Francisco “Paco” Urondo (Argentina)


“Não houve abismos entre sua experiência e sua poesia. Corrigia muito seus poemas, mas soube que o único modo verdadeiro que um poeta tem de corrigir sua obra é corrigir a si mesmo, buscar os caminhos que vão do mistério da língua ao mistério da gente. Paco foi entendido nisso e seus poemas ficarão para sempre no espaço enigmático do encontro do leitor com sua palavra. Foi – é – um dos poetas em língua castelhana que com mais valor e lucidez, e menos autocomplacência, lutou com e contra a imposibilidade da escritura. Também lutou com e contra um sistema social encarniçado em criar sofrimento.” (poeta Juan Gélman falando sobre seu amigo e poeta Paco Urondo)

A ditadura militar argentina assassinou cerca de 30 mil homens e mulheres. Uma geração inteira. Entre os mortos, o poeta, romancista e jornalista Francisco “Paco” Urondo, quase tão desconhecido na argentina como no resto da América Latina. Tinha 46 anos e era uma das principais lideranças políticas dos Montoneros – milícia radical de inspiração peronista com atuação na década de 70.

“A realidade que vivemos me parece tão dinâmica que a prefiro a toda ficção.” (Paco Urondo)

Participou do Movimiento de Liberación Nacional, até que aos fins de 60 opta pela luta armada (FAR – Forças Armadas Revolucionárias). Antes havia participado da construção de revistas culturais e jornais populares junto com Juan Gelman e Rodolfo Walsh. É responsável por uma das mais famosas entrevistas de Júlio Cortázar: “Júlio Cortázar: o escritor e suas armas”. Sua produção artística é muito grande, mas há apenas uma coletânea de seus poemas publicada na Argentina.

Preso em 72, por 3 meses, aproveitou o tempo de cárcere pra recolher narrativas de membros das forças guerrilheiras e lançou em 73 “A pátria fuzilada”, que gerou muita polêmica em pleno período de ditadura. Enquanto estava preso, recebeu apoio de diversos artistas e intelectuais do mundo todo (Sartre, Simone de Beauvoir, García Márquez, Marguerite Duras, Passolini) que pediam sua soltura. Ele, rigoroso, negava qualquer facilidade que outro preso comum não pudesse ter acesso. Cortázar chegou a visitá-lo na prisão levando um presente de Salvador Allende, charutos cubanos. Paco agradeceu e os passou para o companheiro de cela, velho militante ferroviário.

“Empunhei uma arma porque busco a palavra justa.” (Paco Urondo)

Aqui você pode encontrar o documentário “A justa palavra” sobre o poeta guerrilheiro Francisco “Paco” Urondo: http://en.sevenload.com/videos/KYBLu53r-Paco-Urondo-La-palabra-justa

Seguem tra(b)duções que fiz desse poeta inédito em português. Ao final, um vídeo-homenagem a Paco e, por fim, sua filha narrando o assassinato do pai (Paco, em fuga da polícia num carro, com sua filha e esposa, toma um comprimido de cianureto e fica para distrair os guardas enquanto manda a esposa correr.)

(É sempre triste descobrir essas histórias de poetas revolucionários… mas fico feliz por ver que existiram e que tiveram força e coragem para sustentar a “justa palavra”. )

POEMA DA NOIVA AUSENTE

segue amando
e a ela sobre todas

te atraem
porém não logra distinguir à distância

sofre assim de uma ausência que cresce

resta amá-las sem métodos e sem desenlace
amá-las da única maneira possível

se confundem e se distanciam
aguentam crueldades que sem dúvida não mereciam
crescem sem nome

como un trenó sobre a areia
deslizam por memórias que não lhe pertecem

um grande pássaro escuro sobre o vento
o som escuro e solitário do sol

A VERDADE É A ÚNICA REALIDADE

Do outro lado da grade está a realidade, deste
lado da grade também está
a realidade; a única irreal
é a grade; a liberdade é real ainda que não se saiba bem
se pertence ao mundo dos vivos, ao
mundo dos mortos, ao mundo das
fantasias ou ao mundo da vigília, ao da exploração ou
da produção.

Os sonhos, sonhos são; as recordações, aquele
corpo, esse copo de vinho, o amor e
as fraquezas do amor, certamente, formam
parte da realidade; um disparo
na noite, na frente destes irmãos, destes filhos, aqueles
gritos irreais de dor real dos torturados no
“angelus” eterno e sinistro numa brigada de polícia
qualquer
são parte da memória, não supõe necessariamente
o presente, mas pertencem à realidade. A única aparente
é a grade quadriculando o céu, o canto
perdido de um preso, ladrão ou combatente, a voz
fuzilada, ressuscitada ao terceiro dia num vôo imenso
cubrindo a Patagônia
porque os massacres, as redenções, pertencem à realidade, como
a esperança resgatada da pólvora, da inocência
estival: são a realidade, como a coragem e a convalescença
do medo, esse ar que resiste a voltar depois do perigo
como os desígnios de todo um povo que marcha
até a vitória
ou até a morte, que tropeça, que aprende a defender-se,
a resgatar o seu, a sua
realidade.
Ainda que pareça às vezes uma mentira, a única
mentira não é sequer a traição, é
simplesmente uma grade que não pertence à realidade.

(Cárcere da Villa Devoto, abril de 1973)

TE AMAR É DIFÍCIL

é boa, quando dorme;
o calor de seu corpo é um punhal de vidro
que remonta aos sonhos.

Quando cala, é boa
e sua voz uma premonição esquecida e perigosa
que arruina o silêncio.

Quando grita ou chora
ou se lamenta ou se diverte ou se cansa,
nada pode conter
esta dor alegre que envenena
meu sonhos e minha solidão.
Por isso é difícil pensar
nela, em sua cara bondosa;
abandonar-se; por isso
é uma covardia retê-la
e deixá-la ir, uma pavorosa crueldade.
Às vezes, quando penso nisso,
não sei que fazer com ela,
com este destino luminoso.

BAR “LA CALESITA”

É o fundo de um bar. É um lugar parecido a uma
cova onde um se senta, bebe e vê passar
os homens tomados por distintos problemas. É uma
grande lanterna mágica.

É uma gruta retirada do mundo que abriga a suas
criaturas. É possível se sentir ferozmente feliz ali.

Acaba de aparecer o primeiro homem, mal
aprendeu a caminhar, ainda não sabe se defender.

O homem sorri e chora e segue a festa.

VÍDEO-HOMENAGEM A PACO URONDO

FILHA DE PACO FALANDO SOBRE SEU ASSASSINATO

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~ por jeffvasques em 18/08/2010.

3 Respostas to “Francisco “Paco” Urondo (Argentina)”

  1. Querido Jefferson,

    É impressionante a grandeza desta sua iniciativa de resgatar poetas de nossa História, não apenas dum arsenal literário latino, mas duma história além. Um história de classe, uma história popular.
    Este poeta em especial, Paco, possui poemas belíssimos, num estilo que muito me agrada por sinal.

    Um enorme abraço,

    Jonathan

  2. Oi, Jonathan! Quero até o fim do ano fazer uma antologia de poetas-lutadores da américa latina… talvez lançar uma prévia na 3a Mostra Luta… tam´bem quero traduzir o Roque Dalton, que acho dos melhores… aos poucos vou traduzindo. Se tiver sugestão de algum poeta, me diga! Nós, mesmo da esquerda, desconhecemos muito a nossa própria história cultural… abração, jeff

  3. Salve Jeff!

    Sim, é importantíssimo resgatar esses nomes, esses personagens, essas produções todas. São necessárias para que nos conheçamos e, de modo especial aos que se dedicam a este trabalho, saber o que já foi feito e por onde avançar.
    Quanto a sugestões, acho que vale a pena visitar “Dardo Sebastián Dorronzoro”, um poeta-ferreiro argentino muito bom.

    Um grande abraço,

    Jonathan

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