Guillén

Tudo muito corrido. tanta coisa. tanto… sigo só traduzindo e aproveitando algum material antigo. Tra(b)duções do poeta aclamado pelos cubanos como seu artista maior, ficando atrás, em popularidade, apenas de José Martí. Ao final, um vídeo com o grupo Quilapayún – que espero ainda este ano assistir no Chile! – cantando o poema “Muralla” de Guillén.

PROBLEMAS DO SUBDESENVOLVIMENTO

Monsieur Dupont te chama de burro,
porque ingoras qual era o neto
preferido de Victor Hugo.

Herr Müller começou a gritar,
porque não sabes o dia
(exato) em que morreu Bismark.

Teu amigo, Mr. Smith,
inglês ou yanqui, eu não sei,
se revolta quando escreves shell.
(Parece que poupas um éle,
e, pior, que pronuncias chel.)

Olha só,
quando sacar qualé,
mande dizerem cacarajícara
e onde está o Aconcágua,
e quem era Sucre,
e em que lugar deste planeta
morreu Martí.

E, por favor:
que te falem sempre em espanhol.

UM POEMA DE AMOR

Não sei. O ignoro.
Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Talvez um século? Acaso.
Acaso um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês? Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.

Ao fim, como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de repente
que iria a ver outra vez, que a teria
próxima, tangível, real, como nos sonhos.
Que explosão contida!
Que trovão surdo
circulando por minhas veias,
fervilhando de cima
à baixo meu sangue, em
uma noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
de nos cumprimentarmos, de maneira
que ninguém compreendera
que esta é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
mão ques se apertam conspirando, um olhar,
um palpitar do coração
gritando, uivando com silenciosa voz.

Depois
(Já sabia desde os quinze anos)
esse esvoaçar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penintenciais,
entre testemunhas inimigas,
todavia
um amor de “te amo”
de “tu”, de “bem queria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, pense melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo em primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão de amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
seguí-la com os olhos,
e já sem olhos seguir vendo distante,
além das distâncias, e ainda seguí-la
mais longe ainda,
feita de noite,
de mordedura, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.

A FOME

Esta é a fome. Um animal
todo canino e olho.
Ninguém o engana ou distrai.
Não se farta em uma mesa.
Não se contenta
com um almoço ou uma ceia.
Anuncia sempre sangue.
Ruge como leão, aperta como jibóia,
pensa como pessoa.

O exemplar que aqui se oferece
foi caçado na Índia (subúrbios de Bombaim),
mas existe em estado mais ou menos selvagem
em outras muitas partes.

Não se aproxime.

BURGUESES

Não me dão pena os burgueses vencidos.
E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.

Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem chapéus nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias.

Não passe, por favor. Isto é um clube.
A relação está cheia.
Não há vaga no hotel.
O senhor saiu.

Precisa-se de meninas.
Fraude nas eleições.
Grande baile para cegos.

Saiu o Prêmio Maior em Santa Clara.
Bingo para órfãos.
O cavalheiro está em Paris.
A senhora marquesa não recebe.
Enfim, e

que tudo recordo e como tudo recordo,
que porra me pede você pra fazer?
E, além do mais, pergunte-lhes.
Estou seguro que também
recordarão.

Quilapayun interpreta “La muralla” de Guillén

LA MURALLA – NICOLÁS GUILLÉN

Para hacer esta muralla,
tráiganme todas las manos:
los negros sus manos negras,
los blancos sus manos [blancas.
Ay,
una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte.
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– Una rosa y un clavel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– El sable del coronel …
– ¡Cierra la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– La paloma y el laurel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
El alacrán y el ciempiés …
– ¡Cierra la muralla!
Al corazón del amigo,
abre la muralla;
al veneno y al puñal,
cierra la muralla;
al mirto y la yerbabuena,
abre la muralla;
al diente de la serpiente,
cierra la muralla;
al ruiseñor en la flor,
abre la muralla …
Alcemos una muralla
juntando todas las manos;
los negros, sus manos negras,
los blancos, sus blancas manos.
Una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte …

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~ por jeffvasques em 05/05/2010.

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