Dardo Sebastián Dorronzoro (Argentina)


“Me declaro culpado, muito bem, mas
devo advertí-los
que vocês já me mataram, me enterraram,
apagaram todas minhas rugas e as lágrimas de meus irmãos,
e me disseram
que te divirtas com os vermes, porém esqueceram
de apagar
as pegadas
que meus passos marcaram
em tantas ruas e caminhos do mundo.”
Dardo Sebastián Dorronzoro (1913-1976?)

Seguindo a sugestão do Jonathan em post anterior, fui conhecer um pouco mais do poeta revolucionário Dardo Sebastián Dorronzoro. De uma família de ferreiros e socialistas, Dardo trabalhava de manhã no malho do ferro, em sua oficina, e à tarde no malho dos versos. Poeta ferreiro, como é conhecido na Argentina, Dardo teve poucas obras publicadas… foi sequestrado por um esquadrão militar no dia 25 de junho de 1976, em sua própria casa, no mesmo período em que desapareceram Francisco Urondo e Miguel Ángel Bustos. Sua obra é mais conhecida por uma coletânea organizada por sua companheira, Nelly, que leva o nome de “Sexta-feira 25”, dia de seu seqüestro. Nesse dia, Dardo havia escrito os seguintes versos, achados por sua esposa:

“Já faz muito tempo que sinto a ameaça/
deste vento sobre/
a luz de minha lamparina, sobre essa luz que apenas/
me alcança para não perder-me/
entre as garras do mundo, entre os dentes/
dessa imensa multidão de lobos na sombra”.

“Ni olvido, ni perdón!”
À medida que vou me adentrando na literatura de poetas revolucionários argentinos fico abismado com o que foi a repressão da ditadura nesse país: aqui tem uma lista com 96 escritores e escritoras desaparecidos(as). Mas, também, tenho encontrado um fortíssimo movimento, puxado principalmente pelos familiares dos desaparecidos, para responsabilizar os assassinos da ditadura e reverenciar a memória de seus lutadores: aqui o livro “Palavra Viva”, coletânea de poesias e contos de 73 escritores e escritoras desaparecidas(os). Seguem tra(b)duções que fiz de poesias de Dardo Dorronzoro, poeta lutador inédito em português.

O HOMEM LIVRE

Estavam os dois homens em um calabouço.
— Por quê estás preso? — perguntou um.
— Porque sou livre — respondeu o outro.
— E que é a liberdade?
— A liberdade não existe, como não existe o homem. Só existe o homem esfomeado e o homem livre.
— E o que é ser um homem livre?
— Não dizer e não fazer o que os homens livres querem que se diga e faça.
— E se te obrigam?
O homem livre riu.
— Precisamente — disse —, aí está a força do homem livre. Ninguém pode obrigá-lo a dizer nem fazer o que não quer.
— No entanto — disse o outro -, agora, por exemplo, te obrigam a não estar com a mulher que amas.
— E quem te disse — respondeu o homem livre — que não estou com ela?

ALGUMA VEZ

Alguma vez fui alguém que viajou no fole dos trens,
fui o homem que havia perdido a hora de teus passos;
alguma vez fui somente uma solitária terra de ninguém,
dois lábios para dizer teu nome na noite,
dois lábios
para beijar a boca de tua larga ausência, mas
olha-me, agora, coloca tua mão aqui, onde
estão as flores de teus olhos e ouvirás o passo de teu
amor por minhas veias, ouvirás
teu nome, a luz
de tua respiração
e este vento
que agora sacode meu salgueiro***, esta lenta chuva, este março,
esta noite
que passa
lentamente pralém
dos muros de meu sangue, sozinha. Não, não me importa,
sei
que teu amor tem o tamanho de um horizonte,
sei
que teu amor e o meu não cabem
neste profundo mistério da noite.

*** salgueiro (jorón, no original): seria o nosso “chorão”, árvore frondosa de beira de rio, também conhecida como salgueiro.

DECLARAÇÃO JURADA

Não é somente a lua nem o orvalho nem a luz celeste dos pássaros, pode também ser uma sandália velha, toda esburacada, toda quase morta depois de andar fábricas, andaimes ou duros e quentes caminhos de novembro. Não, não necessariamente todo o poético deve ser belo.

Eu tenho visto horríveis meninos cinzas como a terra comendo terra, eu os tenho visto por aí, com seus farrapos e sua sujeira, arrastando-se, e os tenho tocado, acariciado sua pele e os convertido em anjos, em mariposas, em vento de setembro. Porque tudo antes de ser poesia deve passar por meu coração, dar-lhe volta com o grito pra cima, colocar-lhe para a aurora, de caras pro céu. Tudo deve passar por meu sangue, por meus ossos, por minha respiração, pelo coração de meu sangue.

Pois eu sou um poeta não um fazedor de versos bonitos. Eu sou um poeta que ama os que não tem amor nem pão, os que se vão sem haver chegado, os que às vezes sorriem, os que às vezes sonham, os que às vezes lhes cresce um fuzil nas mãos e saem a morrer pela vida.

Em suma: eu tenho sido, sou e serei um poeta revolucionário.

Sobre minha tumba verão florescer um punho.

TODAS AS MANHÃS

Não me cortaram o vento dos olhos,
eu te digo;
não me mudaram de azul a torre dos pinheiros***,
nem usaram pombas com as nuvens de meus dedos.
Eu sou todas as manhãs dos homens, te digo,
todos os invernos, todos os janeiros,
eu sou um sangue perdido na rua mais antiga,
uma espuma de pranto e uma tosse nas camas de palha;
eu sou para sempre em meu último caminho.

*** Torre de los Pinos: até onde consegui pesquisar, é uma torre em Montpellier, na França, que serviu de prisão para mulheres.

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~ por jeffvasques em 30/08/2010.

2 Respostas to “Dardo Sebastián Dorronzoro (Argentina)”

  1. Oi Jeff,

    Coincidentemente vi estes dias o documentário “Memória de uma carta perdida” (Memória de un escrito perdido) que conta a história de 5 muheres que se conheceram na prisão durante a ditadura.

    O documentário é bem bonito e vale a pena ser visto. Também fiquei impressionada com a violência que devastou a Argentina neste período e o mais engraçado é que quase não nos chegam informações sobre isso aqui no Brasil.

    Parabéns pelo trabalho de buscar esses importantes escritores!

  2. Salve Jeff!

    Cara fiquei muito feliz por ver que você postou poemas e história do grande Dardo. Eu fiquei muito contente quando meu amigo (e também poeta) Alípio Freire me apresentou os textos dele. Inclusive um verso do poema “declaração jurada” me tocou profundamente:

    “Não, não necessariamente todo o poético deve ser belo.”

    Um enorme abraço

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