Manuel Scorza (Peru)

Por indicação da Laís (obrigado!), fui apresentado ao escritor peruano Manuel Scorza. Como ainda estou me aproximando de sua literatura, fica aqui um resuminho rápido de quem foi e abaixo a tra(b)dução que fiz de dois poemas. Confesso que sua poesia ainda não me pegou (continuo lendo!), mas pelo que percebi o seu forte é mesmo a prosa. Esses dois poemas lembram muito a temática do poema “Aos que vão nascer” do Brecht… (aliás, em algum momento preciso falar desse monstro revolucionário, que escreveu muito mais que poemas-político-didáticos, como, por exemplo, poesia erótica!)

Manuel Scorza (1928-1983)

Scorza nasceu no Peru, em 9 de setembro de 1928. Foi romancista e poeta comprometido com as lutas sociais peruanas. Sua militância política lhe valeu vários exílios e muitas prisões. Seu primeiro livro foi uma coletânea de poesias: Las imprecaciones (1955). No auge de sua carreira, adotou o que ele mesmo chamou de “inconsciente coletivo índio” e passou a desempenhar um papel relevante no quadro político-social de seu país. Sob o título geral de “La guerra silenciosa”, contou, em cinco volumes, a história das insurreições camponesas que agitaram o Peru de 1955 a 1962: Redoble por rancas (1970), Historia de garabobo, el invisible (1972), El jinete insomne (1977), Cantar de Agapito Robles (1977) e La tumba del relampago. A grande novidade desses romances é que misturava a denúncia ao realismo mágico, portanto não se prendendo apenas à história, mas absorvendo mitos incas com pitadas de sua própria fantasia. Parece saboroso! Faleceu em 1983, num desastre aéreo nas proximidades de Madri.

Epístola aos poetas que virão

Talvez amanhã os poetas perguntem
por que não celebramos a graciosidade das garotas;
Quiçá amanhã os poetas perguntem
por que nossos poemas
eram largas avenidas por onde vinha a cólera ardente.

Eu respondo: por todas as partes se ouvia pranto,
por todas as partes nos cercava um muro de ondas negras.
Seria a poesia
um solitário filete de orvalho?

Tinha que ser um relâmpago perpétuo.

Eu vos digo:
enquanto alguém padeça,
a rosa não poderá ser bela;
Enquanto alguém olhe o pão com inveja,
o trigo não poderá dormir;
Enquanto os mendigos chorem de frio na noite,
meu coração não sorrirá.

Mate a tristeza, poeta.
Matemos a tristeza com um pau.
Há coisas mais altas
que chorar o amor de tardes perdidas:
o rumor de um povo que desperta,
isso é mais belo que o orvalho.
O metal resplandescente de sua cólera,
isso é mais belo que a lua.
Um homem verdadeiramente livre,
Isso é mais belo que o diamante.

Porque o homem despertou,
e o fogo fugiu de sua prisão de cinzas
para queimar o mundo onde esteve a tristeza.

Sou o desterrado

América,
a mim também você deve ouvir.
Eu sou o estudante
que tem um só traje e muitas condenações.
Eu sou o desterrado
que não encontra a porta nas pensões.
Te digo que nas ruas
e nos terraços e nas cozinhas,
e ao fim de cada dia em meu peito
algo está morrendo.

Escuta-me:
Eu sou o desterrado,
eu vaguei pelas ruas
até que os cães
lamberam meu amor desesperados.
Lembre de mim!
Há dias que não tenho vontade
de me olhar,
dias em que até os pássaros
apodrecem à metade do vôo.

Amor, amor!
Tu dormiste
em quartos imundos;
Tu não sabes o que é viver
com uma mulher que costura sua roupa chorando!

Ai, durante séculos os poetas calaram
e o silêncio só se escutava.
Um sussurro de abelhas que soavam,
até que já não pudemos mais,
e a dor começou a manchar tudo:
a manhã,
o amor,
o papel onde cantávamos.
Um dia a dor
começou a gotejar desde baixo,
davam os muros gritos pungentes,
uma mão amarguíssima inverteu meu peito.
Agora venho a ti gemendo,
aqui está minha voz encarceirada debaixo desta fronte, demolido.

De “Las imprecaciones” 1955

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~ por jeffvasques em 05/02/2010.

Uma resposta to “Manuel Scorza (Peru)”

  1. Ah, estes (nós) brasileiros, que não conhecemos a América Latina, e este tão fantástico e real mundo de Manuel Scorza.

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