Juan Gelman (argentina)

Ficarei os próximos 12 dias isolado num convento, no meio do Capão Redondo, em sampa, participando do curso de formação de monitores do núcleo de formação política 13 de maio. Vai ser uma experiência e tanto… estarei esses 12 dias com mais 30 companheir@s de todo o Brasil sob a tutoria de Mauro Iasi e Scapi, aprendendo como educar e ser educado pela classe. Confesso que estou com friozin na barriga… vai ser bom esse retiro e essa experiência que venho desejando há 3 anos já. O curso dura 2 anos, mas esse intensivão de julho é uma importante prova de fogo. Espero voltar mais centrado, ou melhor, descentrado das minhas questões umbigais… nas quais me perco tanto. Bom, tudo isso pra dizer que durante esse período não sei se terei acesso a internet… se tiver, continuarei postando… estou levando livros de poesia para tra(b)duzir nas horas vagas ;)

Aqui vai um pouco de Juan Gelman, considerado o maior poeta argentino vivo. Gelman teve que se exilar durante a ditadura por causa de sua militância. Teve um filho e uma nora assassinados pela ditadura. Recebeu em 2007 o prêmio Cervantes, considerado o maior prêmio em língua espanhola.

Mulheres

dizer que essa mulher era duas mulheres é dizer pouquinho
devia haver umas 12397 mulheres em sua mulher
era difícil alguém saber com quem se tratava
nesse povo de mulheres
por exemplo:

estávamos deitados em um leito de amor
ela era uma alvorada de algas fosforescentes
quando a fui abraçar
se converteu em singapura repleta de cães que uivavam
recordo
quando apareceu envolta em rosas de agadir
parecia uma constelação na terra
parecia que o cruzeiro do sul havía baixado à terra
essa mulher brilhava como a lua de sua voz clara

como o sol que se punha em sua voz
nas rosas estavam escritas todos os nomes dessa mulher menos um
e quando se virou
sua nuca era o plano econômico
tinha milhares de cifras e a balança de mortes favoráveis à ditadura militar
ninguém nunca sabia aonde ia parar essa mulher
eu estava ligeiramente desconcertado
uma noite a toquei no ombro para ver quem era
e vi em seus olhos desertos um camelo

às vezes
essa mulher era a banda municipal de meu povo
tocava doces valsas até que o trombone começava a desafinar
e os demais desafinavam com ele
essa mulher tinha a memória desafinada

você podia amá-la até o delírio
fazer crescer dias de sexo trêmulo
fazer voar como passarinho de savana
no dia seguinte se despertava falando de malevich

a memória lhe andava como um relógio com raiva
às três da tarde acordava da carga
que lhe pisoteou a infância numa noite do ser
era muitas coisas essa mulher e
era uma banda municipal

a devoraram todos os fantasmas que pude alimentar
com suas milhares de mulheres
e era uma banda municipal desafinada
indo-se pelas sombras da pracinha de meu povo

eu
companheiros
uma noite como esta
que nos embebem os rostos e em que provavelmente morremos
montei no camelinho que esperava em seus olhos
e me fui das costas tíbias dessa mulher

calado como um menino debaixo dos gordos abutres
que me comem inteiro
menos o pensamento
de quando ela se unia como um ramo
de doçura e o lançava pela tarde

Opiniões

Um homem desejava violentamente a uma mulher
a umas quantas pessoas ele não parecia bem,
um homem desejava loucamente voar,
a umas quantas pessoas ele parecia mal,
um homem desejava ardentemente a Revolução
e contra a opinião da guarda civil
trepou sobre os muros secos do devido,
abriu o peito e sacando
os arredores de seu coração,
agitava violentamente a uma mulher,
voava loucamente pelo teto do mundo
e os povos ardiam, as bandeiras.

Costumes

não é para ficarmos em casa que fazemos uma casa
não é para ficarmos no amor que amamos
e não morremos para morrer
temos sede e
paciências de animal

Os iludidos

a esperança fracassa muitas vezes, a dor jamais, por isso alguns crêem que mais vale dor conhecida que dor por conhecer, crêem que a esperança é ilusão, são os iludidos da dor.

Epitáfio

Um pássaro vivia en mim.
Uma flor viajava en meu sangue.
Meu coração era um violino.

Quis ou não quis. Mas às vezes
me quiseram. Também a mim
me alegravan: a primavera,
as mãos juntas, o feliz.

Digo o que o homem deve ser!

Aqui jaz um pássaro.
Uma flor.
Um violino.

Amor que serena, termina?

Amor que serena, termina?
começa? que nova
velhice o espera para viver?
qual fulgor? amor surgindo

de si mesmo a si mesmo sendo
também memória de si
comendo
de si, que velha

sombra chupará sua nuca? Oh pestes
que visitaram meu país
atacaram se foram
alheias como o vento

 

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~ por jeffvasques em 01/07/2010.

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