Ferreira


O Ferreira de ontem:

“Lembro-me muito bem do dia em que tomei conhecimento de que, para me tornar um poeta, teria que fazer da poesia o centro de minha vida. Com um volume dos contos de Hoffmann nas mãos – livro comprado no sebo, de páginas manchadas de fungo – me perguntei que sentido tinha fazer literatura. Os contos de Hoffmann não me diziam respeito, e suas palavras impressas naquelas páginas mofadas me davam a impressão de que a literatura estava mais perto da morte que da vida. Enquanto isso, lá fora, sobre o telhado de minha casa, zunia a tarde maranhense, iluminada, cantando na copa das árvores. Eu tinha vinte anos e devia escolher entre a literatura e a vida. Escolhi as duas, convencido de que a literatura tinha que ser vida também. De fato, as tardes e manhãs iluminadas já não me bastavam. Por isso me voltara para a literatura. Não para fugir da vida ou negá-la e sim para acrescentar-lhe o sentido que ela devia ter e não tinha. Noutras palavras: voltei-me para a literatura pensando resgatar a vida. Naquela tarde entendi que para a literatura ter sentido e emprestar sentido à vida, era necessário que me entregasse a ela integralmente, de corpo e alma.”

“Sou um poeta do Nordeste brasileiro, um poeta do Maranhão, da cidade de São Luís do Maranhão. Sou um poeta da Rua do Coqueiro, da Rua dos Afogados, da Quinta dos Medeiros, do Caga-Osso, da Rua do Sol e da Praia do Caju. Um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de Dona Zizi, irmão de Dodô e de Adi, de Newton, de Nelson, de Alzirinha, de Concita, de Leda, de Norma, de Consuelo, amigo de Esmagado e de Espírito da Garagem da Bosta. Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento menor, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria, abafada em soluços, a tragédia da vida-nada, da vida-ninguém. Se algum sentido tem o que escrevo, é dar voz a esse mundo sem voz”

… e o Gullar de hoje:

“Muito complicado! Abandonei todos os mitos daquela época. Não creio mais em luta de classes. Já aprendi que o capitalismo é como a natureza: invencível.” (Entrevista à revista Bravo! – 2009)

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~ por jeffvasques em 11/01/2010.

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