Catando feijão III – Nunca mais corvos e Poe

(Cantando feijão: poemas que foram excluídos da seleção final de meu livrinho, como pedras ou cascas secas.)


Embalado pelo tom macabro dos meus últimos dois posts aproveito pra ressuscitar aqui mais um poema de estilo similar que foi deixado de fora do meu livrinho de poesias. É um poema que fiz numa época em que estava fortemente influenciado pelas leituras decadentistas de Edgar Allan Poe (à esquerda na foto) e Baudelaire (à direita). (Aliás, me lembrei que o poemeto “Cena”, dois posts atrás, certamente é influência do poema “Uma Carniça” de Baudelaire, do “Flores do Mal”, pai de toda a linhagem posterior de poetas malditos… hoje, o mundo é tão mais terrível e tétrico do que na época de Baudelaire que tá difícil até de ser poeta, quanto mais “maldito”). Bom, voltando, o meu poema “Nunca mais?” é uma singela homenagem à poética de Poe, onde utilizo elementos do seu poema mais famoso “O Corvo”, mas, principalmente, sob influência direta de seu texto “Filosofia da Composição“, onde explica, passo por passo, como montou seu poema “O Corvo” de forma totalmente racional, planejada: pensou que efeito queria causar no público; qual tamanho do poema pra isso; que tipo de sonoridade usar; métrica; que imagens suscitar; etc

Bem, tentei seguir o método do Poe ao fazer o poema “Nunca mais?”, e, claro, ficou bizarro, uma construção toda barroca, travada… Percebi que, ou eu não dava pra coisa, ou esse método todo racional de construção de Poe era furada (ou, ambos, sim, ambos). Tempos depois confirmei, em debates com estudiosos do Poe, que é mesmo pura lorota que o Edigárde tenha seguido seu planejamento na construção desse famoso poema. O “Filosofia da Composição” é uma criação, assim como o poema “O Corvo”, e que tenta, a posteriori, transmitir uma imagem de pura engenharia poética. Poe queria quebrar a idéia clássica da necessidade de inspiração para se fazer poesia, mesmo que isso custasse exagerar a racionalidade de seu processo de criação. A tentativa de convencer o leitor sobre sua engenharia é boa e vale a leitura desse texto que é um dos fundadores da modernidade na literatura (o texto não é longo!): Filosofia da Composição.

Bom, pra entender melhor meu poema seria interessante conhecer o poema “O Corvo”. Felizmente, há traduções fantásticas para o português de nada menos do que: Fernando Pessoa, Machado de Assis, Haroldo de Campos, Paulo Leminski!!! Pra mim, a melhor tradução é do Pessoa (apesar dele não inserir o nome de “Lenore”, personagem importante da história, em sua tradução). A tradução feita pelo Leminski, atualizando a linguagem para nosso tempo, é saborosíssima! O Machado erra completamente a mão, e só achei uma estrofe da tradução do Haroldo (não entendi se ele traduziu inteiro ou só uma estrofe mesmo). Coloco abaixo os links para cada uma dessas traduções (menos do Haroldo), dando o gostinho da primeira estrofe de cada uma. Ah, e, de brinde, vai o episódio do Simpsons em que representam o poema “O Corvo” – em versos! – com as devidas subversões satíricas. (Ah, claro, no final de tudo, se ainda tiver paciência, tem meu poema construído de forma totalmente racional, sem o uso de musas inspiradoras, como queria o mestre Poe.)

“O Corvo” – tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

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“O Corvo” – tradução de Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

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“O Corvo” – tradução de Haroldo de Campos

E o corvo, sem revôo, pára e pousa, pára e pousa
No pálido busto de Palas, justo sobre meus umbrais;
E seus olhos têm o fogo de um demônio que repousa,
E o lampião no soalho faz, torvo, a sombra onde ele jaz;
E minha alma dos refolhos dessa sombra onde ele jaz
Ergue o vôo – nunca mais!

“O Corvo” – tradução de Paulo Leminski – ERRATA: Essa tradução é falsamente atribuída a Leminski (descubri depois de publicar o post). A autoria correta é: Antônio Thadeu Wojciechowski, Roberto Prado, Marcos Prado e Edilson Del Grassi. publicado na revista Raposa em 1985 e republicado em Os catalépticos, Lagarto Editores, Curitiba, 1991.

Num dia desses,
no exato momento do último instante
eu, bêbado como sempre,
num sonho de escriba extravagante
delirava às vezes demais

Daquele gélido julho
não vou esquecer jamais.
Eu, matando saudades da morta
sugava do litro e de um livro
que já não idolatro mais.

Dois toques na porta.
Eu, com um copo a mais
tive a nítida impressão.
“Um estúpido corvo bate à minha porta.
Só pode ser isso, nada mais”.

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“O Corvo” – versão dos Simpsons

Nunca mais? (à poética de Poe)

de Jefferson Vasques

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava.

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava, esquece.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Graves batidas à grande porta
ecoando incertas entre dois mundos (murros)
o gótico timbre da memória
no derradeiro umbral mediúnico.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Sufocados sons arranham a vida
tampa de madeira, papel e tinta
roem-raspam-riscam-arranham até
parada a respiração cardíaca.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Ah, Lembrança! Essa vaga senhora…
É, sim, preciso enterrar todos vivos,
mas é preciso enterrá-los mortos.
Esquecimento! Às vagas, Lenora…

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava.

Uma rede balança na varanda
e uma pá escrava, escreve.

Volta a cavar a vala em valsa
o velório cântico das reticências…
num canto o busto de Atenas chora,
n’outro, ri de um corvo um esqueleto.

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~ por jeffvasques em 09/02/2010.

Uma resposta to “Catando feijão III – Nunca mais corvos e Poe”

  1. Sexta feira, tarde livre, na preguiça de uma rede, balançando na varanda, leio finalmente E. A. Poe (um ilustre desconhecido para mim).
    Muito bonito, obrigada Jefferson.
    abs,
    sonia

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