Otto René Castillo


Havia um guatemalteco metido a poeta, conhecido por Otto, que viu seu país sofrer um golpe em 54 (patrocinado pela CIA) e seu viu obrigado a exilar-se… esse rapaz viu mais sentido ainda em se meter com poesia, e não só com poesia… volta em 64 decidido a mudar a situação do país com sua arte e com sua ação política: passa a militar no Partido dos Trabalhadores, funda o Teatro Experimental e escreve poemas como uma metralhadora. Mas a liberdade andava em masmorras e calabouços por essa época… é preso, mas consegue fugir. Esse rapaz, poeta-militante, não aguentando o peso de novo exílio, retorna à Guatemala, agora secretamente, decidido a transformar a situação ditatorial de seu país através do movimento guerrilheiro. Em 1967, Otto René Castillo, já conhecido como poeta-guerrilheiro, é capturado com outros combatentes revolucionários. São brutalmente torturados e, a seguir, queimados vivos. Agora, 40 anos após o assassinato de Otto, sua poesia se mantém viva, sendo a mais difundida em toda a Guatemala (recitada pela maioria dos estudantes guatemaltecos).

Você conhecia Otto? O maior poeta da Guatemala e, certamente, um dos maiores da América do século XX? Provavelmente não, como eu.

É impressionante o desconhecimento que temos da cultura latino-americana… mais impressionante ainda é o desconhecimento que temos da cultura revoucionária latino-americana. De tempos em tempos, descubro algum novo poeta revolucionário de nossa Pátria Grande e me sinto ainda mais amador no que faço (ou tento fazer: poesia)! Esse tipo de informação e formação cultural circula tão pouco, mesmo dentro dos espaços de militância, é tão pouco valorizada… (é na hora da diversão-lazer-cultura que a maioria dos militantes e organizações se entregam a uma face conservadora, reproduzindo o que está dado, não se esforçando por recuperar a cultura revolucionária que se foi e vai forjando nas ruas).

É por isso que, em 2010, quero levar adiante uma idéia que já trago no peito há muito tempo: elaborar uma coletânea de “poesias de luta” ou de “poetas revolucionários”, incluindo alguns autores brasileiros e traduzindo outros de outras partes do mundo, mas, principalmente latino-americanos, nossos hermanos. Não digo, com isso, que não seja importante que um militante conheça a arte de poetas-não-engajados! Apenas acredito que seja essencial valorizar e cultivar a cultura desenvolvida pelos artistas revolucionários, que fizeram de sua poesia não só uma estética mas também uma ética, destruindo o muro entre a boca e a mão, como diz Thiago de Mello, buscando construir um mundo novo com uma forma nova de expressão, a medida que lutavam com as palavras e contra a ordem.

Acredito que com o material reunido, a editora Expressão Popular abraçaria a edição desse livrinho. Vou aproveitando o blog para ir traduzindo e juntando esse material. Por favor, me indiquem sugestões de poemas e poetas! Seguem 2 poemas de Otto que tra(b)duzi.

Os Amantes

 

Se haviam
encontrado faz pouco
e logo
se haviam separado,
levando
cada um consigo
seu nunca ou seu jamais
sua afirmação de esquecimento
sua golpeadora dor.

Porém o último beijo
que voara de suas bocas,
era um planeta azul.
Girando
em torno a sua ausência
e eles
viviam de sua luz
igual que de sua recordação.

 

Intelectuais apolíticos

Um dia,
os intelectuais
apolíticos
de meu país
serão interrogados
pelo homem
simples
do nosso povo

Serão perguntados
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente,
como uma fogueira doce,
pequena e só.

Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
sestas
após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira
de chegar às moedas.
Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentiram de si,
quando alguém, no seu fundo,
dispunha-se a morrer covardemente.

Ninguém lhes perguntará
sobre suas justificações
absurdas,
crescidas à sombra
de uma inegável mentira.

Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam a roupa,
os que manejavam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,

“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimavam,
gravemente, a ternura e a vida?”

Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
não podereis responder nada.

Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.

Vos roerá a alma
vossa própria miséria.

E calareis,
envergonhados de vós próprios.

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~ por jeffvasques em 13/01/2010.

4 Respostas to “Otto René Castillo”

  1. Puxa, descobri esse cara meio sem querer e o ‘intelectuais apolíticos’ não sai da minha cabeça há tempos. Forte, não?
    Mas forte mesmo é a história dele… me aperta o coração.

  2. Eu também descobri por acaso, Laís! De tudo que achei e li, esse, “intelectuais apoliticos” foi o que mais gostei! Pior que a história dele é a do poeta Roque Dalton que foi “justiçado” por seus companheiros de partido comunista porque tinha idéias muito estranhas, “perigosas”… beijos, jeff

  3. Acabei de ler um livro, não de poesia, de um peruano que chama Manuel Scorza (Bom dia para os defundos). Conhece? sei que ele é poeta também, mas nunca procurei… quem sabe não é um dos poetas de luta que procura.
    O livro, caso não conheça, definitivamente merece ser lido, é um Gabo não pelego… rsrs
    beijos

    • Laís, anotadíssimo a sugestao… vou procurar essa prosa pra ler e vou procurar poesias do cabrunco! Valeu mesmo! beijos, jeff

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