Pessoas

Como acabar
com essa dúvida
que se me assoma?

Serei mais
que um heterônimo
de Pessoa?

Fuçando num caderno antigo achei esses versinhos bobinhos, aí de cima, mas que traduzem algo que até hoje sinto… Fernando Pessoa é meu mestre secreto e meu aberto inimigo. Pessoa é a minha maior revelação e maldição. Sempre fujo de sua poesia. Sem perceber, sempre retorno a ela. Não acreditava que alguém era capaz de dizer algo que fosse tão escondidamente eu, não acreditava que alguém fosse capaz de expor suas vísceras ao sol com tamanha delicadeza, não acreditava na sua existência… tão pouco Fernando acreditava. Sua poesia é a mais linda, profunda e forte que alguma vez já li, mas é também de uma resignação e impotência terríveis que me doem e me assustam. Oscilo entre aceitar Pessoa em mim e deixar a vida ser apenas pra lá da janela, ou matá-lo e deitar seus restos no porão mais baixo de minhas memórias, buscando, assim, ser uma poesia que aja no mundo, não se deixando esmagar. Pessoa foi esmagado, sufocado, dissolvido pelo mundo e se defendeu como pode, com sua poesia e com sua bebida. Hoje, vejo que o possível, o necessário, o urgente é regurgitá-lo, degluti-lo, digeri-lo… Necessário destilar a raiva e a revolta de Pessoa de toda a resignação, de todo não-agir, buscar a origem solar de sua noite. É necessário profaná-lo.

Mergulhado nisso tudo, baixei um documentário da TV portuguesa sobre esse figura. Muito do que foi dito ali eu já sabia, mas algumas coisas ainda me surpreendem:

-> Guardava tudo quanto escrevia num enorme baú, numa arca. Publicou apenas “Mensagem” em vida (e um ou outro poema em revistas). Milhares de escritos foram descobertos após a sua morte e assim seu legado veio à tona, revolucionando a literatura mundial. Até hoje ainda existem inéditos na arca!

-> Com 6 anos de idade, Fernando inventa seu primeiro heterônimo, ou personagem, e até o fim de sua vida cria 72 outros!

-> Tem uma única relação amorosa conhecida com Ophelia Queiroz (quando a conheceu ela tinha 19 e ele 31 anos). Depois de 8 meses de relação termina o namoro pois diz que sua vida está cada vez mais devota de mestres que não permitem nem perdoam, enfim, a deixa pela literatura. Há um conjunto de suas cartas de amor (“ridículas” como diria num poema) neste fantástico site, aqui.. Leia 1 ou 2 de suas cartas só pra sentir o gostinho de Pessoa apaixonado. Ah, ela criou um heterônimo também pra ele, o chamava de Ferdinnand Personne. “Personne” significa ninguém em francês.

Selecionei algumas coisinhas bonitas pra fechar este post Pessoal: uma comovente carta de Fernando para um jovem poeta, um vídeo onde a Maria Bethânia recita o lindo poeminha “Para ser grande…” e canta o poema “Segue teu destino” de Ricardo Reis! Ao final, ainda, coloco um poeminha de Fernando que acho dos mais lindos, perfeito de forma e conteúdo:

Carta a um jovem poeta

“(…)
Tenho vivido tantas filosofias e tantas poéticas que me sinto já velho, e isto faz com que me dê o direito de o aconselhar, como Keats a Shelley, que esteja de vez em quando com as asas fechadas. Há um grande prazer estético às vezes em deixar passar sem exprimir uma emoção cuja passagem nos exige palavras. Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais afastadas e as melhores horas e fixar só aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. Nenhum poeta tem o direito de fazer versos porque sinta a necessidade de os fazer. Há só a fazer aqueles versos cuja inspiração é perfumada de imortalidade. (…)

A sua sensibilidade dói-me. Por certo que outrora nos encontrámos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro em segredo o nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Tinham-nos tirado os brinquedos, porque nós teimávamos que os soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais preciosa e esplêndida que os soldados-gente e os barcos reais. Nós andámos longas horas pela quinta. Como nos tinham tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade — que paga de seda para os nossos sacrifícios! — os soldados de chumbo e os barcos de latão; e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com eles. A hora (não se recorda?) essa era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua cor e o seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por uma astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que apreciam as partidas que lhes fazem, porque são mostras de afeição. Foram belas essas horas que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ter essas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel da seda da nossa recordação de tudo aquilo. Os soldados, pobres deles, furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas dos barcos estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso exílio é este — o terem-nos embrulhado os brinquedos de antes da Vida, terem-nos posto na prateleira que está exactamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos por mãos que cheguem aonde não chegamos os nossos companheiros de sonho, os soldados e os barcos? Sim, e mesmo nós próprios, porque nós não éramos isto que somos… Éramos duma artificialidade mais divina…

Escrevo e divago, e tudo isto parece-me que foi uma realidade. Tenho a sensibilidade tão à flor da imaginação que quase choro com isto, e sou outra vez a criança feliz que nunca fui, e as alamedas e os brinquedos, e apenas, no fim de tudo, a supérflua realidade da Vida…

Perdoe-me que lhe escreva assim… A Vida, afinal, vale a pena que se lhe diga isto. Deus escuta-me talvez, mas de si ouve, como todos que escutam. A tragédia foi esta, mas não houve dramaturgo que a escrevesse…” Fernando Pessoa (1914?)

Bethânia canta poesia de Ricardo Reis

“não, não digas nada
supor o que dirá
a tua boca velada
é ouvi-lo já
é ouvi-lo melhor
do que o dirias
o que és não vem à flor
das frases e dos dias
és melhor do que tu
não digas nada, sê
graça do corpo nu
que invisível se vê”

Anúncios

~ por jeffvasques em 03/02/2010.

Uma resposta to “Pessoas”

  1. Que dizer mais de Pessoa… Desde minha adolescência, leio, releio, não consigo viver sem sua poesia. Drummond e Pessoa, Mestres, para mim, imprescindíveis.

    Meu e-mail, Jeff: nydiabonetti@bol.com.br. Quem sabe um dia dá certo e eu apareço. :) beijoo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: