Poeta, cristão, marxista: Cardenal



Ernesto Cardenal é, talvez, o poeta vivo mais importante da América Latina. Sempre envolvido com as lutas políticas de seu país, a Nicarágua, ordenou-se padre e depois foi afastado pela igreja católica por causa de seu envolvimento com os sandinistas. Com a chegada dos sandinistas no poder, Cardenal assume o cargo de ministro da cultura mas tempos depois renuncia e se afasta do ‘partido’ alegando seu esclerosamento e amoldamento a ordem. Passa a participar, desde então, do Movimento de Renovação Sandinista do qual também faz parte Carlos Mejía Godoy, cantor revolucionário da Nicarágua, já mencionado – indiretamente – neste post.

“Acredito que seria mais desejável um autêntico capitalismo do que essa falsa revolução.” (Cardenal sobre o governo de Ortega da FSLN)

Essa crítica a Frente Sandinista está na raiz do poema “Salmo 1” onde critica duramente o partido (mas vejam que ele continua se organizando em partido… a questão aqui é o esclerosamento do partido). Também ficou famoso por seus poemas amorosos-políticos, seus epigramas, onde mistura suas relações afetivas com a situação política da Nicarágua (ditadura de Somoza).

Enquanto foi ministro da cultura, desenvolveu as Oficinas Populares de Poesia: eram células de criação e discussão coletiva da produção poética dos jovens radicalizados na luta: operários, artesãos, estudantes, vendedores de rua. O propósito era que a poesia fosse um veículo de expressão artística possível, revolucionária e popular, criando uma nova dinâmica entre progresso artístico e progresso social. Essa iniciativa foi pouco valorizada pela FSLN.

Seguem algumas tra(b)duções.

SOMOZA INAUGURA A ESTÁTUA DE SOMOZA NO ESTÁDIO SOMOZA

Não é que eu pense que o povo me erigiu esta estátua
porque eu sei melhor que vós que eu mesmo a ordenei.
Nem tampouco pretenda passar com ela à posteridade
porque eu sei que o povo a derrubará um dia.
Nem que tenha querido erigir-me a mim mesmo em vida
o monumento que morto não me erigireis vós.
Erigi esta estátua porque sei que a odiais.

EPIGRAMA 3

A Guarda Nacional anda caçando um homem.
Um homem espera esta noite chegar à fronteira.
O nome desse homem não se sabe.
Há muitos outros homens enterrados numa cova.
A quantidade e o nome desses homens não se sabe.
Nem se sabe o lugar nem a quantidade de covas.
A Guarda Nacional anda caçando um homem.
Um homem espera esta noite sair de Nicarágua.

ME CONTARAM…

Me contaram que estavas enamorada de outro
e então fui ao meu quarto
e escrevi esse artigo contra o Governo
por ele que estou preso.

III

Eu destribuí panfletos clandestinos,
gritei: VIVA A LIBERDADE! em plena rua
desafiando aos guardas armados.
Eu participei na rebelião de abril:
mas empalideço quando passo por tua casa
e um só olhar teu me faz tremer.

SALMO 1

Bem-aventurado o homem que não segue as consígnias do Partido
nem assiste a suas reuniões ordirnárias
nem se senta na mesa com os gangsters
nem com os Generais no Conselho de Guerra
Bem-aventurado o homem que não espiona seu irmão
nem delata a seu companheiro de colégio
Bem-aventurado o homem que não lê os anúncios comerciais
nem escuta seus rádios
nem crê em seus slogans

Será como uma árvore plantada junto a uma fonte.

TE DOU CLÁUDIA…

Te dou Cláudia, estes versos,
porque tu és a dona.
Os escrevi simples
para que tu os entendas.
São para ti somente,
mas se a ti não te interessam,
um dia se divulgarão,
talvez por toda Hispanoamerica…
E se ao amor que os ditou,
tu também o desprezas,
outras sonharão com este amor
que não foi para elas.

E talvez verás,
Cláudia,
que estes poemas, (escritos para conquistar-te)
despertam em outros casais
enamorados que os leiam
os beijos que em ti
não despertou o poeta.

epigrama

Cuidado, Claudia, quando estiver comigo,
porque o gesto mais leve, qualquer palavra, um suspiro
de Claudia, o menor descuido,
talvez um dia o examinem eruditos,
e este baile de Claudia se recorde por séculos.

Claudia, estou te avisando.

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~ por jeffvasques em 20/08/2010.

2 Respostas to “Poeta, cristão, marxista: Cardenal”

  1. Muito legal ler isto aqui.
    Fez me lembrar dos tempos da faculdade, em que militei junto ao Comitê de Solidariedade aos Povos da América Latina. Tive contato com escritos de Cardenal pelas mãos de colegas nicaraguenses e salvadorenhos, ambos paízes em luta armada, na época.
    É claro que queríamos mais do desfecho destas lutas. Mas ainda é tempo, a história não acabou. Penso eu.
    sonia

  2. Poxa, que bonito Sônia! :) Legal poder promover esse reencontro com Cardenal… se vc souber de algum outro poeta do gênero me dá um toque, estou tentando elaborar uma coletânea! bejin, jeff

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