Ernesto Cardenal (Nicarágua)


Esta tra(b)dução aqui é uma homenagem ao meu casal de amig@s, Maíra e Alê, que corajosamente toparam sair do conforto baronense do centro produtivo-artístico de Campinas para se embrenhar no fim-início-de-mundo de São Félix do Araguaia onde trabalham, vivem, militam e aprontam suas artes. É uma homenagem a outro lutador que também vive em São Félix, Dom Pedro Casaldáliga, a quem, a Maíra e o Alê entregaram, a meu pedido, meu livrinho de poesias… homenagem de aspirante a poeta-lutador a um verdadeiro lutador-poeta.

Bem, todas essas homenagens se devem ao fato de eu ter achado, por acaso, hoje, esse grande poema-carta de Ernesto Cardenal a Dom Pedro Casaldáliga na revista “Casa de las Américas” de 1976!!! Fico feliz por esse acaso que permitiu homenagear tanta gente querida com uma tra(b)dução que, muito provavelmente, não existe em português (pelo menos não há referências na net). E mais feliz ainda por conhecer o lutador-poeta Ernesto Cardenal, de quem quero ler muito mais. (Fico sempre impressionado como vou descobrindo “novos” lutadores-poetas, sempre tão interessantes e sempre tão desconhecidos, mesmo pelos militantes (e poetas)!)

Como o poema é gigante, vou fazer apenas uma breve introdução ao Ernesto. Pra quem não conhece Casaldáliga, a quem o poema de Cardenal se dirige, coloco abaixo um pequeno vídeo com um trecho de sua entrevista no Roda Viva. O poema é longo, mas vale a leitura… tem uns sacadas muito fortes; o poema é todo fragmentado e, várias vezes, repentinamente interrompido, num ir e vir da imaginação do poeta pelo Brasil, pelo Araguaia, por sua própria realidade, pela realidade global do capitalismo decadente.

Ernesto Cardenal (1925)

É marxista e sacertode nicaraguense considerado um dos maiores poetas vivos da América Latina. Esteve preso e exilado pela resistência à ditadura feroz de Somoza mas a sua celebridade deriva de sua ligação com o regime socialista da Nicarágua e com a reprovação pública que recebeu do Papa João Paulo II. Em 2005 foi indicado ao Prêmio Nobel da Literatura. Vive na comunidade de Solentiname, que ele criou no arquipélago do lago principal da Nicarágua.

Epístola a Monsenhor Casaldáliga

“Monsenhor:
Li que em uma batida feita pela Polícia Militar
na Prelatura de São Félix, foram levados, entre
outras coisas, a tradução portuguesa (não sabia
que existia) de “Salmos” de Ernesto Cardenal. E
que a todos os detidos deram choques
por Salmos que muitos talvez não tinham lido.
Eu sofri por eles, e por tantos outros,
‘nas redes da morte’…‘nos laços do Abismo’
Irmãos meus e irmãs
com eletrodos nos seios, com eletrodos no pênis.
Lhe digo: esses Salmos aqui também foram proibidos
e Somoza disse há pouco em um discurso
que erradicaria o ‘obscurantismo’ em Solentiname.

Vi uma foto sua às margens do Araguaia
no dia de sua consagração, com sua mitra
que como sabemos é um sombreiro de palma
e seu cajado, um remo da Amazônia. E soube
que espera agora uma sentença do Tribunal Militar.
O imagino, em espera, sorridente como na foto (não
era pra câmera mas pra tudo que estava por vir),
à hora em que os bosques se tornam mais verdes
ou mais tristes,

Ao fundo a água bela do Araguaia
o sol fundindo-se atrás de latifúndios distantes.
A selva ali começa, ‘seu silêncio com uma surdez’.
Eu estive uma semana no Amazonas (Letícia) e recordo
as ribeiras de árvores recobertas por confusão e parasitas
como empresas financeiras.
Você ouviu de noite seus estranhos ruídos
(uns são como lamúrias e outros como gargalhadas).
Jaguar atrás da anta, anta espantando os macacos, os macacos
afugentando à…
araras?
(está em uma página de Humboldt)
como uma sociedade de classes.
Uma melancolia nas tardes como a dos pátios das penitenciárias.
No ar há umidade, e como um odor a DOPS…
Talvez sopre um vento triste do Nordeste
do triste Nordeste…
Há uma rã negra no negros igarapés
(li isso) uma rã que interroga: Porrr
quê? Porrr
quê?

Talvez salte um tucunaré. Alce o vôo uma garça graciosa
como Miss Brasil.
Pese às companhias, às empresas. A beleza
dessas ribeiras, prelúdio da sociedade que temos.
Que temos. Não poderão, ainda que tentem
tirar um planeta do sistema celeste.

Anda por ali a Anaconda? Anda
a Kennecott? *1
Lá, como aqui, o povo está com medo.
Os seculares, você escreveu,
“pela selva como jaguares, como pássaros”
Sabia o nome de um rapaz (Chico)
e o nome de uma garota (Rosa)
a tribo se vai rio acima.
Vêm as Companhias levantando os cercos. Passam
pelo céu de Mato Grosso os proprietários de terras em suas avionetas.
E não o convidam ao grande churrasco com o Ministro do Interior.
Semeando solidão as Companhias
vão levando o telégrafo para transmitir falsas notícias.
O transistor aos pobres, para as mentiras ao ouvido.
Proibida a verdade porque faz livres.
Solidão e divisão e puas.
Você é poeta e escreve metáforas. Mas também escreveu:
“a escravidão não é uma metáfora”.
E se internam até o alto Xingu
os caçadores de concessões bancárias usurárias.
O pranto nessas zonas, como a chuva amazônica.
A Polícia Militar lhe disse que
a Igreja só deve cuidar do “espírito”
mas e as crianças anêmicas pelas sociedades anônimas?

Talvez seja noite escura na Prelatura de São Felix.
Você sozinho, na casa da Missão, rodeado de selva,
a selva por onde vem avançando as corporações. É
a hora dos espiões do DOPS e dos pistoleiros das Companhias.
É um amigo à porta ou o Esquadrão da Morte?

Imagino (se há lua) uma lua melancólica da Amazônia
sua luz ilumina a propriedade privada.
Latifúndio não para cultivar, que isto fique claro,
senão para que o posseiro não faça sua pequena granja.

Noite escura. – “Irmão, quanto faltará pra chegar
Ao Paranará?*2 – “Não sabemos, irmão.
Não sabemos se estamos perto ou longe
Ou se já passamos. Mas rememos, irmão.”

Noite escura. Brilham
as luzinhas dos despossuídos nas margens.
Seus chorosos reflexos.
Longe, muito longe, riem as luzes do Rio de Janeiro
e as luzes de Brasília.

Como possuirão a terra se a terra a têm os proprietários?
Improdutivas, só valorizadas para a especulação
imobiliária e para gordos empréstimos do Banco do Brasil.
Ali Ele é sempre vendido por Trinda Dólares*3
no Rio das Mortes.
O preço de um peão. Não obstante
dois mil anos de inflação.

Noite escura. Há uma luzinha humilde (em que lugar
exatamente não sei)
um leprosário no Amazonas
ali estão os leprosos no cais
esperando o regresso da balsa do Che.

Vi que você cita minha Homenagem aos índios americanos
Me surpreende que o livro viajara tão distante até o alto Xingu
de onde você, monsenhor, os defende. Uma homenagem melhor!
Penso nos pataxós inoculados de varíola
de 10.000 cintas-largas só 500.
Os tapaima recebendo doces de açúcar com arsênio.
Outra tribo do Mato Grosso, dinamitada de um Cesna.
Não ressoa o ronco mangaré chamando as danças à lua,
as danças disfarçadas de mariposas, mascando a coca mística,
as garotas nuas pintadas com os desenhos simbólicos
da pele da jibóia, com guizos de sementes nos tornozelos
ao redor da Árvore da Vida (a palmeira de pitaya).
Uma cadeia de losangos representa a serpente, e dentro
de cada losango outras bordas decoradas, cada borda outra serpente.
De maneira que são muitas serpentes no corpo de uma só:
a organização comunal de muitos indivíduos. Pluralidade
dentro da unidade.
Ao princípio havia somente água e céu.
Tudo estava vazio, tudo era noite grande.
Depois se fez montanha, rios. Disse: “já está tudo ali”.
Os rios se chamaram uns aos outros por seus nomes.
Os homens antes eram macacos-pregos.
A terra tem a forma da árvore da fruta-pão.
Então havia uma escada para subir ao céu.
Colombo os encontrou em Cuba em um paraíso onde tudo era comum.
“A terra comum como o sol e a água, sem meum et tuum.”
Deram a ele uma tela e cortando-a em pedaços iguais
a repartiu entre toda a tribo.
Nenhuma tribo da América com propriedade privada, que eu saiba.
Os brancos trouxeram o dinheiro
a valorização monetária privatista das coisas.
(Gritos… crepitar de choças em chamas… tiros)
De 19.000 muducuras, 1.200. De 4.000 carajás, 400.
Os tapalumas: totalmente.
A apropriação privada do Éden
o Inferno Verde.
Como escreveu um jesuíta:
“a sede de sangue maior que o Rio”

Uma nova ordem. Melhor ainda
Um novo céu e nova terra.
Nova Jerusalém. Nem Nova Iorque nem Brasília.
Uma paixão pela transformação: a nostalgia
dessa cidade. Uma comunidade amada.
Somos estrangeiros na Cidade do Consumo.
O novo homem, e não o novo Oldsmobile. *4

Os ídolos são idealismos. Enquanto que os profetas
professam o materialismo dialético.
Idealismo: Miss Brasil na tela para tapar
100.000 prostitutas nas ruas de São Paulo.

E na futurista Brasília os marechais decrépitos
desde de seus escritórios executam formosas jovens por telefone
exterminam a alegre tribo com um telegrama
trêmulos, reumáticos e artríticos, cadavéricos
resguardados por gangsters gordos de óculos escuros.

Esta manhã o cupim entrou em minha cabana
onde estão livros (Fanon, Freire…
também Platão): uma sociedade perfeita
mas sem uma transformação
Por milhões de anos sem uma transformação.
Há pouco me perguntava um jornalista por que escrevo poesia:
pela mesma razão que Amós, Nahum, Ageo, Jeremias…
Você escreveu: “maldita a propriedade privada”.
E São Basílio: “donos dos bens comuns
porque foram os primeiros a pegá-los”.
Para os comunistas Deus não existe, a não ser a justiça.
Para os cristãos Deus não existe, sem a justiça.
Monsenhor, somos subversivos.
Cifra secreta num cartão em um arquivo quem sabe onde,
Seguidores do proletariado mal vestido e visionário, agitador
profissional, executado por conspirar contra o Sistema.
Era, você sabe, um suplício destinado aos subversivos
a cruz, aos reis políticos, não uma jóia de rubis
no peito de um bispo.
O profano não existe mais.
Ele não está mais pra lá dos céus atmosféricos.
Que importa, monsenhor, se a Polícia Militar ou a CIA
nos converte em alimento das bactérias do solo
e nos dispersa por todo o universo.
Pilatos pôs o letreiro em 4 idiomas SUBVERSIVO.
Um apressado na padaria.
Outro esperando um ônibus para ir ao trabalho.
Um rapaz de cabelo comprido cai numa rua de São Paulo.
Há ressurreição da carne. Se não
como pode haver revolução permanente?
Um dia “El Tiempo” saiu jubiloso às ruas de Bogotá
(até em Solentiname nos chegou) MORTO CAMILO TORRES
enormes letras negras
e está mais vivo que nunca desafiando ao “Tempo”.
Como também aquele editorial do New York Times
textualmente: “Se é verdade que morreu na Bolívia, como parece,
um mito acabou junto com um homem.”

E dizem em Brasília:
“Não vejais para nós visões verdaeiras, nos falando
coisas encantadoras, comtemplando ilusões”.
O milagre brasileiro
de um Hotel Hilton rodeado de favelas.
Sobe o preço das coisas
e baixa o preço dos homens.
Mão-de-obra tão barata quanto seja possível (para
eles não é a limpeza… é a Sinfonia de Beethoven).
E no Nordeste o estômago devora a si mesmo.
Sem Julião, *5 os capitais se multiplicam como bacilos.
Capitalismo, o pecado acumulado, como a poluição
de São Paulo
a mesma cor de whisky sobre São Paulo.
Sua pedra angular é a desigualdade.
Conheci no Amazonas a um famoso Mike
que exportava piranhas aos E.U.A.
e não podia enviar mais que duas em cada aquário,
para que uma fugisse sempre da outra:
Se são três ou mais se destroçam todas.
Assim este modelo brasileiro de piranhas.
Produção em massa de miséria, crime
em quantidades industriais. A morte
em produção em cadeia.
Mario-Japa pediu água no pau-de-arara
e lhe fizeram engolir meio quilo de sal.
Sem notícias devido à censura, apenas sabemos:
ali onde se juntam os helicópteros está o Corpo de Cristo.
Da violência eu diria:
existe a violência da Evolução
e a violência que retarda a Evolução.
(E um amor mais forte que o DOPS e o Esquadrão da Morte)
Mas
sadismo e masoquismo é a harmonia das classes
sadismo e masoquismo de opressores e oprimidos.
Porém o amor também é implacável (como o DOPS).
O anel de união pode levar alguém ao pau-de-arara, à
coronhadas de metralhadoras na cabeça, a
golpes na cara com punhos vendados, aos eletrodos.
Muitos por esse amor tem sido castrados.
Alguém sente a solidão de ser só indivíduos.
Talvez enquanto te escrevo você já tenha sido condenado.
Talvez eu depois estarei preso.
Profeta ali onde se juntam o Araguaia e o Xingu
e também poeta
Você é a voz dos que têm esparadrapos na boca.
Não é tempo agora de crítica literária.
Nem de atacar aos gorilas com poemas surrealistas.
E pra que metáforas se a escravidão não é metáfora
nem é metáfora a morte no Rio das Mortes
nem o Esquadrão da Morte?
Agora o povo chora no pau-de-arara.
Mas todo galo que canta na noite do Brasil
agora é subversivo
canta “Revolução”
E é subversivo, depois de cada noite,
como uma garota repartindo panfletos ou cartazes de Che
a cada aurora vermelha.

Saudações aos posseiros, peões, seculares da selva,
ao cacique tapirapé, às irmãzinhas de Foucauld, a Chico, a Rosa.

Te abraça,

Ernesto Cardenal.”

*1: grande empresa mineradora multi-nacional
*2: algum rio do Amazonas, provavelmente
*3: ref. 30 moedas a que Judas “vende” Jesus
*4: tipo de carro antigo
*5: na versão original está: “Si, Julião, …”, mas, entendendo que Julião, provavelmente, refere-se ao Julião que liderou as Ligas Camponesas no Nordeste, imagino que houve uma grafia errada (o texto na revista está cheio de erros de grafia/digitação) e que deve ser “Sin Julião…” o que dá mais sentido ao verso.

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~ por jeffvasques em 24/03/2010.

2 Respostas to “Ernesto Cardenal (Nicarágua)”

  1. “arquipélado” isso sim é homoerótico! hihihihi

    • ahahah… já foi corrigido! :) Maíra, tomo a liberdade de transcrever aqui um trecho do email que vc me enviou, porque acho que enriquece a leitura do poema, ok?

      “As vezes, vejo nesses padres revolucionários um olhar idealizado/idealista demais, do posseiro vítima, do índio bom selvagem, do latifúndio ogro. Quando não fazemos parte desta realidade, essas falas são bonitas, rere, se for pensar até metafóricas (pra ironizar o poeta), mas estando aqui, compreender esse olhar ajuda a entender também a linha de ação e práticas da Prelazia aqui, e os percursos que a história desta região tomou, neste contexto interessante de embate e ao mesmo tempo comodismo visível no dia-a-dia atual. Queira ou não, creio que há (e acho que sempre houve, apesar das mudanças que teve no movimento aqui) uma militância paternalista, de acolher os pobres/vítimas, mas sem conseguir atingir a autonomia, a formação, a organização, liberar a raiva pra transformação (aquela tomada de consciência). E após anos de ação aqui da Prelazia, vemos uma realidade estagnada, acomodada, desorganizada, alienada. Claro que é um reflexo também da conjuntura nacional e internacional, do momento histórico pelo que estamos passando, pelo poder da cultura de massa. Mas vemos aqui no povo de S. Felix, os sintomas da pobreza alienada: dependente, individualista, conservadora.

      Enfim, uma pequena análise bem crítica, sem desmerecer toda a importância que esses padres revolucionários e a teologia da libertação (que agora estou conhecendo na prática) tiveram na América Latina.

      Essa poesia com certeza faz respirar um pouco do ar que venta aqui (agora, mais como resquícios de um passado), tanto dos conflitos, como da própria atuação da Igreja/Prelazia.”

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