e eu quero o que eles querem:
a liberdade, bem entendida.

O poeta é sempre poeta
mas é bom que ao fim compreenda
de uma maneira alegre e terrível
quão melhor seria para todos
que isto mudasse.

Eu os segui
e eles me seguiram.
Aí está a coisa!

Quando se tiver que lançar a pólvora
o homem lançará a pólvora.
Quando se tiver que lançar o livro
o homem lançará o livro.
Da união da pólvora e do livro
pode brotar a rosa mais pura.

Digo ao pequeno padre
e ao ateu de botequim
e ao ensaísta,
ao neutro,
ao solene,
e ao frívolo,
ao tabelião e à corista,
ao bom coveiro,
ao silencioso vizinho de um terceiro,
a minha amiga que toca o acordeon:
-Olhai a mosca sufocada
embaixo da redoma de vidro.

Não quero ser a mosca sufocada.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Não quero ser abelha.
Não quero ser unicamente cigarra.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Eu sou um homem ou quero ser um verdadeiro homem
e não quero ser, jamais,
uma mosca sufocada debaixo da redoma de vidro.

Nem colméia, nem formigueiro,
não compares os homens
a nada mais que não seja homem.

Dá ao homem tudo o que necessite.
Os pesos para pesar,
as medidas para medir,
o pão ganhado altivamente,
a flor do ar,
a dor autêntica,
a alegria sem uma mancha.

Tenho direito ao vinho,
ao azeite, ao museu,
à Enciclopédia Britânica,
a um lugar no ônibus,
a um parque abandonado,
a um cais,
a uma açucena,
a sair,
a ficar,
a dançar sobre a pele
do Último Homem Antigo,
com meu esqueleto novo,
coberto com pele nova
de homem reluzente.

Não posso cruzar os braços
e interrogar agora o vazio.
Me rodeiam a indignidade
e o desprezo;
me ameaçam o cárcere e a fome.
Não me deixarei subornar!

Não. Não se pode ser livre interamente
nem estritamente digno agora
quando o chacal está à porta
esperando
que nossa carne caia, apodrecida.

Subirei ao céu,
lhe colocarei gatilho à lua
e desde cima fuzilarei o mundo,
suavemente,
para que este mude de uma vez.

muléqui

•18/05/2012 • Deixe um comentário


muléqui

ainda arranho
as cascas
da pele

a dor
se aviva

a tinta
escorre

té que nova
palavra
se forme

Homenagem a Roque Dalton

•11/05/2012 • Deixe um comentário

Há 37 anos atrás assassinavam, no dia 10 de maio, o poeta guerrilheiro Roque Dalton. Ele foi “justiçado” por seus próprios companheiros de organização, pois seu jeito heterodoxo, irreverente, provocativo, irônico e questionador foi interpretado pela moral conservadora desses militantes como uma vinculação com a CIA, como um infiltrado que tentava destruir por dentro a luta comunista. Assassinavam injustamente um dos poetas que mais lutou pela libertação de seu povo (El Salvador) e punham fim a escritura genial deste guerrilheiro.

Roque Dalton é o poeta-lutador que mais admiro dentro do panorama latinoamericano, o que mais venho traduzindo aqui no Passarin e o que mais tem me influenciado. Presto aqui esta singela homenagem traduzindo mais algumas de suas poesias. Quiçá ainda lançarei um livro em português com suas poesias traduzidas… é enorme a necessidade de tornar esse poeta, sua luta e poesia mais conhecida no Brasil… espero também, não daqui muito tempo, visitar El Salvador, seu país natal, e conhecer sua família.

Você pode ler mais poesias que traduzi dele aqui.

CATÓLICOS E COMUNISTAS NA AMÉRICA LATINA:
ALGUNS ASPECTOS ATUAIS DO PROBLEMA

Me expulsaram do Partido Comunista
muito antes de me excomungarem
na Igreja Católica.

Isso não é nada:
me excomungaram na Igreja Católica
depois que me expulsaram do Partido Comunista.

Bah!
Me expulsaram do Partido Comunista
porque me excomungaram na Igreja Católica.

MISCELÂNEAS

Ironizar sobre o socialismo
parece ser aqui um bom digestivo,
mas te juro que em meu país
primero deve-se conseguir o jantar.

Para mim, o socialismo é ainda uma etapa burguesa
na história marxista da humanidade. E o digo
precisamente em uma manhã em que me reconheço
lúcido, quando faz quase uma semana que não provo
uma gota de álcool.

O imperialismo deseja que a nação salvadorenha seja a Nação Salvadorenha S.A., Made in USA.

Digam o que somos do que somos: um povo sofrido, um
povo analfabeto, desnutrido e no entanto forte, porque
outro povo já teria morrido…

Sabe o que seria El Salvador se fosse do tamanho do Brasil?

POEMA DE AMOR

Os que ampliaram o Canal do Panamá
(e foram classificados como “rolo de prata” e não como “rolo de ouro”*),
os que repararam a frota do Pacífico
nas bases da Califórnia,
os que apodreceram nos cárceres da Guatemala,
México, Honduras, Nicarágua,
por ladrões, por contrabandistas, por estafadores,
por famintos,
os sempre suspeitos de tudo
(“Permita-me me remeter ao morto
por vagabundo suspeito
e com o agravante de ser salvadorenho”),
as que encheram os bares e bordéis
de todos os portos e capitais da zona
(“A gruta azul”, “O Shortinho”, “Terra feliz”),
os semeadores de milho em plena selva estrangeira,
os reis das páginas vermelhas***,
os que nunca sabem de ninguém de onde são,
os melhores artesãos do mundo,
os que foram cozidos a balaços ao cruzar a fronteira,
os que morreram de malária
ou das picadas de escorpiões e das barbas amarelas**
no inferno dos bananais,
os que choraram bêbados com o hino nacional
debaixo dum ciclone do Pacífico ou da neve do norte,
os agregados, os mendigos, os maconheiros,
os safados filhos de uma grande puta,
os que apenas e somente puderam regressar,
os que tiveram um pouco mais de sorte,
os eternos sem-documentos,
os fazem-tudo, os vendem-tudo, os comem-tudo,
os primeiros a sacar a faca,
os tristes mais tristes do mundo,
meus compatriotas,
meus irmãos.

* Na construção do canal do Panamá, os índios e negros (que ganhavam segundo padrão “silver roll”) recebiam menos e viviam em piores condições do que os trabalhadores brancos (“gold roll”).
** uma cobra venenosa bem comum na américa central.
*** os que mais aparecem nas páginas criminais dos jornais

NÃO FIQUE BRAVO, POETA

A vida paga suas contas com teu sangue
e tu segues crendo que és um ruisenhor.

Agarra a garganta dela de uma vez, a desnuda,
a tombe e faça nela tua peleja de fogo,
recheia sua tripa majestosa, a engravida,
a põe a parir cem anos pelo coração.

Mas com lindo modo, irmão,
com um gesto
propício para a melancolia.

HORA DA CINZA

Finaliza setembro. É hora de dizer-te
o difícil que foi morrer.

Por exemplo, esta tarde
tenho nas mãos cinzentas
livros formosos que não entendo,
não poderia cantar ainda que tenha cessado a chuva
e me cai sem motivo a recordação
do primeiro cachorro a quem amei quando criança.

Desde ontem que te foi
há umidade e frio até na música.

Quando eu morrer,
só recordarão meu júbilo matutino e palpável,
minha bandeira sem direito a se cansar,
a concreta verdade que reparti desde o fogo,
o punho que fiz unânime
com o clamor de pedra que exigiu a esperança.

Faz frio sem ti. Quando eu morrer,
quando eu morrer
dirão com boas intenções
que eu não soube chorar.

Agora chove de novo.
Nunca foi tão tarde às 25 pras 7
como hoje.

Sinto desejos de rir
ou de matar-me.

Cortázar e Cris

•07/05/2012 • Deixe um comentário


Júlio Cortázar foi apaixonado pela escritora Cristina Peri Rossi que conheceu em seu exílio na França. O amor era não-correspondido ou parcialmente correspondido já que Cristina gostava de mulheres. Apesar disso, desenvolveram por muitos anos uma profunda amizade e intensa troca. Cortázar escreveu 15 poemas dedicados a “Cris”, como a chama… segue abaixo a tradução que fiz…

CINCO POEMAS PARA CRIS

I
Já muito além do meio
«camin de nostra vita»
existe um território do amor
um labirinto mais mental que mítico
onde é possível ser
lentamente feliz
sem o fio de Ariadne delirante
sem espumas nem lençóis nem coxas.

Tudo se cumpre em um reflexo do crepúsculo
teu cabelo teu perfume tua saliva.
E ali do outro lado te possuo
enquanto jogas com tua amiga
os jogos da noite.

II
Na realidade pouco me importa
que teus seios durmam
na azul simetría de outros seios.
Eu os teria pisado
com a cócega de meu roçar
e te riria justamente
quando o necessário e esperado
era que soluçasse.

III
Sei muito bem o que ganhas
quando te perdes no gozo.
Porque é exatamente
o que eu senti.

IV
(A justa errata)
termos nos encontrado ao final do dia
em um passeio público.

V
(Gostaria que acreditasse
que isto é o irrisório jogo
das compensações
com que consolo esta distância.
Segue então dançando
no espelho do outro corpo
depois de haver sorrido
apenas
para mim.)

OUTROS CINCO POEMAS PARA CRIS

I
Tudo o que precede é como os primeros momentos de um encontro depois de muito tempo: sorrisos, perguntas, lentos reajustes.
É raro, me pareces menos morena que antes. Se melhorou enfim tua tia avó? Não, não me agrada a cerveja. É verdade, havia esquecido. E por debaixo, montacargas de sombra, ascende devagar outro presente. Em teu cabelo começam a tremer as abelhas, tua mão roça a minha e põe nela um doce algodão de fumaça. Cheiras de novo a sul.

II
Tens por vezes
a cara do exílio
esse que busca voz em teus poemas.
Meu exílio é menos duro,
lhe sobram as defesas,
mas quando te levo pela mão
por uma ruazinha de Paris
gostaria tanto que o passeio se acabasse
em uma esquina de Montevideo
ou na minha rua Corrientes

sem que ninguém viesse
pedir documentos.

III
As vezes creio que poderíamos
conciliar os contrários
falar a centritude imóvel da roda
sair do binário
ser o vertiginoso espelho que concentra
em um vértice último
esta ceremoniosa dança que dedico
a tua presente ausência.

Recordo a Saint-Exupéry “O amor
não é olhar o que se ama
senão olhar os dois em uma mesma direção”

Mas ele não suspeitou que tantas vezes
os dois miramos fascinados a uma mesma mulher
e que a esplêndida, feliz definição
cai por terra como um cinza fantoche.

IV
Creio que não te quero,
que somente quero a imposibilidade
tão óbvia de querer-te
como a mão esquerda
enamorada dessa luva
que vive na direita.

V
Ratinho, penugem, meialua,
caleidoscópio, barco na garrafa,
musgo, sino, diáspora,
palingenesia*, feto,

isso, e o doce de abóbora,
o bandoneón de Troilo**, e duas ou três
zonas da pele onde
faz ninho o alcião***,

são as palavras que contêm
tua cruel definição inalcançável,
são as coisas que guardam as substâncias
de que estás feita para que alguém
beba e possa e arda convencida
de conhecer-te inteira,
de que somente és Cris.

* renascimento, reencarnação
** Aníbal Troilo foi um dos mais importantes e
populares músicos da história do tango.
*** Ave mitológica que fazia ninho sobre o mar.

CINCO ÚLTIMOS POEMAS PARA CRIS

I
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,

ou quem sabe,
o amor.

II
À noite te sonhei
sacerdotisa de Sekhmet, a deusa leontocéfala.
Ela desnuda em pórfiro*,
tua limpa pele desnuda.
Que oferenda lhe rendias a deidade selvagem
que olhava através de teu olhar
um horizonte eterno e implacável?
A taça de tuas mãos continha
a libação secreta, lágrimas
ou teu sangue menstrual, ou tua saliva.
Em todo caso não era sêmen
e meu sonho sabia
que a oferenda seria rechaçada
com um lento rugido desdenhoso
tal como desde sempre
o havia esperado.

Depois, quiçá, já não o sei,
as garras em teus seios,
te satisfazendo.

* tipo de rocha ígnea, formada a partir
da lava vulcânica.

III
Nunca saberei porque tua língua entrou em minha boca
quando nos despedimos em teu hotel
depois de um amistoso percorrer a cidade
e um ajuste preciso de distâncias.

Acreditei por um momento que me davas
um encontro futuro,
que abrias uma terra de ninguém, um interregno
por onde alcançar teu minucioso musgo.

Circundada de amigas me beijaste,
eu a exceção, o monstro,
e tu a transgressora murmurante.

Quem saberá a quem beijavas,
de quem te despedias.
Fui o vigário feliz de um só instante,
o que às vezes encontra em sua saliva
um breve gosto a madressilva
sob céus austrais.

IV
Quisera ser Tirésias* esta noite
e em uma lenta espera de bruços
receber-te e gemer sob teus chicotes
e tuas fracas medusas.

Sabendo que é a hora
da metamorfose recorrente,
e que ao baixar ao vórtice de espumas
te abririas chorando,
docemente empalada.

Para voltar depois
a teu imperioso reino de falanges,
ao cerco de tua pele, teus polvos úmidos,
até arrastar-nos juntos e alcançar abraçados
as areias do sonho.

Mas não sou Tirésias,
tão somente o unicórnio
que busca a água de tuas mãos
e encontra entre os beiços
um punhado de sal.

* Na mitologia grega, Tirésias foi um famoso profeta cego de Tebas – famoso por ter passado sete anos transformado em uma mulher.

V
Não te vou cansar com mais poemas.
Digamos que te disse
nuvens, tesouras, barriletes, lápis,
e por acaso alguma vez
sorristes.

abandona

•29/04/2012 • Deixe um comentário


abandona
as palavras

que dizem
nada

com
nada

faz
das mãos
sua boca


diz

coisa

com
coisa

 
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