A beleza

Assisti, novamente, “Beleza Americana”. É um filme do main stream norte-americano, mas é um filme que me toca, acho muito bom. Bom, tanto na abordagem do tema, como dissolve a ilusão dessa linda rosa vermelha no jardim da família perfeita self-made, como na execução: os atores estão ótimos, as cenas são muito bonitas o tempo do filme bem encaixado.

Têm dois momentos no filme que me chacoalham (nossa, faz tempo que não uso esse verbo… nem sei se é assim): a cena do saco voando e a cena final do filme (ambas estão disponíveis aí embaixo pra vcs verem). Mexem porque falam de duas coisas que desde muito cedo senti (e ainda sinto, mas não mais tão frequentemente e não com tanta intensidade): a sensação da beleza gigantesca da vida escondida nas pequenas coisas, como se elas, as coisas, tivessem uma vida própria, uma conexão toda entre elas; e a sensação de não conseguir lidar com esse jorro gigante de beleza no peito, sensação de que se vai explodir por dentro. No meu livrinho de poesias, tenho uma sequência de três poemas que falam um pouco disso: Corpo Fátuo (manhã, tarde e noite). Essas sensações aparecem ali já um pouco deformadas por outros fatores, como o isolamento a que nos impomos através das coisas, solidão, etc… mas está ali também essa puta beleza radiante que é a vida do mínimo. Lá embaixo, no final de tudo, neste post, coloco uns trechinhos desses poemas.

Mas, na verdade, queria escrever este post pra dizer que ainda, às vezes, me sinto como o protagonista no final do filme: apesar de algo ruim que acontece (no caso do filme ele foi assassinado… ehehehe) consigo sentir uma felicidade estranha de estar vivo… apesar dos encontros e desencontros, das dores ou alegrias, a vida, nesses momentos, parece tão grande, tão acima da simples dor-ou-alegria. É como se fosse realmente explodir… Queria conseguir guardar esse sentimento… de sublime? de deus olhando tudo de cima? de como deveríamos sempre no sentir se não nos fragmentássemos tanto? de poeta classe-média pairando acima da realidade? Bom… de qualquer forma queria poder guardar isso, talvez como faz o rapaz, no filme, através de um vídeo (filma o saco bailando ao vento de antes da tempestade)… mas, talvez, tentar reter isso seja realmente o pior… o melhor, como nos ensina o protagonista no final do filme, é simplesmente deixar essa sensação fluir por você, sem detê-la, porque você também é a vida, atravessa ela e é atravessado por ela, não se distingue… O Whitman fala disso também em seu “Leaves of Grass” por um procedimento muito bonito que é de descrever várias ações simultâneas, milhares de coisas acontecendo ao mesmo tempo, no agora. Legal sentir isso de novo, hoje… fica o registro :)

Cena do saco plástico

“Foi nesse dia que percebi que havia
toda uma vida por trás das coisas
e essa força incrivelmente benevolente
que queria que eu soubesse
que não há razão para ter medo…
nunca.
Às vezes há tanta beleza no mundo.
Eu sinto como seu eu não pudesse aguentar…
e meu coração…
fosse simplesmente…
desistir… ”

Cena final do filme

“Às vezes eu sinto como se visse tudo
de uma vez e isso é tanto…
meu coração se enche como um balão
que está prestes a estourar…
Então lembro de relaxar…
e tento parar de querer reter isso.
Então tudo flui através de mim como chuva
e só posso sentir gratidão por todos os momentos
da minha vida idiota. Vocês não têm idéia do que
eu estou falando, mas nao se preocupe. um dia, saberão.”

Trechos das poesias Corpo-Fátuo (manhã, tarde e noite)

adoro como os ventos de antes das chuvas
balançam os fios as copas as saias.
antes da chuva é como se tudo fosse a última vez.
sensação boa de que a gente é pouco
muito pouco.
e as pessoas parecem que vão morrer.
mas eu não.
eu sento e sinto. chuva me devolve.
quando chove os seres se retraem
e dão espaço pro dizer das coisas em si.
no mundo poucos são os seres.
muitas são as coisas.
quando chove elas vem à tona. e eu as ajudo.
sempre trago sacos plásticos pra soltá-los ao vento.
e esse é o amor que sinto de vê-los sem rumo
e depois reencontrá-los
por acaso voando
em minha direção.

amar como deus é só pra deus. tento amar como coisa mais simples.
como essas aranhas que nos olham tranqüilamente tristes dos cantos das quinas.
queria amar como essa presença desapercebida de pernas finas e movimento simpático.
queria amar como calor desses raios chegando mansinho pelas fendas do dia
adentrando o quarto com sua morna calma rotineira.
queria amar como a pitangueira de frente à janela dando pitangas às formigas
e também amar como as formigas em sua humilde carreira pelos cômodos.
amar como essas plantinhas feias que brotam nas calhas, nas rachaduras, nas telhas.
duram quase nada mas sempre voltam
obstinadas
furando o oco em silêncio

Queria amar como meu imaginar alimenta na boca
o invisível.

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~ por jeffvasques em 06/03/2010.

10 Respostas to “A beleza”

  1. É isso!! É tudo isso!! como um balão! tanto amor nas coisas! dá medo de que isso seja assim por ser mais coisa que pessoa,
    por estar mais proxima das coisas que das pessoas! quanta coisa ta chacoalhando agora aqui… quero assistir o filme inteiro agora…

    • Mayara, vc matou em cheio: nesse sentimento de amor/plenitude que se transporta às coisas existe uma mistura de uma beleza sublime (a força de todas as mínimas coisas) com uma tristeza trágica (impossibilidade desse amor com outros seres). Que bom que tudo ta chacoalhando aí também! Depois me conta que achou do filme! beijos, jeff

  2. Outro dia estava lendo esta mesma sequencia de poesias no seu livro. Lindo. E claro, me remeteu ao filme, que é muito bom mesmo, a beleza americana… é um saco voando ao vento e é bonito mesmo!
    E eu sinto que eu não tenho essa alma de poeta de parar, admirar o mundo e relaxar. Devo dizer, é algo que eu me forço a fazer, mas que (ainda mais aqui na beira do rio araguaia) dá pra se fazer com plenitude. E apesar de não andar muito otimista com a vida, e até mesmo com meus sentimentos, ou talvez por isso mesmo, é uma inspiração ler este seu “post”.

    • Maíra, antes eu tinha muito mais esse olhar… hoje em dia é mais dificil mesmo por causa da correria de tudo… antes era natural, acontecia, eu via tanta beleza… hoje, só acontece quando sou jogado dentro disso por algum acontecimento forte… Maíra, também não nego um tanto de ingenuidade nesse meu post… também não sou um otimista (tenho esperança realista, que não espera)… mas é bom, de repente, ser invadido por essa sensação tão inocente de, talvez, como a vida deveria ser, poderia ser, ou mesmo, de como ela é, abaixo das várias camadas de pre-conceitos, separacoes economicas e culturais… bejinhos, jeff

  3. Eu posso dizer que concordo com o post inteiro. Esse filme me toca de uma maneira louca, principalmente na cena do saco plástico, eu sinto tanto isso… é uma delícia angustiante, eu sei lá. Sei que sou apaixonada pela cena do saco. Fico feliz de ler sua análise, é bom lembrar dela.
    beijos.

  4. Não tem continuação. Foi um relance de realidade. Depois tudo voltou ao normal, a expressão sumiu e só restou um olhar velho e cansado de vó que sente a idade arrombar a porta.

  5. Essas 2 cenas são incríveis. Do saco e a final.
    Genial. Fico tocada cada vez que vejo e leio. É a vida.

  6. Republicou isso em reflexosdeumameiavidae comentado:
    Apenas uma reflexão sobre essas duas cenas maravilhosas do filme por palavras de outra pessoa.

  7. esse filme me sacudiu

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