Mais de Nicanor Parra

dificuldade para me concentrar, sentar e escrever… precisando deixar o silêncio se adensar ao meu redor… ter tempo e calma pra ver o brilho da luz no pó… enquanto não escrevo e me traduzo, continuo tra(b)duzindo os outros: mais 2 poemas do poeta chileno Nicanor Parra… o poema “Manifesto” deixa bem claro qual sua posição e intenção com a poesia…

O HOMEM IMAGINÁRIO

O homem imaginário
vive em uma mansão imaginária
rodeada de árvores imaginárias
às margens de um rio imaginário

Dos muros que são imaginários
pendem antigos quadros imaginários
irreparáveis fendas imaginárias
que representam feitos imaginários
ocorridos em mundos imaginários
em lugares e tempos imaginários

Todas as tardes tardes imaginárias
sobe as escadas imaginárias
e se debruça na sacada imaginária
a contemplar a paisagem imaginária
que consiste em um vale imaginário
circundado de morros imaginários

Sombras imaginárias
vêm pelo caminho imaginário
entonando canções imaginárias
ao morrer do sol imaginário

E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que o brindou com seu amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar
o coração do homem imaginário

MANIFESTO

Senhoras e senhores
Esta é nossa última palavra.
-Nossa primeira e última palavra-
Os poetas desceram do Olimpo.

Para nossos maiores
a poesia foi um objeto de luxo
Mas para nós
é um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

A diferença de nossos maiores
-e isto digo com todo o respeito-
Nós sustentamos
que o poeta não é um alquimista
o poeta é um homem como todos
um pedreiro que constróe seu muro:
um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
na linguagem de todos os dias
Não cremos em signos cabalísticos.

E mais uma cosa:
o poeta está aqui
para que o pau não cresça torto.
(Árbol que crece torcido jamás su tronco endereza”)

Esta é nossa linguagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
o poeta barata
o poeta rato de biblioteca.

Todos estes senhores
-e isto digo com muito respeito-
Devem ser processados e julgados
Por construir castelos no ar
Por desperdiçar o espaço e o tempo
Redigindo sonetos à lua
Por agrupar palavras ao azar
conforme a última moda de Paris.
Para nós não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.

Nós repudiamos
a poesia de lentes obscuras
a poesia de capa e espada
a poesia de chapéu enorme.
Propiciamos em troca
a poesia a olho nu
a poesia a peito descoberto
a poesía a cabeça desnuda.

Não cremos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser isto:
Uma mulher rodeada de espigas
ou não ser absolutamente nada.

Agora, veja, no plano político
eles, nossos avôs imediatos,
Nossos bons avôs imediatos!
Se refrataram e dispersaram
ao passar pelo prisma de cristal.
Uns poucos se fizeram comunistas.
Eu não sei se o foram realmente.
Suponhamos que foram comunistas,
o que sei é uma coisa:
que não foram poetas populares,
foram uns reverendos poetas burgueses.

Tem que se dizer as coisas como são:
Só um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Cada vez que puderam
Se declararam de palavra e de feitos
contra a poesia dirigida
contra a poesia do presente
contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
mas a poesia foi um desastre
surrealismo de segunda mão
decadentismo de terceira mão,
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
na revolução da palavra
em circunstâncias de poder fundar-se
na revolução das idéias.
Poesia de círculo vicioso
para meia dúzia de escolhidos:
“Liberdade absoluta de expressão”.

Hoje nós fazemos cruzes peguntando
para que escreviam essas coisas
Para assustar ao pequeno burguês?
Tempo perdido miseravelmente!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Que o vão assustar com poesias!

A situação é ésta:
enquanto eles estavam
por uma poesia do crepúsculo
por uma poesia da noite
Nós propúnhamos
a poesia do amanhecer.
Esta é nossa mensagem,
os resplendores da poesia
devem chegar a todos por igual
a poesia à altura de todos.

Nada mais, companheiros
Nós condenamos
-e isto sim digo com respeito-
a poesia de pequeno deus
a poesia de vaca sagrada
a poesia de touro furioso.

Contra a poesia das nuvens
Nós opomos
a poesia da terra firme
-cabeça fria, coração quente
somos terrafirmistas decididos-
contra a poesia de café
a poesía da natureza
contra a poesia de salão
a poesia da praça pública
a poesia de protesto social.

Os poetas desceram do Olimpo.

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~ por jeffvasques em 21/07/2010.

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