Washington Moraes

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Washington Moraes é um escritor mocoquense que teria sua obra quase que totalmente apagada da história não fosse o trabalho carinhoso de um grupo de amigos que pegaram os cadernos velhos e empoeriados do Washington para transcrevê-los no blog 256 fundos e prepararam uma edição em livro. Washington é uma espécie de poet-naif surrealista… na verdade, é muito mais… pego aqui alguns trechos de um texto bonito de Getulio Cardozo (amigo de Washington e um dos “recuperadores” de seus textos) pra tentar te aproximar de quem é esse fantástico escritor (o texto na íntegra pode ser visto aqui):

“Ele é o nosso Bukowski, Lima Barreto ainda nas brumas. Mas um Bukowski místico, vivendo entre a boemia e a contemplação do sagrado. Para completar o seu perfil talvez seja necessário lembrar São João da Cruz (o maior místico e poeta de língua espanhola).

Washington é daqueles poetas que se inscreve à margem da poesia brasileira, sem filiação a escola, pobre, alcoólatra, autodidata, vidente, maior e muito à frente de seu meio. O que sabe, o que busca, o que escreve, não tem valor de mercado. As suas visões místicas não se enquadram no cânone de qualquer religião. Sempre foi e sempre será um herege para a religião, para a sociedade, para a família. É um melancólico porque nada da modernidade o seduz.

Seus escritos são apontamentos do seu tempo de travessia no reino desse mundo, que prefiro chamar de sistema e que Kafka descreveu como o inferno. Mas é com sarcasmo que interpreta os papéis que lhe sobram nesse teatro, preferindo o picadeiro ao púlpito. É o profeta desse crepúsculo da modernidade que ri pelo caminho.

(…)

Apesar do seu vasto conhecimento, inclusive lingüístico, a narrativa do Washington vem daquela linha de sombra do sistema, daquela franja onde estão os esquecidos. É uma obra interrompida várias vezes, devido suas internações em hospícios, morando ora num lugar ora noutro. É até um milagre que se salvou parte de seus escritos, que eu e o Maicon encontramos numa velha caixa de papelão na edícula onde vive. (…)”

Parabenizo a iniciativa de “recuperação” dos textos de Washington realizado por Maycon Alves (historiador), Getulio Cardozo (poeta), Paulo José Vieira (poeta) e Gustavo Leonardi (músico). E convido todos a darem um pulo lá no blog de Washington pra ler poesias, contos, receitas de bolo, descrições de visões místicas, marchinhas de carnaval, enfim, coisas saborosíssimas como estas abaixo:

Receita da Mãe Preta (bolo na barra da batina, antiquíssima receita mocoquense)

Dois ovos gorados, ½ metro de tripa de vaca tuberculosa, ½ colher (de sopa) de gosma de urubu e ½ kg de bernes de cachorro vira-lata.
Bate-se tudo em um valhacouto de sicários. Pódice, assim como é uso na culinária mocoquense, bater tudo em um valhacouto de asseclas energúmenos, quando não se tem à mão um valhacouto de sicários.
Leve-se depois, ao forno. Já cozido, acrescenta-se uma pitada de vezo de ucasses e ½ xícara de cabotino sacripanta coado em jornal tradicional.
Pódice, querendo, saborear esta douçura acompanhada de um biltre, de um acipitino ou de uma malta acintosamente disposta em camadas ignaras.

Lá fora venta

Lá fora venta. Já faz noite alta.
Cá dentro em mim sinto haver uma falta
D´alguma coisa que ao certo não sei.
Talvez seja este ardente desejo
De ver tud´aquilo que não vejo
No intrincado enredo da Lei.

Os Cantos de Tua Boca

Como são lindos os cantos de tua boca, Maria Helena, quando estas tristes. São cantos sublimes. Em nenhum deles há ulceração, nota desafinada ou cuspe. Posso vê-los e ouvi-los. Creio que esta higiene e esta musicalidade provenham da tua pureza interior que tanto me encanta.
O que são os cantos de tua boca, Maria Helena? Serão simplesmente as comissuras externas bucais ou a agradabilidade do som de tua voz que emite quando falas?
Eu, por amar-te tanto, conheço palmo a palmo a topografia da tua boca. Por isso eu te peço: poupa o sorriso e preserva esta catadura que sempre desarmou as minhas investiduras. Cultiva a tristeza, Maria Helena, e jamais sorrias, para nunca deformares a beleza dos cantos de tua boca.

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~ por jeffvasques em 19/03/2010.

3 Respostas to “Washington Moraes”

  1. vou precisar arranjar um tempinho para passar no 256 fundos, “Os Cantos de Tua Boca” é muito bonito.

  2. Não se matas a alma, quando se entrega o corpo ao prazer, muito menos se cala o grito, o uivo de dizer: TE AMO AGORA E JAMAIS VOU DEIXAR VOCÊ.
    Não procuro um encontro, prefiro os desencontros que sempre me trouxeram você, insisto em caminhar por todo seu corpo, quero deixar a marca de meus passos em sua alma.
    Você vai ver o quanto doi, o quanto corroi ter que me esquecer, não vou responder- mas é melhor esconder a minha alma toda dentro de teu corpo, quando menos esperar irá perceber que eu nunca deixei de ser você.
    Minha alma gêmea, centelha do meu fogo, voracidade do meu falo, agora eu me calo e entrego de corpo e alma todo meu sentimento, trescalo na garganta o grito só uivo pelo teu prazer!
    Esqueça-me enquanto a tempo, não procure por você em mim, nem deixe que o tempo passe, apague dos caminhos do teu corpo ofegante as marcas dos meus passos…

  3. CORPO A CORPO
    Quantos sentimentos já sentimos juntos
    Quantos sofrimentos já sofremos juntos
    Quantos não já levamos juntos

    E ainda caminhamos, não esmorecemos nunca
    E ainda vivemos, não morremos nunca
    E ainda amamos, não desamamos nunca

    Corpo físico
    Físico corpo

    Corpo humano
    Humano corpo

    Corpo amigo
    Amigo corpo

    Já não nos aguentamos de tantos – sentimentos
    – sofrimentos
    – não

    Mas não cansamos e caminhamos CORPO A CORPO.

    ISMAR ERNANI DE OLIVEIRA.
    -POESIA, classificada em 1º lugar no V Concurso de Crônicas & Poesias, promovido pela Biblioteca: FRANCISCO PATI / BAIRRO DA LAPA – SÃO PAULO SP em 13/09/1985.

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