A memória da classe


A Camará, produtora popular em que trabalho e milito, entrou em contato há algum tempo com o CPV (Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro), uma das mais fantásticas e importantes iniciativas ligada a memória e a formação dos movimentos sociais, especialmente, do movimento sindical. O CPV nasceu e cresceu junto com as movimentações sociais e políticas da década de 70 e 80 no Brasil como um projeto, em grande medida, dos movimentos ligados a igreja progressista. Tinha como objetivo construir a memória dos movimentos (guardar e arquivar todo o material produzido) e produzir materias de formação política e cultural. Durante a década de 70 e 80 o CPV teve uma vida intensa e profícua, mas hoje se encontra desarticulado por falta de apoio financeiro (alas mais conservadoras da igreja foram se tornando hegemônicas dentro do movimento católico e cortando o financiamento do CPV). Hoje é praticamente um galpão com uma quantidade enorme e riquíssima de acervo sobre a história da luta no Brasil (em especial da oposição sindical operária) correndo risco de se perder e deteriorar. Esse acervo é mantido pelo esforço de um pequeno grupo de dedicados militantes.

A Camará se aproximou do CPV no intuito de ajudar na reorganização, digitalização e disponibilização dessa história, buscando formas de conseguir recursos para isso. Especialmente, gostaríamos de resgatar (digitalizar) os materiais de formação política do Núcleo de Formação 13 de Maio, em “audiovisual” que estão guardados ali… pasmem: feitos com a sincronização de slides e fita-cassete! Gostaríamos tambem de fazer um documentário sobre a história da oposicao sindical, importante movimento que em 70-80 rompeu as amarras do sindicalismo pelego de estrutura ainda fascista, atrelado ao governo, ganhando expressivas bases com seu trabalho nas comissões de fábrica. Foi o árduo trabalho clandestino da Oposição Sindical durante a ditadura que garantiu força aos levantes e greves de fim de 70 início dos 80, que deram origem ao PT e a CUT.

Bom, dá pra sacar o valor inestimável desse material todo, toda a memória de uma época que pode simplesmente ser perdida ou apagada! Me lembrei agora (bizarra essa minha associação) da frase proferida por Merlin num filme antigo (e muito bom) sobre o Rei Artur. Ele falava da importância da memória, de se lembrar e se recontar as histórias, porque, se lembramos de como, em outras épocas, era melhor a vida podemos desejar e buscar produzir essa mesma situação no futuro. Penso nisso quando vejo esse material todo. A classe trabalhadora produziu coisas fantásticas em seu ascenço e, nós, da geração que pegou apenas o declínio dessa fase, mal temos idéia… e se não sabemos não podemos desejar novamente o que já foi, e nos perdemos em nossa apatia. Vendo uma pequena parte desse material fiquei arrasado, percebendo a pobreza do momento político que vivemos, a falta de iniciativas tão simples e essenciais pra construir a luta e a cultura própria dos trabalhadores.

Pra que possam ter uma idéia escaniei algumas coisas de uma pequena quantidade de material a que tivemos acesso. Vejam só do que a classe foi capaz, pouco tempo atrás:

1. UNIDADE CULTURAL LATINO-AMERICANA

Gravavam fitas cassetes com músicas de toda a américa-latina e entregavam junto caderninho com as letras e histórico dos grupos. Era comum também caderninhos de poesia! Chegavam mesmo a produzir compactos em LP com canções que abordavam a greve, a exploração do operário… hoje, com toda a facilidade de gravar cds de músicas, não se vê nada semelhante!

HISTÓRIAS INFANTIS (PERO NO MUCHO)

Encontramos um livro aparentemente de história infantil, com gravuras lindas do ‘Alê’… “aparentemente infantil”, porque trata de um assunto pesado: a construção do socialismo! ahahah… o traço desse Alê é muito bonito (reparem abaixo) e a idéia do livrinho… genial!

3. CADERNOS DE EDUCAÇÃO POPULAR E SOBRE DOCUMENTAÇÃO

Muito louco perceber a preocupação com a formação para conseguir elaborar a própria documentação e memória do movimento!!!

CARTILHAS DE FORMAÇÃO DAS MAIS DIVERSAS

Impressionante a qualidade do material, sempre acompanhado do trabalho de quadrinistas e cartunistas muito bons, como o Bira e Ohi. (O Bira vai estar na mesa “Quadrinhos e Resistência” na 3a Mostra Luta, agora em outubro!)

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~ por jeffvasques em 07/10/2010.

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