Olga Orozco – traduções

Resgatando e melhorando duas antigas tra(b)duções de poemas de Orozco que, por sua vez, me tra(b)duzem ;)

O jardim das delícias (Olga Orozco)

Acaso é nada mais que uma zona de abismos e vulcões em
plena ebulição, predestinada às cegas para as cerimônias da
espécie nesta inexplicável travessia para baixo? Ou talvez um
atalho, uma emboscada obscura onde o demônio aspira a inocência
e sela à sangue e fogo sua condenação na estirpe da alma? Ou
quiça tão somente uma região marcada como uma cruz de encontro
e desencontro entre dois corpos submissos como sóis?
Não. Nem viveiro da Perpetuação, nem frágua do pecado original,
nem armadilha do instinto, por mais que apenas um vento exasperado
propague por sua vez a fumaça, a combustão e a cinza. Nem sequer
um lugar, ainda que se precipite o firmamento e haja um céu que
foje, inumerável, como todo instantâneo paraíso.

Sozinha, só um número insensato, uma prega nas membranas
da ausência, um relâmpago sepultado em um jardim.

Mas basta o desejo, o sobressalto do amor, a sirena da
viagem, e então é mais um nó tenso em torno do feixe de
todos os sentidos e suas múltiplas ramas ramificadas até a
árvore da primeira tentação, até o jardim das delícias e
suas secretas ciências de extravio que se expandem de repente
da cabeça até os pés igual que um sorriso, o mesmo
que uma rede de ansiosos filamentos arrancados dum raio, a
corrente eriçada arrastando-se em busca do extermínio ou da saída,
escorrendo-se para dentro, rastejada por esses sortilégios que são
como tentáculos de mar e que arrebatem com vertigem indizível
até o fundo do tato, até o centro sem fim que se desfunda
caindo desde do alto, enquanto passa e trespassa essa orgânica
noite interrogante de cristas e focinhos e buzinas, com
ofegar de besta fugitiva, com seu flanco atiçado pelo chicote
do horizonte inalcançável, com seus olhos abertos aos mistério
da dupla treva, derrubando com cada sacudida a nebulosa
maquinaria do planeta, pondo em suspensão corolas como
lábios, esferas como frutos palpitantes, borbulhas onde pulsa
a espuma de outro mundo, constelações extraídas vivas de seu
prado natal, um êxodo de galáxias semelhantes a plumas girando
loucamente em um grande aluvião, nesse torvelinho estrondoso que
já se precipita pelo funil da morte com todo o universo
em expansão, com todo o universo em contração para o parto
do céu, e faz estalar de repente a redoma e dispersa no
sangue a criação.

O sexo, sim,
melhor, uma medida:
a metade do desejo, que é apenas a metade do amor.

Para se fazer um talismã (Olga Orozco)

Só é necessário teu coração
feito à viva imagem de teu demônio ou de teu deus.
Apenas seu coração, como um incensário em brasa para a idolatria.
Nada mais que um indefeso coração enamorado.

Abandone-o às intempéries,
deixa-o
lá onde a erva uiva suas queixas de ama louca
e não o permite dormir,
lá onde o vento e a chuva derrubam seu castigo
em um golpe de azul-calafrio
mas sem convertê-lo em mármore
e nem partí-lo em dois
lá onde a escuridão abre suas tocas à todas as selvagerias
e não o deixa, ah,
e não o permite
esquecer…

Ajeita-o, depois, do alto de seu amor
ao fervedouro fundo das brumas.
Então, deixa-o secando no surdo regaço da pedra,
e escava nele, com uma agulha fria e funda,
até arrancar o último grão de esperança.

Permita que o sufoquem as febres e a urtiga,
que o sacuda o trote ritual das matilhas,
que o envolva a injúria feita com os farrapos de suas antigas glórias.
E quando um-dia for um-ano o aprisione com as garras dum século,
antes que seja tarde, antes que seja nunca,
antes que se converta em múmia deslumbrante,
e abre de par em par, pétala-por-pétala,
todas sua feridas:
e as exiba ao sol piedoso do meio-dia como um mendigo o faria,
e lamenta, em delírio, no deserto,
até que somente o eco
de um nome cresça
ali dentro
como a fome
cresce em fúria:
o golpear incessante da colher contra um prato vazio.

Se ainda pulsa,
chegou até aqui como a viva imagem de teu demõnio ou teu deus:
eis aí teu talismã
mais inflexível que a lei,
mais forte que as armas e o mal de teu inimigo.
Guarde-o na vigília de teu peito como um sentinela,
mas… alerta!
Pois pode crescer aí dentro como a mordedura da lepra,
pode se tornar seu carrasco:
o inocente monstro, o insaciável comensal de tua morte!

Anúncios

~ por jeffvasques em 21/06/2010.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: