“Que se renda tua mãe!”


A frase título deste post foi gritada por um jovem insolente de apenas 20 anos em resposta a ordem de render-se proferida por um batalhão da guarda nacional da Nicarágua armada de tanques e canhões. O garoto acompanhado de mais 2 companheiros (Róger Núñez Dávila, Mauricio Hernández Baldizón) resistiam durante muito tempo, o que fez com que uma multidão se aglomerasse ao redor da batalha desigual. Morreram todos, ali mesmo, assassinados pela ditadura nicaragüense. Era 1970, e o jovem insolente era Leonel Rugama, poeta e guerrilheiro.

A foto acima foi tirada pouco antes de sua morte. Preparava-se para sair do país, numa ativadade da Frente Sandinista de Libertação Nacional da qual era militante. Rugama foi seminarista mas abandonou tudo e foi para as montanhas, juntar-se à guerrilha, onde começou a escrever suas poesias. Sua poesia teve vida curta mas marcou a história da Nicarágua e influenciou muitos poetas e lutadores na América Latina. Seu poema “A Terra é um satélite da Lua” é a poesia nicaragüense mais lida em todo o mundo.

É importante recordar que toda uma geração de artistas e poetas foi assassinada nessa mesma época em lutas similares em outros lugares da América: Roque Dalton (El Salvador-75), Victor Jara (Chile-73), Otto René Castillo (guatemala-67), Javier Heraud (Peru-63), Rony Iescouflair (Haiti-67), Ricardo Morales (Nicarágua-73), Roberto Obregon (Guatemala-75), Aldo Sa Brito (Brasil-61), Edgardo Tello (Peru-75), Francisco Urondo (Argentina-76), Jacques Viav (Haiti-65), Rita Valdiva (Bolívia-69), Ibero Gutierrez (Uruguai-72), Nestor Paz Zamora (Bolívia-72), Jorge Salerno (Uruguai-69)…

Abaixo segue um texto do Galeano sobre Rugama e vários poemas que tra(b)duzi. Para finalizar, um vídeo com Carlos Mejía Godoy (fantástico músico revolucionário nicaraguense) com uma canção homenageando Leonel. Inclusive, Mejía mergulha definitivamente na canção de protesto ao presenciar o assassinato de Leonel Rugama. Ingressa, então, na Frente Sandinista e faz canções que se tornaram hinos da luta nicaraguense. Mais recentemente, Mejia toma a corajosa decisão de proibir o uso de suas canções pela Frente Sandinista que chegou ao poder com Ortega (coisas parecidas vemos por acá, com Lula e PT). Disse que assim que a Frente volte a estar com os trabalhadores cantará, de novo, alegremente nas praças. Mejía merece um post…

Eduardo Galeano sobre Leonel Rugama

O altivo poeta, o gorduchinho de sotana** que comungava a pé, dispara até o último tiro e cai lutando contra todo um batalhão da ditadura de Somoza. Leonel Rugama tinha 20 anos. Dos amigos, preferia os jogadores de xadrez. Dentre os jogadores de xadrez, os que perdem por culpa da moça que passa. Das que passam, a que fica. Das que ficam, a que todavia não chegou. Dos heróis, preferia os que não dizem que morrem pela pátria. Das pátrias, a nascida de sua morte.

** sotana: bata dos padres.

A TERRA É UM SATÉLITE DA LUA (LEONEL RUGAMA)

A Apolo 2 custou mais que a Apolo 1
a Apolo 1 custou bastante.

A Apolo 3 custou mais que a Apolo 2
a Apolo 2 custou mais que a Apolo 1
a Apolo 1 custou bastante.

A Apolo 4 custou mais que a Apolo 3
a Apolo 3 custou mais que a Apolo 2
a Apolo 2 custou mais que a Apolo 1
a Apolo 1 custou bastante.

A Apolo custou um montão, mas ninguém percebeu
porque os astronautas eram protestantes
e lá da lua leram a Bíblia,
maravilhando e alegrando a todos os cristãos
e na sua volta o papa Paulo VI lhes deu a benção.

A Apolo 9 custou mais que todas juntas
junto com a Apolo 1 que custou bastante.

Os bisavós da gente de Acahualinca** tinham menos
fome que os avós.

Os bisavós morreram de fome.

Os avós da gente de Acahualinca tinham menos
fome que os pais.

Os avós morreram de fome.

Os pais da gente de Acahualinca tinham menos
fome que a gente dali.

Os pais morreram de fome.

A gente de Acahualinca tem menos fome que
os filhos da gente dali.

Os filhos da gente de Acahualinca não nascem por fome,
e têm fome de nascer, para morrer de fome.

Bem-aventurados os pobres
porque deles será a lua.

**Acahualinca: bairro muito pobre de Manágua; é também região turística por possuir pegadas pré-históricas gravadas no barro.

BIOGRAFIA (LEONEL RUGAMA)

Nunca apareciou seu nome
nas tábuas velhas da reserva escolar.
Ao abandonar definitivamente a aula
ninguém percebeu sua ausência.
As sirenes do mundo guardaram silêncio,
jamais detectaram o incêndio de seu sangue.
O grau de suas chamas
se fazia cada vez mais insuportável.
Até que abraçou com o ruído de seus passos
a sombra da montanha.
Aquela terra virgem o amamentou com seu mistério
cada brisa lavava seu ideal
e o deixava como criança branca desnuda,
trêmula, recém banhada.
Todo mundo careceu de ouvidos e o combate
onde começou a nascer
passou desapercebido.

SANDINO (LEONEL RUGAMA)

“Havia um nica* de Niquinohomo**
que não era político
nem soldado”***
lutou em Las Segovias
e uma vez quando escreveu a Froylán Turcios
lhe disse que se os ianques
por ironia do destino
matassem a todos seus guerrilheiros
no coração deles
encontrariam o tesouro maior do patriotismo
e que isso humilharia a galinha
que em forma de águia
ostenta o escudo dos norte-americanos
e mais adiante lhe dizia
que de sua parte ao ver-se só (coisa que não cria)
se colocaria ao centro de cem quintais de dinamite
que trazia de suas pilhagens de guerra
e que com sua própria mão daria fogo
e que diriam todos a quatrocentos quilômetros:

Sandino está morto.

*nica: maneira informal como chamam os nicaraguenses fora da Nicarágua…
**Niquinohomo: cidade natal de Sandino.
***: Esse trecho está em aspas pois faz referência a um enorme e fantástico poema de Ernesto Cardenal sobre Sandino que pode ser lido aqui. Em breve traduzirei.

ACAHUALINCA É UM PASSEIO

Acahualinca** é um passeio.
Todos os seminaristas
íamos de passeio
pelas pegadas de Acahualinca.

Em 1969
os seminaristas
vão de passeio
pelas pegadas de Acahualinca.

**Acahualinca: bairro muito pobre de Manágua; é também região turística por possuir pegadas pré-históricas gravadas no barro. Leonel demarca com este poema sua opção por largar o seminário e ingressar na guerrilha.

EPITÁFIO (LEONEL RUGAMA)

Leonel Rugama
gozou da terra prometida
no mês mais cru da colheita
sem mais alternativa que a luta,
bem próximo da morte,
mas não do final.

EPITÁFIO (LEONEL RUGAMA)

Aqui jazem
os restos mortais
de quem em vida
buscou sem alívio
uma
a
uma
tua cara
em todos
os ônibus urbanos.

CARLOS MEJIA GODOY HOMENAGEIA LEONEL RUGAMA

NO SE ME RAJE MI COMPA

Cuenta Mercho Maldonado
En la bajura del rio
platico con tres muchachos
Vestidos de verde olivo
Tenian dijo el campisto
Limpia, limpia la mirada

piensen en la serenita exactita al ojo de agua
piensen en la serenita exactita al ojo de agua

Coro

No se me raje mi compa
no se me ponga chispon
Que la patria necesita su corage y su valor
No se me raje mi hermano
No Vuelva a ver para atras
La milpa esta reventando
Y es tiempo de cosechar

Te acordas de aquel muchacho
el que vendia tortillas
se salio del seminario
pa meterse en la guerria
murio como todo un hombre
aya por el sementerio
cometio el atros delito
de agarrar la vida en serio
cometio el atros delito
de agarrar la vida en serio

Coro

No se me raje mi compa
no se me ponga chispon
que la patria necesita
su corage y su valor
No se me raje mi hermano
no vuelva aver para atras
que la milpa esta reventando
y es tiempo de cosechar

Me contaba el otro dia
el que torturo a Ricardo
me daban miedo las chispas
de sus grandes ojo claros
Jamás pudimos sacarle
más palabras que las mismas
soy y sere militante de
la causa sandinistas
soy y sere militante de
la causa sandinista

Coro

No se me raje mi compa
no se me ponga chispon
Que la patria necesita su corage y su valor
No se me raje mi hermano
No Vuelva a ver para atras
La milpa esta reventando
Y es tiempo de cosechar

Dijo Julio Antonio Mega
si me pongo reprechero
no perdone camarada
ni el más leve parpadeo
si me espiaban saseguime
si paro empujame
y si a caso retrosedo ahi
mismo liquidame
y si a caso retrosedo ahi
mismo liquidame

Coro

No se me raje mi compa
no se me ponga chispon
que la patria necesita
su corage y su valor
No se me raje mi hermano
no vuelva aver para atras
que la milpa esta reventando
y es tiempo de cosechar

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~ por jeffvasques em 01/08/2010.

2 Respostas to ““Que se renda tua mãe!””

  1. Legal Jeff
    que tal colocar aqui também um post de um poeta guerrilheiro ou militante que seja, brasileiro, pra gente conhecer melhor? aí, te poupa até o trabalho das trabduções!
    valeu
    maíra

    • Pois é, eu venho procurando… mas, por incrível que pareça, tem sido mais difícil de achar… o Aldo Sa Brito que cito aí no post, por exemplo: não acho nem um poema dele… mas continuo a procura… :) (Ah, eu gosto de traduzir ehehhe) beijos, jeff

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