Fragmentos de escrita semi-automática: A aceitação (3a versão e última)

O resto é correr.

Mas não teve tempo, a faca veio antes. E o furo. Ainda sem dor, era o susto. Mesmo assim correu. A dor correndo atrás. Talvez, nunca parar. Não seria ruim, pensou, viver uma vida correndo. faca no peito. Mas avistou o mar. E queria ser ave. Queria ser sol. Também nuvem. Mas a faca não permitiria. Ela tinha brilhos. Tinha quase sorrisos. Sorriu também. “Amor?”, imaginou. Ou o horizonte inteiro. dava o mesmo. Mas a dor o alcançou. Encolheu-se. era um vômito por dentro. O mar era também imenso. Pensou em chorar. Pensou em lembrar de alguém. Viu dois pés se aproximando. “Ajoelha!”, ouviu. A dor o segurava pelos cabelos. uma gaivota ou outra nem via. Esplêndido domingo. Sanguíneo era o negror de sua língua. O corpo dormente. Só ali, na faca, vivo. “Ajoelha!”, ouvia. Era digno de ser menos. O sol era digno. se punha. “Ajoelha!”. Pensou em chorar de novo. Mas o sangue do nariz saiu rindo. O cancro espesso descendo o reto, riu. Talvez, também, tenha rido. O mar indo e vindo. Zunia um zinco no ouvido. os dois pés tão próximos. um fogo frio ardeu as costas.Tossiu o estômago. O esôfago no chão. Ou o enjôo. Invejou o nojo. esplêndido domingo. Dois dentes. Ou três. Brilhando. Sol se pondo. Tinha pena da dor ser tão grande. A verdade brilhava no mar. O fogo no horizonte. A noite era líquida. e certa. “Ajoelha!”, ouviu, “e aceita!”. E de dentro lhe saiu uma víbora. Uma naja. uma última coisa. Uma faca. (Silêncio de lâmina trocando bainhas). (palavra cortada. ao meio.) (Silêncio travessando pescoço.) Engasgos. Jorros. E os dois caídos. Esplêndido domingo. Os olhos na areia se olhando. Sangues. Carinhos. espelhos secando. um defronte ao outro. o ar mal entrando. e saindo. asfixia das nuvens paradas. nem lua. nem nada. E uma voz mal dizendo: “te amo”, “te amo”. mais jorros. engasgos. Os sorrisos expondo-se. aos pássaros. O mar chegando. arrastando peles. panos. e o peso dos ossos deixando, na areia, marcas. O sal coagulando ambos. Vento abrindo o lacre às carnes, os gomos escuros dos óleos. Cancros de tendão, terra e sal. o pôr do sol. aves. “Amor”, imaginou. mares. e logo mais, oceano.

este exercício foi feito a partir do estímulo desta música:

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~ por jeffvasques em 26/02/2010.

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