Dalton, o ressuscitador

tem noites, também, que o peito é uma chuva de ventos. aí, é marrar as palavras no mastro dum silêncio. e deixar a noite açoitar o barco. aguardar até o preciso que navegar é. âncora jogada, aqui… Roque Dalton, novamente.

O RESSUSCITADOR (Eduardo Galeano)

“Roque Dalton, aluno de Miguel Mármol no ofício muito salvadorenho de ressuscitar, se salvou duas vezes de morrer fuzilado. Uma vez se salvou porque caiu o governo e outra vez se salvou porque caiu a parede, graças a um oportuno terremoto que permitiu que fugisse. Também se salvou dos torturadores, que o deixaram destroçado mas vivo, e dos policiais que o cobriram de balaços. E se salvou dos antipáticos do futebol que o botavam pra correr a pauladas, e se salvou das fúrias de uma porca parida e de numerosos maridos sedentos de vingança. Poeta profundo e brincalhão, preferia arriscar a pele a se levar a sério, e assim se salvou da solenidade, da grandiloquência e de outras enfermidades que gravemente acometem a poesia política latinoamericana.

Não pode se salvar de seus companheiros. Com pena de morte castigaram sua discrepância, por ser a discrepância delito de alta traição.

Dalton não se salvou da bala que veio do seu lado.”

Trecho de depoimento de Ernesto Cardenal

“A Roque Dalton eu recordo rindo. Fraco, de un branco pálido, ossudo, narizão como eu, e sempre rindo. Não sei porque sempre te recordo rindo, Roque Dalton. Um revolucionário sorridente. Não é que os revolucionários sejam especialmente sérios nem muito menos, mas é que ele era um revolucionário especialmente sorridente. Se ria em primeiro lugar de si mesmo. Se ria de coisas ridículas de El Salvador, e sempre estava falando de El Salvador e é que gostava muitísimo de seu país, “Pulgarcito”. Se ria da burguesia salvadorenha naturalmente, e nos fazia rir a todos. Ria dos jesuítas com os quais se havia educado e em cujo colégio havia «perdido a fé» (também ria desta expressão) para entrar no Partido Comunista e também ria de coisas de seu Partido Comunista (porém, de todo modo era seu partido).”
Ernesto Cardenal (poeta lutador já apresentado aqui).

PARA A PAZ (Roque Dalton)

Será quando a lua se despedir da água
com sua corrente oculta de luz inenarrável

Roubaremos todos os fuzis
apressadamente.

Não há que matar o sentinela, o pobre
só é função de um sonho coletivo
um uniforme repleto de suspiros
recordando o arado.
Deixemos que beba ensimesmado sua lua e seu granito.

Bastará com a sombra lançando-nos suas pálpebras
para chegar ao ponto.

Roubaremos todos os fuzis
irremessivelmente.

Teremos que transportá-los com cuidado
mas sem nos determos
e abandoná-los entre detonações
nas pedras do pátio:

Fora dali, já somente o vento.

Teremos todos os fuzis
alvoroçadamente.

Não importará a geada momentânea
dando-se de pedradas com o suor de nosso sobressalto,
nem a duvidosa relação de nosso alento
com a ampla neblina, milionária em espaços:
caminharemos até os semeadouros
e enterraremos esperançosamente
a todos os fuzis
para que uma raiz de pólvora faça estalar em mariposas
seus caules minerais
em uma primavera futura e altiva
repleta de pombas.

O VAIDOSO (Roque Dalton)

Eu seria um grande morto.
Meus vícios então luziriam como jóias antígas
com essas deliciosas cores do veneno.
Haveria flores de todos os aromas em minha tumba
e imitariam os adolescentes meus gestos de júbilo,
minhas ocultas palavras de angústia.
Talvez alguém diria que fui leal e bom.
Mas só tu recordarias
minha maneira de olhar nos olhos.

O QUE FALTA (Roque Dalton)

“…a outra pessoa, como pessoa, se converteu em uma necessidade para ele…” Marx

“Os clássicos são interessantes.”
blasfêmia minha de ontem, ao sair de Romeu e Julieta.

Hoje aumentou a cota de tomate pra salada
e apareceram umas acelgas enormes.

O pão sobra, os ovos chegam, o arroz e o feijão
jorra e enjoa.

A escassez dá um pouco de fome mental
e muitíssima da outra, dizia ontem o gordo Flores.

Mas com merluza e duas bistecas
deixaremos a semana pra trás.
O que verdadeiramente falta em Cuba
é você.

MEDO (Roque Dalton)

para Julio Cortázar

Um anjo solitário na ponta do alfinete
ouve que alguém urina.

E APESAR DISSO, AMOR… (Roque Dalton)

E apesar disso, amor, através das lágrimas,
eu sabia que ao fim ia acabar
desnudo na ribeira do riso.
Aqui,
hoje,
digo:
sempre recordarei tua nudez entre minhas mãos,
teu cheiro de desfrutada madeira de sândalo
cravada junto ao sol da manhã;
tua risada de garota,
ou de arroio,
ou de pássaro;
tuas mãos largas e amantes
como um lírio traidor a suas antigas cores;
tua voz, teus olhos,
o abarcável de ti que entre meus passos
pensava sustentar com as palavras.

porém, já não há mais tempo de chorar…

Terminou
a hora das cinzas pro meu coração.

Faz frio sem você,
mas se vive.

O GENERAL MARTÍNEZ (Roque Dalton)

Dizem que foi um bom presidente
porque repartiu casas baratas
aos salvadorenhos que ficaram…

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~ por jeffvasques em 12/04/2010.

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