Mais poesia de Roque

Seguem algumas tra(b)duções do poeta-guerrilheiro de El Salvador, Roque Dalton. Quanto mais leio Roque mais admiro sua poesia… dentre os poetas revolucionários latinos, pra mim, é o mais interessante e inovador, é o que viveu de forma mais aberta o dilema entre ser revolucionário e ser poeta: seus poemas são sempre carregados de ironia e sarcasmo contras os valores burgueses e contra a própria idéia de poesia, de poeta, de artista etc. Ah, descobri que Júlio Cortázar era profundo admirador de Dalton! No final deste post, segue de brinde o poema “Alta hora da noite” do Dalton na declamação de Cortázar. :) (Você pode encontrar tra(b)duções que fiz de outros poemas de Roque no blog antigo, aqui.)

EPIGRAMA

Somos o casal menos infinito e menos adâmico
que poderia se encontrar nestes último 30 anos de História.

Do ponto de vista muscular
temos feito pouco mais que dois cachorros.
Desde o ângulo cultural
temos despertado bem pouca inveja.

Mas este amor nos devolveu melhorados ao mundo
e, entre nós, inesquecíveis.

Agora vamos fazer que alguém sorria
ou saboreie um pedacinho da doce tristeza
falando de nosso amor neste poema.

LA JOIE DE AIMER

Não me ames
para esgotar teu destino.
Não me ames
com a fé de construir uma tragédia contemporânea.
Ria-te à todas luzes, carinho.
Ria em toda esta etapa de bela vizinhança.
Ria-te, ria-te,
ainda que seja de mim.

TERCEIRO POEMA DE AMOR

A quem diga que nosso amor é extraordinário
porque nasceu de circunstâncias extraordinárias
lhe responda que precisamente lutamos
para que um amor como o nosso
(amor entre companheiros de combate) chegue a ser em El Salvador
o amor mais comum e corrente quase o único.

DE UM REVOLUCIONÁRIO A J. L. BORGES *

É que para nosso Código de Honra,
você também, senhor,
foi dos tantos lúcidos que esgotaram a infâmia.
E em nosso Código de Honra
o dizer: “que escritor!”
é bem pouco atenuante;
é, quiçá,
outra infâmia…

* Jorge Luis Borges é um escritor argentino considerado – ao lado de Kafka – como um dos maiores inovadores da literatura do século XX. Um de seus livros mais famosos é o “História Universal da Infâmia”. Suas tendências conservadoras, de apoio à ditadura argentina, por exemplo, foram amplamente conhecidas à época.

NO FUTURO

Quando nossa sociedade for
basicamente justa,
ou seja,
socialista,
nas conversas de buteco
à hora das confissões íntimas
mais de um dirá, olhando pra baixo,
“eu tive propriedade privada sobre os meios de produção”
como quando hoje dizemos
“eu tive sífilis”
“eu tive tendências sexuais aberrantes”.

SÓ O INÍCIO

Uma amiga minha meio poetisa
definia assim o lamento
dos intelectuais da classe média:
“Sou prisioneiro da burguesia:
não posso sair de mim mesmo.”
E o mestre Bertold Brecht,
comunista, dramaturgo e poeta alemão
(nessa ordem) escreveu:
“Que é o assalto a um Banco
comparado ao crime
da fundação de um Banco?”
Por onde concluo
que se para sair de si mesmo
um intelectual da classe média
assalta um Banco,
não terá feito até então
senão ganhar cem anos de perdão.

PARA UM MELHOR AMOR

“O sexo é uma categoria política”
Kate Mills

Ninguém duvida que o sexo
é uma categoria no universo dos casais:
daí sua ternura e suas ramas selvagens.
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria familiar:
daí os filhos,
as noites em comum
e os dias divididos
(ele, buscando o pão na rua,
nas oficinas e nas fábricas;
ela, na retaguarda dos ofícios domésticos,
na estratégia e tática da cozinha
que permitam sobreviver à batalha comum
talvez até o fim do mês.)
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria econômica:
basta mencionar a prostituição,
as modas,
as seções do jornal que são para ela
ou são para ele.
Onde começa a confusão
é quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política.
Porque quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política
pode começar a deixar de ser mulher-em-si
para converter-se em mulher-para-si,
constituir a mulher em mulher
a partir de sua humanidade
e não de seu sexo,
pode começar a saber que o desodorante mágico com sabor de limão
e o sabão que acaricia voluptuosamente sua pele
são fabricados pela mesma empresa que fabrica o napalm
saber que o trabalho próprio do lar
é o trabalho próprio da classe social a que pertence esse lar,
que a diferença de sexos
brilha muito melhor na profunda noite amorosa
quando se conhece todos esses segredos
que nos mantinham mascarados e alheios.

Alta hora da noite

Quando souberes que morri não pronuncies meu nome
porque se deteria a morte e o repouso.

Tua voz, que é o sino dos cinco sentidos,
seria o tênue farol buscado por minha névoa.

Quando souberes que morri diga sílabas extravagantes,
pronuncia flor, abelha, lágrima, pão, tormenta.

Não deixes que teus lábios achem minhas onze letras.
Tenho sonho, amei, ganhei o silêncio.

Não pronuncies meu nome quando souberes que morri:
Desde a escura terra viria por tua voz.

Não pronuncies meu nome, não pronuncies meu nome.
Quando souberes que morri não pronuncies meu nome.

 

Anúncios

~ por jeffvasques em 22/02/2010.

3 Respostas to “Mais poesia de Roque”

  1. Puxa, gostei também!

    (mas algumas poesias dele bem que poderiam ser prosa, não?)

    • Ah, mas muito da poesia moderna flerta com a prosa, porque quer trazer a poesia cada vez mais pro chão… mas entendo o que vc quer dizer… “Para um melhor amor”, por exemplo, é meio mastigado né…

  2. Oi, Jeff! Gostei muito! Vou ler mais no seu outro blog!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: