Duas moscas

Após 1 semaninha fora, retomando com uma tra(b)dução do Buk. No final, o primeiro vídeo de uma sequência enorme de pequenas entrevistas do bardo no youtube. Para ver os outros trechos da entrevista, basta seguir os vídeos associados.

Duas moscas (Charles Bukowski)

As moscas são furiosos tecos de vida;
por que são tão furiosas?
parecem querer algo mais,
parece até que elas
estão furiosas
por serem moscas;
não é minha culpa;
eu sento no quarto
com elas
e elas me provocam
com sua agonia;
é como se elas fossem
nacos de alma perdidos
esquecidos em alguma parte;
eu tento ler um jornal
mas elas não vão me
deixar;
uma parece subir em semicírculos
por toda a parede,
despejando um som miserável
sobre minha cabeça;
a outra, a menor,
fica perto zoando com a minha mão,
sem dizer nada,
subindo, caindo,
chegando pertinho;
que deus põe essas
coisas perdidas sobre mim?
outros homens sofrem imposições do império,
amor trágico…
eu sofro
insetos…
eu espanto a menorzinha
que parece apenas renovar
seu impulso de me desafiar:
ela circula mais rápido,
mais perto, e chega a fazer
um som de mosca,
e a outra, abaixo,
sacando o tumulto no ar,
também, excitada,
acelera seu vôo,
mergulha de repente
num golpe ruidoso
e elas se juntam
circulando minha mão,
arranhando a base
do abajur
até que alguma coisa-homem
em mim
não aguenta mais
o sacrilégio
e eu bato
com o jornal enrolado –
errei! –
batendo,
batendo,
elas explodem em discórdia,
alguma mensagem se perdeu entre elas,
e eu pego a grandona
primeiro, e ela cai de costas
estrebuchando suas patinhas
como uma puta raivosa,
e eu mando ver de novo
com meu taco de papel
que vira uma lambuzeira
da feiúra da mosca;
a pequena circula mais alto
agora, quieta e rápida,
quase invisível;
já não se aproxima
da minha mão novamente;
ela está mansa e
inacessível; Eu deixo
ela ser, ela me deixar
ser;
o jornal, claro,
está arruinado;
alguma coisa aconteceu,
alguma coisa cagou meu
dia,
algumas vezes não é necessário
um homem
ou uma mulher,
apenas alguma coisa viva;
Me sento e olho
a menorzinha;
nós estamos juntos
trançados
– dando voltas e voltas –
no ar
e na vida;
é tarde
pra nós dois.

Entrevistas com Bukowski – 1

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~ por jeffvasques em 27/04/2010.

4 Respostas to “Duas moscas”

  1. é, isso sim é poesia subversiva!

  2. O ministério da moral adverte: Bukowiski faz mal a hipocrisia humana ;)
    Sempre bom estar por aqui. Aprendendo e descobrindo muitas coisas boas. abços

  3. Jeff,
    Não entendi um parte do poema:
    “Eu deixo
    ela ser, ela me deixar
    ser;”
    abrs

  4. Oi, Rodrigo! Eu poderia ter traduzido como “eu deixo ela em paz e ela me deixa em paz”, mas preferi ser o mais literal possível nessa passagem, porque gostei do efeito que daria: ” I leave him be, he leaves me be;”, eu a deixo ser… eu permito que ela seja simplesmente o que é… por isso chamo de tra(b)dução o que faço, porque abduzo o texto original e interfiro nele, às vezes adaptando-o, noutras não, mas tentando manter o espírito original… abraçao, jeff

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