entrementes

Precisando descobrir novos poetas urgentemente, mas sem muito tempo pra navegar e procurar… por enquanto, continuo tra(b)duzindo mais dos de sempre: Cortázar, e no final um videozinho dele viajando sobre a questão do caminhar sozinho pelas cidades, o diferente fluir do tempo nas cidades…

Trecho de “Rayuela” de Cortázar

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Poema (Cortázar)

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

Julio falando sobre caminhar pelas cidades


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~ por jeffvasques em 28/06/2010.

Uma resposta to “entrementes”

  1. toda manhã é mesmo uma lousa a espera do giz… que beleza de poema, jefferson. abraços.

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