Julio Florencio Cortázar (argentina)


Depois do fracasso de seu primeiro livro de poesias, os amigos o aconselharam a voltar praqueles continhos que escrevia desde sempre… seu afastamento da poesia foi o que lhe garantiu a fantástica carreira de contista e romancista: Julio Cortázar. Era um figura exótico: rolam boatos que tomou hormônios para desenvolver a barba (morria de vontade de ser barbudo), tinha certeza de que não viveria para além dos 30 (viveu até os 70), e era extremamente tímido (há várias histórias sobre relacionamentos enormes em que ele nem beijava a garota). Achei um poema que escreveu para sua primeira namorada, ainda no processo de conquistá-la: “Não pergunte quem coloca neste canto / uma alma destinada ao sofrimento / e um pobre coração que te ama tanto; / se tu o adivinhas, nada te espante; / mas se não me encontras em teu sentimento / de nada serve que te dê meu nome”. Curiosidades que ajudam a criar a imagem do mito, mas há o chão concreto, ali, em que pisou.

Socialista, a medida que foi se engajando concretamente, passou a apoiar diversas lutas durante o período das guerrilhas na américa latina. Nesse mesmo passo, sua literatura foi radicalizando-se em experimentos vanguardistas, mas também absorvendo reflexões das lutas que acompanhava, atento à necessidade de que os valores de um futuro socialista fossem cultivados desde já, na luta contra os inimigos: “a luta pelo socialismo na América Latina deve enfrentar o horror cotidiano guardando, de maneira preciosa e zelosa, aquela capacidade de viver que desejamos para esse futuro, com tudo aquilo que isso supõe de amor, de jogo e de alegria”. Tornou-se amigo de vários escritores guerrilheiros como Ernesto Cardenal e Roque Dalton. Dizia, sempre provocativo: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Em seu universo, a política convivia com a literatura sem que uma fosse considerada mais ou menos verdadeira que a outra: “Quando faço política, faço política. E quando faço literatura, faço literatura. Mesmo quando faço literatura de conteúdo político – como O livro de Manuel, por exemplo, faço literatura. O que eu simplesmente faço é colocar o veículo literário, não direi a serviço, mas em uma direção que possa ser politicamente útil”. Importante apontar, também, que foi criticado por vários grupos de esquerda por possuir uma posição cômoda de apoio à luta socialista, por ter se auto-exilado em Paris durante a ditadura na Argentina.

Amor, revolução e literatura compuseram o triângulo da aventura cortaziana. Aqui, tra(b)duzo alguns poemas sobre o primeiro elemento, o amor, seus relacionamentos, desventuras e tudo mais. Ao final, de brinde ;), segue um vídeo onde Julio explica como surgiram as figuras dos cronópios e famas, personagens fantásticos de seu livro “Histórias de Cronópios e Famas”.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

OS AMANTES

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam pelas mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, gozam pelas falanges,
e acima está a noite cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
até mortes de relva, até portos
que se abrem entre lençóis.
Tudo se desordena através deles,
tudo encontra sua cifra escamoteada;
Mas eles nem sequer sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na obra do nada,
o tigre é um jardim que joga.

Amanhece nos carros de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes rendidos se olham e se tocam
uma vez mais antes de cheirar o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E é só então
quando estão mortos, quando estão vestidos,
que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os deveres cotidianos.

TALVEZ A MAIS QUERIDA

Me disse a intempérie,
a leve sombra de tua mão
passando pela minha cara.
Me disse o frio, a distância,
o amargo café da meia-noite
entre mesas vazias.

A LENTA MÁQUINA DO DESAMOR

A lenta máquina do desamor,
as engrenagens do refluxo,
os corpos que abandonam os travesseiros,
os lençóis, os beijos,
e de pé ante o espelho interrogando-se
cada um a si mesmo,
já não se olhando entre eles,
já não desnudos para o outro,
já não te amo,
meu amor.

O BREVE AMOR

Com que tersa doçura
me levanta do leito em que sonhava
profundas plantações perfumadas,

me passeia os dedos pela pele e me desenha
no espaço, de forma instável, até que o beijo
se pousa curvo e recorrente,

para que o fogo lento comece
a dança cadenciada da fogueira
tecendo-se em rajadas, em hélices,
ir e vir de um furacão de fumaça…

Por quê, depois,
o que sobra de mim
é só um inundar-se entre as cinzas
sem um adeus, sem nada mais que o gesto
de liberar as mãos?

O QUE ME AGRADA DE TEU CORPO…

O que me agrada de teu corpo é o sexo.
O que me agrada de teu sexo é a boca.
O que me agrada de tua boca é a língua.
O que me agrada de tua língua é a palavra.

ORIGEM DOS CRONÓPIOS E FAMAS


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~ por jeffvasques em 01/05/2010.

Uma resposta to “Julio Florencio Cortázar (argentina)”

  1. Gracias :)

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