Dalton e Lênin!


Caderno que Roque usava pelo mundo afora (e na guerrilha) para escrever suas poesias. Clique para ampliar.

Abaixo a tra(b)dução de um poema do poeta guerrilheiro Roque Dalton que li num momento muito forte, daqueles momentos que te fazem sentir a beleza brilhante dos caminhos que se cruzam, que tudo é tanto (e ainda tão pouco). Esse poema está no livro “Un libro rojo para Lenin” do qual estou profundamente incubido de traduzir… esse livro é um dos livros mais ousados de Dalton, um ‘poema-collage’, como ele mesmo intitula, onde, através de fragmentos em prosa, em poesia, citação de documentos oficiais de Lênin, diálogos imaginários entre grandes personagens históricos, Roque faz uma homenagem desafiante a Lênin, quebrando toda a respeitosa-ortodoxia para tratar o leninismo (Dalton estudou longamente Lênin para fazer esse livro, construído ao longo de anos em vários países). Dalton queria, ao mesmo tempo, proteger o pensamento leninista do uso vulgar que ganhava espaço na União Soviética (Stalin) e levar adiante a reflexão de Lênin, colocando-a em contato com a realidade latinoamericana.

Roque Dalton e Lênin: maior tesão poético-revolucionário que isso?

Teria dito Otto René Castillo* pensando em Lênin

Ninguém vai à montanha buscar a glória. Ninguém
que não seja um imbecil, quero dizer. No fundo
ninguém elabora sua poesia pela glória. Ninguém
que seja um poeta, quero dizer. Admito
que os que vão à montanha, em ocasiões
se colocam o problema da morte eventual
em forma quase sensualista. Mas os poetas
costumam ser sensualistas e até obscenos, pode-se dizer.
Ir à montanha hoje na América Central
é aceitar o problema pessoal da vida e da morte
em uma proporção de sessenta por cento para a morte
e de quarenta por cento para a vida.
Assumir estas cifras
não é um desvio católico do marxismo. O inimigo
é mais forte que nunca porque nós
somos mais débeis e estamos mais divididos que nunca. Ir
à montanha é um ato político-militar
e não uma atitude poética tradicional. Se trata de por
uma pedra em nosso prato da balança
e não de uma efusão espiritual. Assim
cada um é livre para ir-se à montanha com
sua poesia, suas efusões espirituais, seus amuletos**.
Na verdade, as unidades guerrilheiras transbordam de poesia,
efusões espirituais e amuletos, mas se servem mais
e melhor da boa pontaria, da resistência física e das facas de caça.
Estas são algumas verdades que honram sobremaneira ao poeta guerrilheiro.
Em geral, é certo que o sacrifício
que não tenha uma eficácia real na história é idiota.
Creio que esta é uma conclusão de espírito leninista.
Porém, quem pode saber antecipadamente o que terá
eficácia real na história? Tratar de obter essa eficácia
arriscando a vida é a maior grandeza do homem.
O camarada Lênin estaria de acordo. Ele, que sempre
nos buscou a mística chaga da dignidade e da honra.
Ele, que vive em suas palavras unicamente para aqueles
que vão mais além das palavras.

* Otto René Castillo foi um poeta guerrilheiro da Guatemala amigo de Roque Dalton. Otto foi assassinado nas montanhas, na guerrilha para libertar seu país.

** A palavra original é ‘guardapelos’, daqueles pingentes que se pode abrir e ver uma foto dentro… geralmente trocados entre amantes… não achei um termo equivalente em português. Pensei em ‘relicário’, ou ‘pingente’ mesmo… mas senti que ‘amuleto’ transmitiria um pouco melhor a idéia que inferi do texto.

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~ por jeffvasques em 12/08/2010.

2 Respostas to “Dalton e Lênin!”

  1. Camarada Jefferson,

    Um bom texto. Traz em si a gama de sentimentos que nos envolve em luta (seja na montanha ou não) e a necessidade imprescindível de adequação de nossos atos: nada melhor que uma boa pontaria, no momento que é inevitável atirar.

    Abraço enorme,

    Jonathan

  2. Balas e palavras, cada qual no se lugar… imprescindíveis! :) abraços, jeff

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