Fragmentos de escrita semi-automática I: O esquecimento

a sombra escava em meu peito os sons mudos muídos de teus dentes, risos que acendem um farol negro que mostra só o erro, canto de sereia invertido. a sombra escava em meu peito a terra toda que te cubra o corpo até os olhos (do olhar primeiro em que te desejei o medo). algo te rumina nas madrugadas de meu corpo, mastigando lento tuas pálpebras, o desejo de teu pescoço e o gosto de tua primeira língua; dissolvendo a tua face dentre tantas, apagando tuas pegadas de meu dorso. luz de lua afiada que separa, como couro da banha, meu escuro-sedento de tua pele clara. o negror-dos-fins afundando seus dentes-de-não em tuas entranhas, reentrâncias, dobras, vãos. sinto os séculos que habitam os segundos fervendo o caldo grosso de nossos líquidos, derretendo os suores, salivas, cílios, fílios… teus lábios apodrecendo, suaves, ao contato de outros pares… o azedo das palavras-não-ditas fermentando no estômago das bocas (vazias)… essa grossa e opaca fervedura de nuncas-jamais donde evaporam-se os silêncios-dos-corpos-que-respirávamos-juntos…

tuas risadas – pombas negras ecoando assustadas pela casa – secarão como cascas de mofo às paredes brancas. e teu gozo, jorro de eumenino-sustos-e-lírios, vai se putrefazendo junto ao caldo gorduroso de tantos outros ruídos e prazeres cotidianos, vis, mesquinhos. um corpo dentro do outro se desfazendo. a digestão longa de tuas mãos, esse bolo de desejo-morto descendo os intestinos, a decomposição maciça de tudo que foi encontro, caminho. pela garganta da noite te regurgito ainda menina, voltam à boca mindinhos, a dor de tua voz rouca, um jeito só teu de chorar por dentro, uma noite inteira de mães mortas velando a si mesmas, e como quem vela um segredo, um silêncio, um filho, mastigo, mastigo o que era carne, mastigo, mastigo o sonho até o pó, mastigo, te mastigo a boca, o amargo, o nó, uma a uma as letras de teu nome, mastigo o púrpura, tuas unhas, tua dor inatingível de carinho, tua vulva… mordiduras! mastigo até deixar só a textura de teu rastro escuro na língua. te desamo até os gânglios, até os ossos. desbrilho teus olhos no descer necessário dos esôfagos. te obrigo a ser em mim o oco. teus olhares evolando-se nos gases próprios do apodrecimento donde teu rosto cada vez menos brilha, em breu, fátuo-fogo.

aguardo na dor lenta dos peristálticos movimentos a deglutição perfeita de teu miolo ainda vivo de ausência.

Anúncios

~ por jeffvasques em 07/02/2010.

3 Respostas to “Fragmentos de escrita semi-automática I: O esquecimento”

  1. absolutamente visceral;;;
    incrível

  2. as palavras que escolhes, as mãos – coisa incrível as mãos –
    “um corpo dentro do outro se desfazendo” – fiz uma imagem real sobre isso, e vejo, e sinto.

    lindo.

  3. Lindo!…Um belo e insólito passeio pelas entranahs de uma poesia lírica, ultra-romântica e surreal!…Parabéns e sucesso!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: