Casa das Américas

Sabia que existia no IEL (instituto de estudos da linguagem da unicamp) a revista Casa das Américas, que é uma organização cubana muito porreta que existe desde a revolução e que promove a cultura latino-americana… Seus prêmio literários lançaram diversos artistas porretas como Roque Dalton (traduzido aqui neste blog) e Eduardo Galeano. Fui procurar no acervo e descobri que o IEL tem essa revista arquivada desde a década de 60!!!! Aaaahhhhh! Agora vou eu, aos poucos e desesperado, lendo uma por uma e traduzindo coisas aqui pra vocês… este primeiro que traduzo é o Nelson Simon, um dos expoentes da poesia homoerótica de Cuba! É! Isso mesmo! Poesia homoerótica em Cuba: vanguardíssima! ;)

RAGAZZO

A palavra “ragazzo” não tem tradução:
aprendi isso debaixo da luz intensa do verão de Roma,
ainda fascinado pelo mármore piedoso
da fonte de Trevi; enquanto percorria
– invisível e absorto – Piazza Venezia.

Perdido na conversação sem sentido
que sustentam os turistas; cansado
de admirar os estragos do tempo
que faz pó da carne e silêncio da pedra,
me sentei em um banco
a ver como a tarde descia até Trastevere.
Com ela, envolta em suas favas, ia minha alma,
e alguma ilusão vã como o país do qual havia chegado.
(Por então havia compreendido que a ilha
sempre falará de doermos como um cardo, que, pobre
se crava em nosso peito.)

A palavra “ragazzo” não tem tradução:
não a busque em vão nos dicionários,
não pergunte por seu significado nem nas praças mais nobres,
nem nas sórdidas tavernas onde o fumo do tabaco
e o odor da cerveja se entrecruzam como um cisne invisível
que te empurra até a tentação.
Os sensuais muchacos de La Habana,
abertamente tristes com suas praias,
nunca poderão ser nomeados com a palavra “ragazzi”.
Os alegres chicos de Andaluzia, com lábios
que se oferecem qual carnosas olivas,
nunca vão rir com a doce perversidade
de um ragazzo. Os modernos jovens de Nova York,
com seus músculos perfeitos como o aço que sustenta sua cidade
não podem abraçar com essa paixão antiga,
mescla de sangue
e lírio tostado pelo sol mediterrâneo,
que arrastam os ragazzi.

O “ragazzo” se sentou a meu lado num simples banco da Piazza Venezia,
e a cidade de Roma, até então só esplendor de ruínas e de sonhos,
foi outra de repente. Teve o mistério e o glamour
que eu havia imaginado pra ela.
Falou e apenas pude compreender
ao estender sua mão, firme como as pontes que atravessamos,
que me convidava a andar,
quando junto a tarde descemos até o Trastevere.
Vimos passar os botes e algum pássaro cinza, qual fantasmas românticos.
Sentimos em nós o aroma culpado dos homens
que antes se haviam amado junto às calmas águas.
Nunca deixei sua mão. Nunca disse seu nome nem quis lhe perguntar.
Pode chamar-se Adriano, Fabrizzio, Giuseppe, ou Giuliano:
nomes que sempre deixariam sua música no esmalte de meus dentes.
Seu perfil me acompanha ainda como as imagens desses jarros
que vi nos museus. Sua boca me segue recordando
a lua atada sobre o Trastévere. Seu cabelo descuidado,
seu corpo perfeito e disposto
só podem caber nessa palavra intraduzível: “ragazzo”.
Eu aprendi aquela tarde o que já Pasolini
havia visto nos “pepillos” romanos,
o que o fazia viver, cada noite, à borda do abismo,
sempre dentro do punho pálido e sedutor da morte.

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~ por jeffvasques em 05/03/2010.

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