Júlio

Algumas tra(b)duções de Cortázar…

“Sempre serei como um menino para tantas coisas, mas um desses guris que desde o começo carregam consigo o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega verdadeiramente à idade do adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e no meio do caminho se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Isto pode ser entendido metaforicamente, mas indica, em todo caso, um temperamento que não renuncia à visão pueril como preço da visão adulta, e essa justaposição que convém ao poeta e talvez ao criminoso, e também ao cronópio e ao humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora jogo, agora mato) manifesta-se no sentimento de não estar de todo em qualquer das estruturas, em quaisquer das teias que a vida arma e onde somos ao mesmo tempo aranha e mosca.” (Cortázar)

ÚLTIMOS CINCO POEMAS PARA CRIS

I.
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

ANTES, DEPOIS…

Como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
como a carícia à mão
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente
ainda que não haja rastro nem presságio

ainda que não haja rastro nem presságio
como a carícia à mão
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
porém inevitavelmente
o amor sobrevive ao amante
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna

como a carícia à mão
ainda que não haja rastro nem presságio
o amante precede o amor
o perfume desenha o jasmim
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente…

BOLERO

Que vaidade imaginar
que posso te dar tudo, o amor e o futuro,
itinerários, música, joguetes.
É certo que é assim:
tudo meu te dou, é certo,
mas tudo meu não te basta
como a mim não me basta que me dês
tudo teu.

Por isso não seremos nunca
o casal perfeito, o cartão postal,
se não somos capazes de aceitar
que só na aritmética
o dois nasce do um mais um.

Por aqui um papelzinho
que somente diz:

Sempre fostes meu espelho,
quero dizer que para me ver tinha que te olhar.

SEMPRE COMEÇAVA A CHOVER

Sempre começava a chover
na metade da película,
a flor que te levei tinha
uma aranha esperando entre as pétalas.

Creio que o sabias
e que favorecestes a desgraça.
Sempre esqueci o guarda-chuvas
antes de ir te buscar,
o restaurante estava cheio
e anunciavam a guerra nas esquinas.

Fui uma letra de tango
para tua indiferente melodia.

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~ por jeffvasques em 16/08/2010.

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