Bukowski e seu anti-lirismo


“Eu podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e eu ia ficar pobre. Mas eu particularmente não quero o dinheiro. Eu não sabia o que eu queria. Sim, eu sabia. Eu queria um lugar para me esconder, um lugar onde não precisasse fazer nada. O pensamento de ser algo não apenas me amedrontava, me enojava… de fazer parte das coisas, de fazer parte de piqueniques em família, do Natal, do 04 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães… ser um homem que nasceu para agüentar essas coisas e depois morrer? Eu prefiro ser uma máquina de lavar louça, voltar sozinho para uma sala pequena e beber até dormir. ” Bukowski em “Ham on Rye”, 1982

Jogo de apertar*

uma das coisas terríveis é
realmente
estar na cama
noite após noite
com uma mulher com quem você não
quer mais trepar*.
Elas ficam velhas, elas não parecem mais muito bem
– elas mesmo tendem a
roncar, perder
a graça.
Então, na cama, você se vira algumas vezes,
seus pés tocam os dela –
deus, que horrível! –
e a noite está lá fora
além das cortinas
selando vocês juntos
na tumba.
E de manhã você vai ao
banheiro, passa a sala, conversa,
diz coisas estranhas; ovos fritos, motores
ligando.
Mas sentado contigo, lado a lado,
você têm 2 estranhos
entupindo de tostadas a boca
queimando a cabeça soturna e as vísceras com
café.
Em 10 milhões de lugares na América
é a mesma coisa –
vidas azedas escoradas uma contra
outra
e sem lugar algum pra
ir.
Você entra no carro
e dirige pro trabalho
e há mais estranhos ali, a maioria deles
esposas e maridos de alguém,
e pralém da guilhotina do trabalho eles
flertam e brincam e beliscam, alguns tendem a
descarregar tudo numa trepada* rápida em algum lugar –
eles não podem fazer em casa –
e então
eles dirigem de volta pra casa
esperando pelo Natal ou pelo Dia do Trabalho ou
pelo domingo ou
alguma coisa.

* Buk brinca com o termo screw que pode ser, vulgarmente, transar ou, mais comumente, apertar, enroscar… O título do poema é “Screw-game”… não achei um equivalente interessante para manter o jogo…

É o modo como você joga o jogo

chame-a de amor
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais
de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal,
pimenta,
ligue para sua tia velha e
bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espeta-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma
porta
vomitando como você fará
nas
hortênsias.

Mulher dormindo

Eu sento na cama à noite e te ouço
roncando.
Eu te conheci numa estação de ônibus
e agora eu admiro suas costas
terrivelmente brancas e manchadas com
sardas de criança
à medida que a lâmpada despe o insolúvel
pesar do mundo
sobre teu sono.
Eu não posso ver teu pé
mas eu devo imaginar que eles são
os pés mais charmosos.
A quem você pertence?
Você é real?
Eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
E você não ajuda muito sendo
uma mulher. Nós somos cada um selecionados para ser
alguma coisa. A aranha, a galinha.
O elefante. É como se nós fossemos
uma pintura pindurada em alguma
parede de galeria
– e agora a pintura se vira
sobre suas costas, e sobre a curva do cotovelo
eu posso ver
uma boca, um olho um
quase nariz.
O resto de você está escondido
fora de vista
mas eu sei que você é
contemporânea, uma moderna obra
viva
talvez não imortal
mas nós temos
nos amado.
Por favor continue
roncando.

Anúncios

~ por jeffvasques em 04/06/2010.

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