As raízes

Passei mais alguns dias isolado num convento no Capão Redondo (em Sampa) dando continuidade ao curso de formação de educadores populares do Núcleo 13 de Maio. Foram alguns dias impagáveis com Scapi e Mauro Iasi estudando Gramsci, Aristóteles, a formação do senso comum, o desenvolvimento histórico da família e sua influência na formação da consciência. Mas, pralém da formação conteudística em “sala de aula” é essencial pra mim a formação dos “corredores”, dos intervalos, as piadas no almoço, a análise de conjuntura durante o jantar, o sarauzinho a noite depois de longo dia de reflexões. É nessas e outras que ouço histórias deliciosas do Scapi sobre os momentos áureos da luta operária no brasil, Mauro declamando um poema ou entoando uma canção latina no violão, ou ambos narrando os momentos mais difíceis da luta interna no PT (ambos vivenciaram isso de perto), a personalidade oportunista do companheiro presidente Lula, ou então as anedóticas histórias resultantes dos mais de 25 anos de constituição do núcleo de formação política 13 de Maio. Me sentir irmanado com esse acúmulo de (hi)estória e cultura política revolucionária me faz muito bem, primeiramente porque me desloca de meu umbiguismo mas também porque me traz as raízes culturais que sempre senti não possuir, me dá um chão comum onde pisar, uma história a partir da qual desenhar meu horizonte, um chão comum onde pisaram muitos outros importantes e anônimos lutadores. Cultura que quero manter viva, cultivar. Aqui vão quatro coisinhas que me lembro agora de sopetão (sem consultar meu caderninho onde anotava quase tudo que diziam frenéticamente… um dia ainda quero fazer um documentário sobre a história do 13 de maio). As quatro coisas são: uma história que o Iasi me contou na hora do almoço engraçadíssima sobre o Eduardo Galeano (é claro que escrita assim perde um tantão da graça… o mauro é ótimo piadista); um trecho de um texto do Torquato Neto muito forte, mencionado durante uma das aulas em que discutíamos alienação; um poema do próprio Mauro Iasi também citado durante um debate sobre as contradições e potencialidades da religiosidade na luta política, e, por fim, uma música lindalindalinda do Victor Jara chamada “Te recuerdo Amanda”. Essa música foi cantada por integrantes do grupo Canto Libre (chilenos e brasileiros) que apareceram de surpresa numa noite da formação com seus instrumentos bolivianos e chilenos típicos. Essa canção é especialmente linda porque consegue tecer de forma sutil e muito bem elaborada o amor e a luta polítca… A interpretação de Jara é muito viva (basta ver seus olhos), talvez porque, importante saber, Amanda era o nome de sua mãe, forte mulher que cuidou sozinha de Jara e de seus vários irmãos.

Galeano e a entrada nos Eua

Eduardo Galeano foi para os Eua participar de um debate ou algo do gênero. Para entrar nesse país é preciso responder um questionário que possui perguntas surpreendentes como: “Você deseja matar o presidente dos Estados Unidos?”. É claro que Galeano não perderia essa piada: não só marcou esse ítem como escreveu embaixo: “Não sabia que havia essa opção… se soubesse teria me preparado melhor!”. Essa provocação causou um incidente diplomático razoável e até hoje Galeano é figura non grata nas terras do Tio Sam.

Trecho de texto do Torquato Neto

“(…)Leve um homem e um boi ao matadouro. o que berrar mais na hora do perigo é o homem, mesmo que seja o boi.”

Cristão Molotov (Mauro Iasi)

Certa vez, vi na foto
o guerrilheiro sandinista
pronto para lançar
seu coquetel molov.

Em seu peito balançava um crucifixo
em sua mão a garrafa de pepsi-cola flamejava

Percebi, então,
como as formas mais reacionárias
podem guardar os conteúdos
mais explosivos.

“Te recuerdo Amanda” de Victor Jara

Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fabrica donde trabajaba Manuel

La sonrisa ancha, la lluvia en el pelo,
no importaba nada
ibas a encontrarte con el,
con el, con el, con el, con el

Son cinco minutos
la vida es eterna,
en cinco minutos

Suena la sirena,
de vuelta al trabajo
y tu caminando lo iluminas todo
los cinco minutos
te hacen florecer

Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fabrica
donde trabajaba Manuel

La sonrisa ancha
la lluvia en el pelo
no importaba nada,
ibas a encontrarte con el,
con el, con el, con el, con el

Que partió a la sierra
que nunca hizo daño,
que partió a la sierra
y en cinco minutos,
quedó destrozado

Suenan las sirenas
de vuelta al trabajo
muchos no volvieron
tampoco Manuel

Te recuerdo Amanda,
la calle mojada
corriendo a la fábrica,
donde trabajaba Manuel.

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~ por jeffvasques em 22/09/2010.

2 Respostas to “As raízes”

  1. muito bom! hoje é dia de refortalecimento. Dia Mundial Sem Carro, lutas políticas, sensibilizações e articulações.

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