Revolver

Desafio dos poetinhas da semana: cada um escolheu uma canção brasileira a partir da qual outro poetinha deveria escrever um conto, ou uma peça ou um roteiro. Caiu pra mim a canção “Revolver” do Walter Franco (escolhida pelo Cássio). Abaixo segue o resultado do exercício. Antes, a letra da música. para ouvi-la clique aqui.

Revolver (Walter Franco)

Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar
Sorrir de doer
Doer de sangrar
Sangrar de morrer
Morrer de lembrar
Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar

Revólver (Jefferson Vasques)

de morrer. linda. e aquele seu cheiro logo antes de gozar. de animal selvagem acuado. prestes a morrer. o olho branco de zumbi, revirando de prazer. vontade de morder tua garganta. de enfiar um dedo no teu olho. vontade de mastigar tua língua. devagar. ainda adoro cheirar teu corpo. bem aqui, embaixo do teu braço. antes você tinha cócegas. também não sinto mais aquele teu cheiro tenso de azedo, daquele medo de alguém te pegar, ali, me chupando, em pleno. era muita dor o prazer que você me tinha. no início a gente chorava. lembra? tanta coisa que ardia. sorria de doer. doía de sangrar. mas fui acostumando. como os olhos no escuro. aos poucos. o olho aceita o breu, e você já anda entre os vultos. desenvolve prazeres com as sombras. e, às vezes, consegue se ver no espelho, sem olhos. ah, desculpa… você sabe que eu sempre tive um jeito meio poeta. acho que foi você que me fez poeta. lembra o primeiro poema que eu te escrevi? “de doer de sangrar / de morrer de vagar / assim vou / te esquecendo de lembrar / assim vou / te dormindo em mim / até o coração / des / cansar”. não era bonito. mas era tão verdade. como o vômito da primeira vez. já esqueceu? a primeira vez no meu quarto. foi meu primeiro beijo de língua… e eu não sabia ainda distinguir no meu estômago, dentre aquele monte de nojo brilhante, o gostoso. não conseguia aceitar ser tudo junto. então pus tudo pra fora. seus olhos continuam tão lindos. me vejo neles, sorrindo. por isso gosto sempre de te abrir as pálpebras. assim. melhor. me dá um bejinho. você sempre me mordia os lábios, depois o pescoço, a orelha. o mesmo percurso. sempre. tinha calafrios. guardo comigo cada um de seus dentes. vontade agora de ouvir teu coração batendo. sabe, já estamos aqui há tanto tempo, mas é sempre tão fresco pra mim, tão eterno. nós dois grudados, juntinhos como nos cabe aqui. os sons do mundo tão distantes. sem quem nos encontre. você só inteira pra mim. coxas, peles, mãos. tão bom que faz uma tristeza tranqüila. daquelas que se respira. e aí o tesão da tua língua e teus cheiros que vão se despregando. os corpos se consumindo. queria te chupar até o osso. te amo tanto! que amor é isso, não? e você tão linda com esse vestido longo, vermelho. te vesti como nos velhos tempos. lembra da nossa primeira noite? você vermelha. eu assustado como um pombo. um pombinho assustado nas suas mãos. você alisando minha penugem. e meu pau ficando duro. e aí aquele prazer em que você foi me educando. aquela ânsia que você foi me trazendo. peito e estômago. tudo junto. te devo tanto. nunca mais sorri. alegria não comportava a boca. aí não sei porque, um dia, acho que era aniversário de 18 anos. você logo apareceu pra me presentear. você em cima de mim virando zumbi. e, então, me veio a imagem na cabeça. a cena toda. não sei porquê. mas sorri. sem dor. e enquanto você dormia, fui até a gaveta do pai, peguei e fiz. você ficou tão tranqüila. parecia descansar de dormir. e eu, ao teu lado, no primeiro sono da minha vida. te trouxe pra cá. onde o tempo há de nos revolver.

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~ por jeffvasques em 29/03/2010.

3 Respostas to “Revolver”

  1. sim, intenso.

  2. eu diria, tenso. ;)

  3. angústia, enjôo, não entendo. li há pouco e até agora nada mais pude fazer, só penso..

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