Sentir e Pensar



“Se acordarmos com outras roupas, em outros lugares, podemos acordar como outra pessoa?”

Voltar pra Sorocaba sempre implica algumas horas na frente das dezenas de canais da TV a cabo. Como não tenho tv em Campinas, acabo me deixando levar por esta outra aqui. E tenho sorte… em geral assisto filmes e documentários muito legais, aqui em Sorocity. Da outra vez que vim, assisti “Beleza Americana” que rendeu este post aqui. Agora assisti “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, outra produção do mainstream, mas não exatamente dentro dos padrões hollywoodianos. O filme é ótimo, mas quero falar na verdade sobre outro filme que vi, provavelmente pela 7a vez, agora: “Clube da Luta”.

Todo mundo fala sobre a violência nesse filme, sobre a filosofia de inspiração nietzchiana, sobre a crítica social, sobre o jogo de esquizofrenia entre Tyler Dirden e o narrador, sobre a inspiração anárquica e revolucionária… mas ouço poucas pessoas, ou melhor, na verdade nunca ouvi ninguém falando sobre o que, pra mim, é o mais óbvio e se constitui como eixo do filme: “Clube da Luta” é um filme sobre um garoto que conhece uma garota. Simples assim. Claro, que isso vem junto com um conjunto enorme de implicações psicológicas, emocionais, uma verdadeira luta interior. E essas implicações psicológicas, essa luta interior, é formidavelmente bem encaixada, no filme, no contexto de um sistema social (capitalista) que molda essa psique cindida e esquizóide de todos nós, que opõe os impulsos do desejo/necessidade/prazer/emoção (representados no filme por Tyler Durden) a racionalidade, que super-desenvolvida torna-se mórbida… buscando a “segurança”, mesmo que sem-sentido, a qualquer custo (aspecto representado no filme pelo Jack, narrador do filme). Poderia falar, portanto, que o filme trata do encontro de um homem e uma mulher numa sociedade pervertida pelo capitalismo.

Não é uma grande sacada essa, não. No início do filme isso tá bem claro inclusive. Só me surpreendo porque ninguém fala disso. O narrador, Jack, que representa a racionalidade-do-homem-seguro-e-cinza nos diz, bem no início, com uma pistola apontada em sua boca por Durden, que tudo isso “o revólver, as bombas, a revolução, tinham alguma coisa a ver com uma garota chamada Marla.”. E aí vem um enorme flashback pra contar toda a história de envolvimento com essa garota, que é o próprio filme. No final do flashback, voltamos a essa cena inicial-final, onde se aguarda a explosão dos bancos, do sistema financeiro, o que geraria o caos e a liberação, no nível psicológico, da possibilidade de superação da repressão e acordo entre pensar e sentir.

Tyler é o aspecto emocional/impulsivo/vital reprimido pelo narrador e pelos padrões sociais. Jack é o almofadinha que se adequa a ordem, conforme a sociedade convencionou, subjugando seu ser para o prazer de outrem. Jack é a razão utilitarista, fria, desconectada de sentido pessoal. (Durden, em seu primeiro encontro com Jack, no avião, pergunta pra ele: “como tem sido isso pra vc, ser inteligente?” “ótimo.”, responde jack. “legal, continue assim”, diz irônico Durden. Essa é a sociedade em que vivemos, que nos quer abstratamente racionais, inteligências a serviço da máquina.)

Mas essa adequação a ordem cobra seu preço. Jack tem insônia e só consegue dormir liberando suas emoções em grupos de auto-ajuda, onde pode chorar, tocar outras pessoas, sentir seu corpo vivo, ser valorizado, liberar sua tristeza. Segue assim conseguindo contornar sua insônia até que conhece Marla e, então, Durden aparece em sua vida, o seu outro. A esquizofrenia tem início.

Se conhecem no avião numa cena muito engraçada onde Durden tira sarro dessa suposta segurança fake que se cria nos aviões, como se fosse possível ter ações de emergência (posição segura de impacto) num avião que vai se esborrachar! Confesso que sempre me sinto num freak show quando viajo de avião… vc senta e está escrito no banco da frente “use a poltrona para flutuação”… como assim? não vamos nem passar por cima do mar! E a aeromoça com aquele sorrisinho indicando as portas de emergência e como as máscaras cairão… tá, vou lembrar disso quando o avião se espatifar… Bom, Durden surge justamente para desmascarar todas as falsas seguranças de Jack, o narrador: explode sua casa confortável e cheia de móveis que falsamente lhe vendem uma identidade singular (móveis criados “sobre medida”, “com estilo pessoal”, etc). E aí começa o contato e a liberação dos sentimentos de seu “id” até então reprimidos.

Jack passa o filme todo em conflito com Marla, a negando emocionalmente apesar de valorizá-la, apesar dela o inquietar profundamente… não sabe como lidar com ela e com seus sentimentos… talvez, por isso, crie Durden; Durden, seu lado “instintivo”, pulsional, segue transando sem parar com ela e não a valoriza… os dois aspectos ainda não se comunicam direito, a relação ainda é cindida, truncada. Mas Durden vai cada vez mais se infiltrando na vida do narrador, desfazendo as convenções, liberando Jack para sua luta contra tudo aquilo que o oprime: pai, obrigações, patrão, convenções sociais. Mas o contato humano, a humanização desejada, nessa sociedade pervertida, só pode ser buscada através da própria perversão, pela negatividade. Assim, o corpo, o contato, a emoção de estar vivo é resgatada pelo abandono de tudo, pela aceitação da derrota na luta que se trava. O perverso é esse que erotiza a pulsão de morte, que transforma a desgraça e o horror em algo maravilhoso. O clube da luta não é sobre ganhar (o que proporia nossa sociedade), é sobre perder: “Só depois de perder tudo é que você será livre para fazer o que quiser”.

Mas os planos de Durden, o “id”, são maiores… ele quer permitir que todos lutem, que acordem de sua apatia, quer destruir os centros ordenadores da sociedade, quer que todos se assumam lobos e deixem de lado suas peles de ovelhas, que se assumam como único e verdadeiro deus existente. Monta uma organização revolucionária secreta. A libertação dos desejos e impulsos vitais obriga a transformações sociais cada vez maiores para que não sejam bloqueados em algum outro nível de desenvolvimento. Durden vai ganhando o controle de toda a psique do narrador.

A medida que essa divisao interna vai ficando clara para Jack e vai tomando consciência de seus sentimentos, ele tenta se abrir com Marla: “Eu percebi que eu gosto muito de você… mas eu te envolvi numa coisa muito terrível que está pra acontecer… vc tem que sair da cidade por um tempo.” Ao mesmo tempo assume seu gostar, mas o seu medo ainda é maior… gostar, liberar as emoções, ainda é uma ameaça!

Voltamos a cena inicial-final do filme. Durden subjuga Jack com uma pistola em sua boca. As bombas estão prestes a explodir os bancos e expor toda a cidade ao caos. Mas Jack, já consciente da cisão, consegue inverter o jogo, pega a arma (que sempre esteve em sua mão, pois são a mesma pessoa) e se dá um tiro, simbolicamente dominando o seu lado “selvagem”. É só nesse momento, pela primeira vez, que Jack retoma o controle e diz para Durden: “Ouça bem! Estou de olhos abertos”, ou seja, entendi o recado, entendi seu papel. Na verdade, Jack não é mais Jack… ouve uma síntese, uma superação do estado anterior de cisão entre pensar e sentir, patente pela capacidade de assumir seu gostar por Marla de forma mais íntegra na cena seguinte.

E entramos na cena final, claramente alegórica, onde “Jack” dá, pela primeira vez, a mão a Marla enquanto o colapso de todos os prédios, de todo o sistema financeiro, de toda a antiga ordem (também íntima) acontece a sua volta. Ele diz a ela: “Tudo vai ficar bem. Você me conheceu num período muito esquisito da minha vida!”. E é sempre esquisito, e excitante, e comovente, e belo, e aterrorizante o momento em que duas pessoas realmente se encontram, em que abrem suas caixas de “pandora” um ao outro revelando seus impulsos, desejos, sonhos íntimos, duplos, outros eus.

Acabei me perdendo um pouco no texto porque “Clube da Luta” aborda diversos aspectos, do micro ao macro, de forma unitária… de difícil separação… mas o que queria ressaltar, mesmo, é como o eixo que conduz tudo isso, “as armas, a revolução”, as transformações todas por que passa o narrador, é sua aproximação, seu apaixonamento por Marla. A paixão obriga que se encare o que se reprime, funciona como uma revolução que sacode as estruturas já cinzas que não dão mais conta da vida pulsante e a sufocam… momento em que esses aspectos cindidos se encontram, frente a frente, e precisam decidir como se relacionarão, quem está no comando. Coração e cabeça, emoção e razão, prazer e resignação em luta. E a luta pode ser saudável porque traz a tona, como no filme, as contradições adormecidas.

Fico aqui cá com meus botões: É possível viver um relacionamento “saudável” dentro de uma sociedade perversa? Como começar a libertação desde essa célula íntima? Como não reproduzir as pressões e opressões da ordem? Como aproveitar essa energia libertadora para impulsionar outras transformações? Como fazer da paixão e do amor uma libertação social?

P.S.: Esse filme é baseado no livro de um escritor norte-americano muito comentado chamado Palahniuk. Ele trabalha bastante com a temática da perversão individual e social.

CENA FINAL DO “CLUBE DA LUTA”

“This is your life” – música tema do filme

Você abre a porta e entra.
Está dentro do seu coração.
Imagine que sua dor é uma bola de neve que vai curar você.
Isso mesmo.
É a sua dor.
A dor é uma bola de neve que vai curar você.
Acho que não.
Esta é sua vida.
É a última gota pra você.
Melhor do que isso não pode ficar.
Esta é sua vida.
que acaba um minuto por vez.
Isto não é um seminário.
Nem um retiro de fim de semana.
De onde você está não pode imaginar como será o fundo.
Somente após uma desgraça conseguirá despertar.
Somente depois de perder tudo, poderá fazer o que quiser.
Nada é estático.
Tudo é movimento.
E tudo esta desmoronando.
Esta é sua vida.
Melhor do que isso não pode ficar.
Esta é sua vida.
E ela acaba um minuto por vez.
Você não é um ser bonito e admirável.
Você é igual à decadência refletida em tudo.
Todos fazendo parte da mesma podridão.
Somos o único lixo que canta e dança no mundo.
Você não é sua conta bancária.
Nem as roupas que usa.
Você não é o conteúdo de sua carteira.
Você não é seu câncer de intestino.
Você não é o carro que dirige.
Você não é suas malditas “gatinhas”
Você precisa desistir.
Você precisa saber que vai morrer um dia.
Antes disso você é um inútil.
Será que serei completo?
Será que nunca ficarei contente?
Será que não vou me libertar de suas regras rígidas?
Será que não vou me libertar de sua arte inteligente?
Será que não vou me libertar dos pecados e do perfeccionismo?
Digo: você precisa desistir.
Digo: evolua mesmo se você desmoronar por dentro.
Esta é sua vida.
Melhor do isso não pode ficar.
Esta é sua vida.
e ela acaba um minuto por vez.
Você precisa desistir.
Estou avisando que terá sua chance.

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~ por jeffvasques em 09/05/2010.

3 Respostas to “Sentir e Pensar”

  1. acho que ninguém fala disso porque falar do micro é desprezar o macro, falar de amor é desprezar o político. Ledo engano, a dificuldade está em ser revolucionário no cotidiano, é ser político também dentro de casa, é entender a dialética entre o micro e o macro, é viver agora (ou pelo menos tentar) a sociedade que almeja. Belíssimo texto…

  2. é jefferson, assisti esse filme pela primeira vez faz pouco tempo (uns 2 anos) porque vc tinha me garantido suas qualidades há cerca de 10 anos, quando estávamos na moradia… (e eu nunca tinha me esquecido disso :) aliás, obrigado!)
    realmente, o filme agrada sobre todos os aspectos, e quem assiste só uma vez não saca que é uma história de amor, isso você percebe quando começa a vê-lo pela segunda vez…
    acabei fazendo uma cópia, e já perdi a conta de quantas vezes vi, mas às vezes vejo só trechos aleatórios…

  3. Ah, Silvio… puta saudade…

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