Quando se apagam as luzes é que eu me vingo espiando as estrelas.


A frase que dá título a este post é do Campos de Carvalho (1916-1998), um louco dos mais lúcidos, um fantástico escritor brasileiro e dos mais esquecidos, talvez o único verdadeiramente surrealista no Brasil. Conheci esse figura há 1 dia e meio e já estou apaixonado, não consigo parar de ler (agradeço o Cássio e o Gera! pela apresentação).

Pelos nomes de suas obras já dá pra sacar com que partes do cérebro ele fazia conexão: A Lua vem da Ásia (1956); Vaca de Nariz Sutil, (1961); A Chuva Imóvel, (1963); O Púcaro Búlgaro (1964).

Sua obra foi muito estigmatizada pois o tomavam como louco. Ele mesmo, anárquico e avesso a imprensa, se auto-estigmatizava, falava de seu encontro com o diabo (que havia durado 1 minuto, ou 1 minuto e meio). Se tornaram lendárias suas auto-entrevistas:

“Há quem me tome por louco e eu mesmo já me tomei. Mas basta uma visita ao hospício para me convencer — desgraçadamente — do contrário. É como se fosse um lobo vestido com a pele de um cordeiro: expulsam-me só pelo faro. O título do livro que estou escrevendo no momento é exatamente Maquinação da Máquina, Especulação de Espelho. Assim como a 4ª Sinfonia de Charles Ivens exige a presença de três maestros para ser bem interpretada, assim também penso que esse meu novo livro, para ser bem compreendido, deva ser lido simultaneamente por três leitores”. Revista O Cruzeiro, 30 de outubro de 1969.

Campos de Carvalho era um destruidor da racionalidade e da lógica (que pra ele figuravam apenas como desculpas organizadas para legitimar as atrocidades cometidas pelo ser humano), um questionador do status quo e da sociedade burguesa:

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.” (início do romance A Lua vem da Ásia).

Se dizia um clown, com seu sarcasmo e humor negro, bufão. Um palhaço que levava o absurdo à sério. Dizia que não ria nunca, porque doía:

Nasci clown e morrerei clown, embora a vida toda tenha sido um mero funcionário público. (Todos os funcionários públicos são meros, quando deveriam ser melros). Sou eternamente grato a um crítico que certa vez me chamou de clown (nem a minha própria mãe me chamou assim) — como sou grato aos que me chamaram de palhaço com segundas intenções ou mesmo com terceiras. Antes de morrer ainda hei de armar o meu pavilhão auricular, isto é, dourado, em todas as praças domundo e dele partir como um bólido rumo a todas as constelações, pregando a hilaridade e a língua de fora à boa maneira de Einstein e dos enforcados: ASSIM!”

Campos também teve uma pequena incursão pela poesia. Reproduzo abaixo um ótimo texto sobre o papel da poesia – caçado na tese de Geraldo Noel Arantes (“CAMPOS DE CARVALHO: INÉDITOS, DISPERSOS E RENEGADOS.”) [aliás, Campos é poquíssimo, ou quase-nada, estudado]. E, também, reproduzo uma poesia sua que achei em apenas mais um site da net, na revista Agulha, assim como um trecho em vídeo da adaptação da “Vaca de Nariz Sutil” para o teatro feito pelos Parlapatões (“Púcaro Búlgaro” também já foi adaptado para o teatro).

“Na poesia — mesmo em prosa — eu me vingo da minha frágil condição humana, tão rude e pesada, e posso ser profeta sem que me detenha a polícia ou me exterminem meus vizinhos da esquerda ou da direita, que não passam de pequenos burgueses. Graças à poesia posso mostrar-me nu em público, ridicularizar o ridículo (em mim, inclusive), tocar a fanfarra sem ser data nacional e fazer-me diabólico quando não acredito nem em Deus. Filtro-me através da poesia como uma água salobra e sem dignidade, cheia do lodo dos séculos e das algas impuras e despidas de mistério — eu que sou hipocampo. Faço da poesia o meu hino de revolta mas também de perdão, que entôo em pleno silêncio e sem nenhum coro estranho, a não ser o dos meus fantasmas, que afinal são eu mesmo sob a forma de mil espelhos e de ecos inenarráveis.”

OS SINOS DE IS – Campos de Carvalho

Meu coração é como o frio espectro de Is,
a submersa:
cobrem-no turvas águas silenciosas
e a fluida fauna dos pecados e das penas
que eu vivi outrora, quando vivo.
Tudo é profundo, inerte, escuro,
neste meu grande mundo extinto,
e é em vão que ainda perpassam sobre os seus escombros
sombras de sonhos, lívidas, incertas,
como peixes sonâmbulos.
De quando em vez, porém,
sinto nascer de mim, como de um estranho abismo,
cantos plangentes, mil vozes em coro,
que me surpreendem e animam como deuses
ou me apavoram.
Não sei como explicar – ninguém o sabe –
esses cantos funéreos ou divinos
que assim despertam e vibram no meu peito,
em meio à grande e densa noite de minha alma,
como sinos submersos…”

“Vaca de nariz sutil” no teatro (trecho)


Anúncios

~ por jeffvasques em 10/03/2010.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: