Amor e horror

O amor é algo tão forte, tão violentamente forte, avassalador, tão lindo e tão assustador, que aparece, em muitos dos meus escritos, como vida, mas vida que morre, como agonia prazerosa, gozo e último suspiro, como ameaça de dissolução, numa junção que oscila do macabro ao sublime. O amor aparece como horror, também, como um desejo deformador, que perverte os seres, as formas, que desfaz os limites da pessoalidade transformando o casal numa amorfa monstruosidade que vive do que de si devora. Em alguma medida, isso é o reflexo do que a sociedade faz com o amor. patologia. viver e morrer de amor. um amor canibal e egoísta, que se alimenta de si na figuro do “outro”, narciso.

Toquei nesse assunto porque, hoje, reencontrei em minhas anotações trechos do livro “Paixão Segundo G.H.” da Clarice, que selecionei justamente porque relacionam essa força da vida ao horror. Clarice, vem com o tempo, assumindo o peso de Fernando Pessoa dentro de mim… dos autores que tenho que estar preparado pra ler… que me dão medo, porque me traduzem onde eu não quero ser traduzido. Então seguem os trechos dela e, depois, um microconto meu, na verdade, um esboço de cena prum curta, uma alucinação que tive na Páscoa ;) (que nem tem tanta relação com a questão do amor, mas um pouco com o horror em que nos habituamos a viver e nem percebemos). E pra fechar, a primeira parte de uma rara entrevista de Clarice Lispector. O olhar dela é aterrador, lindo e assustador! Procurem no youtube as outras 2 partes, vale a pena!

Trechos de “Paixão segundo G.H.” de Clarice

“Para a minha anterior moralidade profunda – minha moralidade era o desejo de entender e, como eu não entendia, eu arrumava as coisas, foi só ontem e agora que descobri que sempre fora profundamente moral: eu só admitia a finalidade – para a minha profunda moralidade anterior, eu ter descoberto que estou tão cruelmente viva quanto essa crua luz que ontem aprendi, para aquela minha moralidade, a glória dura de estar viva é o horror. Eu antes vivia de um mundo humanizado, mas o puramente vivo derrubou a moralidade que eu tinha? É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno.”

“Mas embora decepada, esta mão não me assusta. A invenção dela vem de tal idéia de amor como se a mão estivesse ligada a um corpo que, se não vejo, é por incapacidade de amar mais. Não estou a altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira. E como imaginar um rosto se não sei de que expressão de rosto preciso? Logo que puder dispensar tua mão quente, irei sozinha e com horror. O horror será a minha responsabilidade até que se complete a metamorfose e que o horror se transforme em claridade. Não a claridade que nasce de um desejo de beleza e moralismo, como antes mesmo sem saber eu me propunha; mas a claridade natural do que existe, e é essa claridade natural o que me aterroriza. Embora eu saiba que o horror – o horror sou eu diante das coisas.”

“Estou mais cega do que antes. Vi, sim. Vi, e me assustei com a verdade bruta de um mundo cujo maior horror é que ele é tão vivo que, para admitir que estou tão viva quanto ele – e minha pior descoberta é que estou tão viva quanto ele – terei que alçar minha consciência de vida exterior a um ponto de crime contra a minha vida pessoal.”

“Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.”

“Terá sido o amor o que vi? Mas que amor é esse tão cego como o de uma célula-ovo? foi isso? Aquele horror, isso era amor?”

Paixão (Jefferson Vasques – título sugerido por Márcia Teani)

esboço de micro-cena para um curta

este é o meu corpo. este é o meu sangue. ali, o arroz. costela abrindo. aqui, ó. os miúdos. quentes. o crocante. esbranquiçado. é pomba. mastiguem bem. vamos. sem cerimônias. tomai. e comei. todos vós. façam isso em minha memória. que cara é essa, mãe? pai, onde você vai? por que me abandona?

Parte 1 da entrevista de Clarice Lispector

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~ por jeffvasques em 06/04/2010.

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