Só te peço…

•25/10/2014 • Deixe um comentário


Só te peço
isto:

não me
ames

(a este “eu”
tão íntegro,
coerente, coeso,
fictício)

ama
sempre
outrem

me traia
comigo

Cantar de amigo – Geir Campos

•22/10/2014 • Deixe um comentário


Chegou finalmente o livro “Cantar de amigo ao outro homem da mulher amada” de Geir Campos. Acho que o úncio grande poeta – que eu saiba – que tem um livro de poesia sobre a temática do amor livre! O livro é de 82 e veio com dedicatória do autor! ^^ Vou postando alguns poemas aqui! Este é o poema de abertura:

ABERTURA
(Geir Campos)

A ninguém se condena por ter mais
de um amigo ou amiga, e até se diz
que amizades adubam a raiz
do sucesso nas rodas sociais.

Já se a mesma pessoa tiver mais
de um amado ou amada, o que se diz
é que deve extirpar o mal pela raiz
esse cancro das rodas sociais.

Mas amor e amizade não serão
dois nomes de uma única emoção?
Se amizade é tão só um amor sem sexo,

que amigos e amigas enfim serão
os que, abrindo o estatuto da emoção,
dão também foro de amizade ao sexo?

Na garganta do futuro – Che poeta?

•01/10/2014 • Deixe um comentário


[Segue abaixo texto que escrevi para a revista número 1 do MTST, "Territórios Transversais". O texto fala sobre Che Guevara poeta, sobre o papel possível da poesia na luta revolucionária. Seguem também dois poemas de Che que traduzi]

che

NA GARGANTA DO FUTURO (nome da seção fixa)

POESIA?

“En la lucha de classes / todas las armas son buenas / Piedras noches poemas” (Paulo Leminski)

Qual seria a utilidade da poesia para a lutadora e para o lutador que precisa todo dia, a todo instante, lidar com situações urgentes, duras, tensas, concretas? De que servem essas palavras soltas, muitas vezes difíceis de entender ou descoladas de nossa realidade, abstratas? Por que perder o precioso tempo da luta com poesia? Quantas batalhas já foram ganhas com um verso? Parece que as imensas tarefas colocadas diante de nós simplesmente não combinam, não rimam, com poesia…

Pois, imagine um lutador em meio a uma guerrilha na selva, faminto, exausto, com asma… tendo que dar conta, diariamente, de questões de vida-ou-morte… se nossa luta cotidiana parece não deixar espaço para poesia, muito menos essa, não? Pois esse guerrilheiro não só dedicava muito de seu escasso tempo à leitura de poesia, como escrevia em seus cadernos surrados poemas em meio à batalha. Esse guerrilheiro-poeta era Che Guevara.

BOX

che2

Che carregava consigo, ao ser aprisionado na Bolívia, três cadernos: um diário de guerra; um caderno de reflexões e um caderno verde em que tinha anotado, ao longo de anos, 69 poemas preferidos. Sua fama de grande leitor de literatura e poesia era muito bem conhecida por todos os companheiros combatentes. Quando Che assumia o grupo de vanguarda, todos já ficavam tensos porque alguém teria que carregar suas pesadas mochilas cheias de livros. À noite, ao redor da fogueira, enquanto outros dormiam, durante os poucos descansos, era comum encontrar Che perdido entre páginas, lendo incansavelmente. Chana, amiga campesina, dizia que Che, nesses momentos, “ficava caladinho, meio ido, com a cara muito suavizinha e como se estivesse em outro mundo”. Em vários outros momentos, Che falava nas rodas aos soldados e campesinos de Victor Hugo, Rubén Dario, Tagore, Neruda. Um jovem de catorze anos, chamado Acevedo, se surpreendeu ao fuçar os livros na mochila de Che: “Não havia Mao, nem Stalin, e sim o que eu menos esperava, ‘Um ianque na corte do Rei Arthur’”, livro do escritor norte-americano Mark Twain. Che não leu só os escritores sociais ou mais politizados, mas também se apropriou da leitura dos clássicos.

PRA QUÊ?
Mas qual seria o papel da poesia para as revolucionárias e para os revolucionários? Há, claro, uma função mais direta e mais reconhecida: instrumento de propaganda da luta e de denúncia da miséria capitalista. Mas há outra função, muito esquecida, e ainda mais importante: ser um instrumento para compreensão das contradições específicas que um militante revolucionário enfrenta, um instrumento para compreensão de si e do mundo, da luta que trava externa e internamente (pois, sim, o inimigo também é íntimo e pode colonizar nosso peito e coração).

O militante que luta para superar o capitalismo e construir uma nova sociedade enfrenta situações extraordinárias, desafios únicos em seu momento histórico. Por isso mesmo, sofre de alegrias, tristezas e angústias igualmente únicas na busca por se fazer um novo homem e uma nova mulher. Vivenciamos, ainda que de forma embrionária, novos valores, novos sentimentos, novos dilemas que demandam novas palavras, novos canais de expressão! Todo esse movimento subjetivo e singular precisa vir à tona, tornar-se palavra comum, imagem compartilhada, símbolo e questionamento coletivo, permitindo a construção da identidade do ser revolucionário.

CANTAR A VIDA E A LUTA!
Por tudo que foi dito, é preciso fechar o punho, mas abrir o corpo: botar pra fora o que querem que apodreça aqui dentro como amargura e desgosto, como ânsia e medo, como vão heroísmo ou culpa católica. Por isso, é preciso dançar outros corpos, que não os das propagandas; entoar outras canções, que não as do esquecimento; pintar outros rostos; escrever nossa própria história e poesia, com nossas palavras, com nossos corpos marcados pela luta e com nosso novo espírito nascente. Precisamos criar juntos sentidos ao mundo. E a arte de luta, a poesia de luta, pode nos ajudar nisso! Que nos tornemos os “poetas do futuro” como foram Che e tantos outros, que superaram a terrível separação entre o sonho e a ação.

VELHA MARIA, VAIS MORRER
(Che Guevara, tradução de Jeff Vasques)

Velha Maria, vais morrer:
quero falar contigo seriamente.

Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado, nem saúde, nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartida.
Quero falar de tua esperança,
das três distintas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.

Toma esta mão que parece de menino
nas tuas, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e os nós puros de teus dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta, avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Nem rezes ao deus inclemente
que a vida toda mentiu tua esperança;
nem peças clemência à morte
para ver crescer suas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti,
terás uma vermelha vingança sobre tudo,
te juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos viverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte se conjugar com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construídas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome,
chorarão os nós dos dedos velhos
onde sempre encontravam algum sorriso.
Isso foi tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartida.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
turvar a dor de tuas pupilas,
quando tuas mãos de eterna faxineira
absorverem a última ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não ores ao deus indiferente
que toda uma vida mentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmente vestida de fome,
acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril das esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças,
quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e os nós puros de teus dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!

(Poema dedicado a uma velha mexicana a que Guevara tentou ajudar na cidade do México em 1954)

CONTRA O VENTO E A MARÉ
(Che Guevara, tradução de Jeff Vasques)

Este poema (contra o vento e a maré) levará minha assinatura.
Te dou seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre carrega (como um pássaro ferido) ternura,
um anseio de água morna e profunda,
um escritório escuro em que a única luz são desses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
uma fotografia de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória inesquecível (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos.
E o pedaço de vida que me resta,
isto eu dou (convicto e feliz) à revolução.
Nada que nos possa unir terá maior poder.

(Poema dedicado à esposa Aleida)

Levyanos

•01/10/2014 • Deixe um comentário


LEVYANOS

no nosso
aparelho excretor
sempre metem
o bedelho…

mas

no aparelho
repressor
deles…

um dedin?
não tem jeito?

CEU

•01/10/2014 • Deixe um comentário


CEU

A lua vai.
A lua vem.

Meu olhar
– no séu -
além.

Apuração

•23/09/2014 • Deixe um comentário


APURAÇÃO
(em memória de Carlos Augusto Muniz Braga, e de tantos outros “sem nomes”, assassinados covardemente pela polícia)

os corpos
os votos
descem às urnas

brancos
negros
nulos.

são pleitos
e mais peitos
em que
se apura

- firme e lento -

o fogo
que elegerá
as ruas.

Amantes go home!

•27/08/2014 • Deixe um comentário


AMANTES GO HOME!
(Mario Benedetti, trad. Jeff Vasques)

Agora que comecei o dia
voltando a teu olhar
e me encontraste bem
e te encontrei mais linda.

Agora que por fim
está bastante claro
onde estás e onde estou.

Sei pela primeira vez
que terei forças
para construir contigo
uma amizade tão legal,
que do vizinho
território do amor,
esse desesperado,
começarão a nos olhar
com inveja,
e acabarão organizando
excursões
para nos perguntar
como fizemos.

 
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