Nicolás Guillén

O Paulo me emprestou uma coletânea da Poesia Social Cubana, o que vem a calhar com o meu projeto de montar um livro de poesias sociais dos poetas revolucionários latinos. Já, de cara, abri no Nicolás Guillén, poeta revolucionário cubano que já conhecia (inclusive traduzi no blog antigo algumas coisas, veja aqui). Mas, pela qualidade do que li, agora, fiquei animado de me aprofundar. Ele mistura uma linguagem moderna com a luta social e a luta dos negros (sem deixar de lado, também, questões existenciais). Depois posto (existe esse verbo? bem, agora existe!) algo mais sobre o Guillén (quem foi, influências, por que olhos morria…), por agora vão só as tra(b)duções de 2 poemas que, pelo que pesquisei na net, não existem para o português. Ah, a poesia “Tengo”, abaixo, refere-se às mudanças trazidas pela revolução cubana e, descobri, foi musicada por Pablo Milanês, ouça aqui.

Está bem

Tudo bem que cantes quando choras, negro irmão,
negro do Sul crucificado;
vai bem teus cantos espirituais*
teus estandartes,
tuas marchas e as alegações
de teus advogados.
Está muito bem.

Tudo bem que patine atrás da justiça,
– oh, aquele ingênuo patinador
tragando o ar até Washington desde Chicago! -;
bem teus protestos nos diários,
bem teus punhos cerrados
e Lincoln em seu retrato.
Está muito bem.

Bem teus sermões nos templos dinamitados,
bem tua insistência heróica
em estar junto dos brancos,
porque a lei – a lei? – proclama
a igualdade de todos os americanos.
Bem.
Está muito bem.
Extremamente bem
Irmão negro do Sul crucificado.
mas lembre-se de John Brown**.
Que não era negro e te defendeu com um fuzil nas mãos.

Fuzil: arma de fogo portátil
(é o que diz o dicionário)
com que disparam os soldados.
Há que se acrescentar: Fuzil (em inglês “gun”):
Arma também com que respondem
os escravos.

Mas se acontecer (isso acontece),
mas se acontecer, irmão,
que não tenhas fuzil, pois então,
nesse caso
digo, não sei,
busca algo
– uma marreta, um pau,
uma pedra – algo
que doa,
algo duro que fira,
que golpeie,
que tire sangue,
algo.

* (“spirituals” no original)
** abolicionista branco que praticou a insurreição armada para libertar os escravos negros


Tenho

Quando me vejo e me toco
eu, João sem Nada ontem mesmo,
e hoje João com Tudo,
e hoje com tudo,
volto meus olhos, observo,
me vejo e me toco
e me pergunto como pode ser.

Tenho, vamos ver,
tenho o gosto de andar por meu país,
dono de quanto há nele,
olhando bem de perto o que antes
não tive nem podia ter.

Safra posso dizer,
monte posso dizer,
cidade posso dizer,
exército dizer,
já meus para sempre e teus, nossos,
e um amplo resplendor
de raio, estrela, flor.

Tenho, vamos ver,
tenho o gosto de ir
eu, camponês, operário, gente simples,
tenho o gosto de ir
(é um exemplo)
a um banco e falar com o administrador,
não em inglês,
não em senhor,
senão dizer-lhe compañero como se diz em espanhol.

Tenho, vamos ver,
que sendo um negro
ninguém me pode deter
à porta de um dancing ou de um bar.
Ou melhor, na recepção de um hotel
gritar-me que não há lugar
um mínimo lugar e não um lugar colossal,
um pequeno lugar onde eu possa descansar.

Tenho, vamos ver,
que não há guarda rural
que me agarre e me prenda em um quartel,
nem me arranque e me expulse da minha terra
no meio do caminho real*.

Tenho que como tenho a terra tenho o mar,
não “country”,
não “jailáif”**,
não “tennis” e não “yatch”,
senão de praia e onda em onda,
gigante azul aberto democrático:
enfim, o mar.

Tenho, vamos ver,
que já aprendí a ler,
a contar,
tenho que já aprendí a escrever
e a pensar
e a rír.
Tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
Tenho, vamos ver,
tenho o que tería que ter.

* “camiño real” era o nome dado às ruas da Cuba monárquica ou ainda das grandes ruas.
** não descobri o que seja… provavelmente algo chique e de uso dos norte-americanos em Cuba.

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~ por jeffvasques em 19/01/2010.

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