Fragmentos de escrita semi-automática II: siderações

(fragmentos para retomar com calma e aprofundar)

Me abraça. Faz frio. Faz noite. Faz silêncio. Deixa o rio ali escorrendo. Me abraça. Esquece o vento. Esquece os animais de dentro. Me abraça, aqui, na superfície. Me abraça onde tua dor esquece. Só pele. Sol. Não desce. Não tenta entrar. Nem me toque como se fosse mais, além… não! à pele, à fala… esquece… vem… Quero tua carne. Não tua sede. Quero tua ossatura contra minha arcada. Quero esse quase nada no universo, esse atrito pouco, um oco de gosto e cheiro. Nada de horizontes, sonhos, olhares, apenas ossos e pele. E não tente me invadir, me domar, me amar como a um leãozinho, como a uma lua vista do fundo dágua, como a um calafrio. Nunca! Deixa ali nas várzeas todas as chaves e cadeados. E não me olha direto nos olhos. Desvia teus modos, tua raiva, tua dor clandestina, tua beleza corcunda. Despreza teu céu esta noite se quer minha companhia. Deita tuas estrelas no chão, ou as guarda numa caixa velha de músicas, onde uma bailarina ainda gira, gira, inocente, gira. Sim, as luzes se apagarão, sim. será breu. não se perca. tão pouco te guio! aguenta! usa as mãos, teus tatos, segue o faro, os contornos, o exato, não desce, não sobe, não transborde. Fica! Esfola tudo que não seja o agora contra meu peito. Não se entregue ao que não vou te dar. Não se dissolva em mim. Lambe. Apenas lambe. Ou desenha com as unhas tua raiva em minha coluna. Silêncio! Não diga nada. Não ouse usar qualquer palavra. Não sonhe investiduras contra a minha armada. Estou em guarda. Não soletre meu nome, não recite solenidades. Vão! Deixa teu verbo lá onde o sol ferve as memórias. Onde brilha a verdade mais que clara do tempo. Aqui, entre nós, palavras são como vento! Sombras! Frisos n’água… Mas fique. Estabelece-te aqui no limite, no entre. Fica à pele do instante. Não investe contra a murada, não peça conselhos à senhora-velha, não ofereça balas à menina-moça, não sussurre, não gemas… as portas e janelas foram bem trancadas… finge a fortaleza. Finge! Finge a ti mesmo como um amor armado de silêncios. Finge e Fica! Fica à porta, à janela, não se vá, não me adentra, fica. Não te quero ao longe, vulto vulgar. Não te quero qualquer outro, tantos que são você. mas nem lá, nem cá: te quero aqui. vis-à-vis. Fica. entre o osso e o sopro. Assente. sejamos sós e nus. Mas não me deite em teu corpo todo, não tente ler tua sorte em minha mão, não tente costurar tua fome às minhas vísceras, não, não arme armadilhas, que sou a voz antes de tua nuca sentir o arrepio. Espanta qualquer intenção de mergulho. Flutua, flana, frui. Vê as águas. Vê a suave superfície sonora. Seja assim. Só. Enfrenta a tua face crua. Não inventa. Não destrói. Não consome. Não vingue. Não voe. Não ame. Bebe a imagem apenas. Sorve o durante. Vê! Ouve! Sou tua calma (fecha os olhos). Sou teu horror diante desta calma (abre os olhos). Nada mais. Nada além. Te sirvo os sulcos do tempo. Te sirvo os húmus da vida. Nada aquém. Nada a fundo. Te acalma e me observa, cristalino. E quase nem me toca. Espera. Aceita. Ora. Sou apenas tua imagem e semelhança, Narciso.

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~ por jeffvasques em 24/01/2010.

7 Respostas to “Fragmentos de escrita semi-automática II: siderações”

  1. Que texto incrível, Jefferson. Para ser lido, relido e guardado. Abraço.

  2. “Mas não me deite em teu corpo todo, não tente ler tua sorte em minha mão, não tente costurar tua fome às minhas vísceras..” Muito Bom Jeff!!!

  3. Oi, Nydia! Relendo agora com mais calma, vejo que tem um núcleo forte, mas as repetições excessivas de algumas coisas ainda me incomodam… depois vou mexer com mais calma. Obrigado mesmo pela visita :) ainda não tive tempo de ir com calma no Longitudes, mas vou! :) Ah, os encontros de leitura devem começar daqui umas 2 semanas! te aviso!

    Hey, Rodrigo! Legal vc aparecer aqui! Volte sempre! estou postando regularmente! Abraçao, jeff

  4. Ei, mexer num texto desses é como ir contra ele. Não faça isso.
    Está demais!

  5. Adorei, abração, Letícia

  6. Outstanding. Incrível. Ainda não tinha lido sua prosa, foi a primeira vez. E foi lindo.

    Respondendo aos últimos comentários, eu não sei se quero publicar; não sei se vale – quero dizer, há tão poucas coisas a para selecionar, e eu continuo num processo desenfreado de mudanças que não sei se é melhor esperar para ver; ainda não estabilizei, mesmo que ligeiramente. Tudo oscila o tempo inteiro, aí fica difícil.
    Sobre o Pessoa, eu ainda li muito pouco dele (assim, fora das apostilas – que são titicas de nada). Eu tive um projeto de escrever poesia nas lousas das salas ano passado, no colégio (que durou pouco), e coletei aquele trecho – grande demais para escrever na lousa, mas que me tocou em algum lugar. Estou para ler mais, mas eu não tenho muita resistência para ler poesia, eu costumo me cansar depressa.
    Ah, acho que chega de falar, né? Um beijo!

  7. é um texto intenso, o coração até se aperta de tão carne, pele e osso.

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