Buk

Três tra(b)duções que fiz do Bukowski. O primeiro poema traz esse seu “lirismo” duro, de lágrimas secas; o segundo parte de seu sarcasmo pela vida dita normal de cada um; o último mostra todo seu desprezo pela literatura e, em especial, pela sua (vejam, esse desprezo é também construído, seu lugar comum tipico).

Um sorriso para relembrar

Nós tínhamos peixes dourados e eles davam voltas e voltas
no aquário sobre a mesa perto da cortina pesada
que cobria a janela panorâmica e
minha mãe, sempre sorrindo, querendo que a gente
ficasse feliz, me dizia: “Alegria, Henry!”
e ela estava certa: é melhor ser feliz se você
pode.
Mas meu pai continuava batendo nela e em mim várias vezes na semana enquanto
se enfurecia em seus 1m e 80, porque não conseguia
entender o que estava atacando ele por dentro.

Minha mãe, pobre peixe,
querendo ser feliz, apanhando duas ou três vezes por
semana, me dizendo para ser feliz: “Henry, sorria!
Por que você nunca sorri?”

E então ela sorria, para me mostrar como, e era o
o sorriso mais triste que eu já vi.

Um dia os dourados morreram, todos os cinco,
eles boiaram na água, assim de lado, seus
olhos abertos ainda,
e quando meu pai chegou em casa ele os jogou pro gato
ali no chão da cozinha e nós assistíamos enquanto minha mãe
sorria.

E a lua e as estrelas e o mundo

Longas caminhadas à noite –
isso é o que é bom pra alma:
espiando pelas janelas
as esposas cansadas
tentando afastar
seus maridos pirados de cerveja.

Eu gosto de seus livros

Na fila de apostas outro
dia
um homem atrás de mim perguntou,
“Você é Henry
Chinaski?”

“Uh hum”, eu respondi.

“Eu gosto de seus livros”, ele
mandou.

“Obrigado”, eu respondi.

“Quem você prefere nesta
corrida?”, ele perguntou.

“Uh hum”, eu respondi.

“Eu gosto do cavalo 4”, ele
me disse.

Eu fiz minha aposta e voltei
pro meu lugar…

Na próxima corrida eu estou esperando
na fila e aqui está o mesmo homem
atrás de mim
de novo.
Tem pelo menos umas 50 filas
mas
ele tinha que achar a minha
de novo.

“Eu acho que esta corrida favorece
os fundistas”, ele disse para as costas
do meu pescoço. “A pista parece
pesada.”

“Escute”, eu disse, sem olhar
ao redor, “é dar sorte ao azar
falar sobre cavalos na
pista…”

“Que tipo de regra é essa?”
ele perguntou. “Deus não faz
regras…”

Eu me virei e olhei pra ele:
“talvez não, mas eu
faço.”

Depois da próxima corrida
eu fui pra fila, e dei uma espiada
atrás:
ele não estava.

Perdi outro leitor.

Eu perco 2 ou 3 por
semana.

Beleza.

Vamos deixar que voltem pro
Kafka.

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~ por jeffvasques em 27/02/2010.

Uma resposta to “Buk”

  1. Ótimas tra(b)duções!
    Muito bom!

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