Requiém para Gullar



(“Requiém para Gullar” é o nome de um poema antigo do próprio Gullar… que retoma grande atualidade… e, sim, essa foto foi escolhida a dedo… parece um morto-vivo…)

O posicionamento eleitoral do poeta Ferreira Gullar nesta eleição para presidente evidenciou, para quem ainda não havia percebido, sua clara guinada conservadora. Isso já estava claro em seus textos regulares publicados no “Estadão” e em diversas declaracões em entrevistas em que ora negava a existência de esquerda e direita; ora tratava como infantil a luta armada durante a ditadura; ora negava marx e a luta de classes. Mais reveladores do que seu posicionamento agora favorável ao fascismo moralista de Serra (que fascismo não é moralista?), são os pseudo-argumentos utilizados para questionar o governo Lula. Não estou com isso dizendo que todos que criticam Lula e o PT são de direita, mas impressiona o reacionarismo de seus “argumentos”, como o de criticar o PT por ser contra as privatizações que quando feitas, “como no caso da telefonia, garantiram que todos os brasileiros tivessem acesso a telefone”!!!! Pelamor… será que ele sabe o que é a Telefônica? Fiquei com vontade de mandar pra ele um documentário que a produtora popular da qual faço parte (Camará ) produziu: o “Chamada a Cobrar” (o vídeo foi dirigido e editado pela compa Cristina Beskow). Esse documentário revela o que foi o desmonte e a privatização de um dos mais avançados setores de telefonia do mundo, que era o do Brasil.

Buenas, por essas e por tantas, estou -recolocando abaixo um post do meu antigo blog. Nesse post, além da comparação entre o antigo e o novo Gullar, você pode encontrar outros links para textos onde mostro o que foi o Gullar combativo, grande intelectual da cultura, poeta revolucionário… Faço isso no intuito de demarcar realmente a “morte” intelectual e artística de Gullar, assim como resgatar o que tem de bom, o que trouxe de avanço para a discussão cultural e para a prática poética (e trouxe sim!). Uma reflexão importante seria buscar entender os por quês desse arrefecimento? Claro que está relacionada a conjuntura de descenço das lutas sociais e seu afastamento das mobilizações, do real real. Mas talvez também tenha relação com seu envolvimento traumático com a ditadura… é sabido que acompanhou o desaparecimento de amigos (torturados e/ou assassinados) e que ele mesmo imaginou que seria pego na Argentina (foi quando decide escrever o “Poema sujo” como seu testamento, considerado dos maiores poemas brasileiros). Mas isso não o justifica em nada. Em verdade, torna tudo mais dramático e desonroso.

Ah, aproveito para passar o link de um bom artigo do meu professor do IEL/Unicamp, Sírio Possenti, criticando um artigo de Gullar e já percebendo seu movimento à direita: “Volver à esquerda, Gullar!”

Ah, antes do post, coloco um poeminha do Roque Dalton dirigido ao famoso escritor argentino Jorge Luis Borges. A situação era parecida com a que temos agora com Gullar… Jorge Luis Borges foi um escritor argentino considerado – ao lado de Kafka – como um dos maiores inovadores da literatura do século XX. Um de seus livros mais famosos é o “História Universal da Infâmia”. Suas tendências conservadoras, de apoio à ditadura argentina, por exemplo, foram amplamente conhecidas à época.. Segue:

DE UM REVOLUCIONÁRIO A J. L. BORGES
(Roque Dalton, trad. Jefferson Vasques)

É que para nosso Código de Honra,
você também, senhor,
foi dos tantos lúcidos que esgotaram a infâmia.
E em nosso Código de Honra
o dizer: “que escritor!”
é bem pouco atenuante;
é, quiçá,
outra infâmia…

GULLAR, AGORA EM NOVA VERSÃO

Já fiz alguns comentários elogiando o antigo Gullar e criticando o “novo”, que podem ser vistos aqui nestes posts:

Ferreira Gullar, antes de virar suco II (não achei o primeiro post desta série, mas está no blog em algum lugar!)
Ferreira Gullar, antes de virar suco III
Ferreira Gullar, antes de virar suco IV
Volver à esquerda, Gullar!

Hoje, li uma matéria no Estadão (do dia 18/01/09) sobre o novo livro de poesia que Gullar está preparando para lançar: “Em Alguma Parte Alguma”. Triste ir confirmando que Gullar realmente virou suco e agora se econtra em nova versão, muito mais gostoso, muito sem gosto. Apesar do título do novo livro ter uma jogadinha legal, ele aponta pra lugar nenhum realmente. Pelo menos Gullar é sincero. Sua poesia se afasta cada vez mais do contexto social (da realidade mesma) e vai se fechando em sua vida, seu apartamento, seu umbigo. Não que ele nao tenha direito de fazer isso… mas ele mesmo disse certa vez que queria que sua poesia fosse porta voz da realidade maior… vejam, não estou querendo que ele faça poesia panfletária e nem, necessariamente, política. Nas boas épocas de Gullar, ele fazia poesias sobre coisas banais, sobre um poster de uma modelo numa borracharia… mas mesmo esse poema nascia do convívio com espaços sociais, vc sentia que o poeta circulava pelo mundo e o redescobria. Agora, a sensação que dá das últimas coisas que escreve é que ele parece não circular ou, então, circula por espaços que não lhe dizem mais nada e por isso a experiência vital e fascinante que pode ainda ter está dentro do umbigo dele mesmo. Isso não quer dizer que a poesia dele não tenha força… mas pra mim perde sentido… já que poesia não é só forma e conteúdo, mas postura diante do mundo. Gullar foi levado pela conjuntura de enfraquecimento das lutas populares, foi levado por FHC, foi levado… não ouve mais a voz que precisa vir à tona…

Abaixo, coloco 3 poesias do novo livro – ainda não publicado – do Gullar, que o Estadão revelou. Deixo ao leitor a experiência de sentir a diferença desses poemas para um, das antigas, que também posto abaixo. Aqui vai, também, um trechinho da entrevista do Estadão que me chamou a atenção. O repórter pergunta: “Você acredita que a pessoa se torna mais lúcida, mais criativa, mais capaz, se tem uma obsessão?”. O repórter perguntava sobre obsessão porque a forma como Gullar produz poesia é obsessiva pela própria descrição que dá ao longo da entrevista: é tomado pela poesia, fica num outro estado etc. Mas Gullar leva a pergunta pra outro terreno e dá uma resposta afetada, de quem parece ainda carregar alguma culpa (será que essa é a culpa que o poema 2 abaixo descreve?): “Não sei dizer qual é o sentido de obsessão. Ter um propósito determinado não torna ninguém mais lúcido. Estar comprometido com uma idéia política, por exemplo, e utilizar a literatura como instrumento para modificar a sociedade pode não ser uma atitude de alguém lúcido. A pior coisa é ser dono da verdade. Não questionar os próprios valores e certezas é perigoso. (…)”. Gullar vive um momento de muitas incertezas, esqueceu que viver sob o capitalismo no século XXI é perigoso pra grande maioria… Mas com certeza, deixou, há muito, de ser perigoso pra Gullar… triste fim.

1.
O meu gato
na cadeira
se coça
corto papéis na sala
a manhã clara canta na janela
estou eterno.
(Flagrante)

2.
É alta madraguda. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?
(Insônia)

3.
Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho queimado
metálica

Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
na sala
ou janela

Não cheira
não atrai abelhas
não murchará

apenas fulge
em alguma parte
da vida
(Uma corola)

Poesia das antigas:
Subversiva

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça

E promete incendiar o país

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~ por jeffvasques em 04/11/2010.

2 Respostas to “Requiém para Gullar”

  1. Parabéns, Jefferson. Sua percepção é acurada e eu me identifico plenamente com ela. Uma de minhas grandes decepções com esta campanha fascistizante do Serra (apoiado pelo Gullar) foi com a posição de antigos membro de esquerda como o poeta em questão (ele foi uma grande referência para mim, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980), o Zelito Viana (o mesmo que havia colocado Glauber Rocha em castigo ideológico no final dos anos 1970) e tantos outros antigos membros do Partidão. Nunca imaginei que um poeta do quilate do Gullar pudesse chegar ao nível de decadência em que ele chegou (talvez ele só esteja preocupado com o emprego de jornalista que ele ocupa na imprensa oligárquica e nem tenha mais preocupações filosóficas com a coerência intelectual). Fico até deprimido em ler as ideias mais do que retrógradas do Gullar de hoje (acho que devem ter feito alguma lavagem cerebral nele, ou, quem sabe, aplicaram alguma injeção da Cia em sua medula espinhal…). Talvez seja por isto que os filhos dele (filhos que ele quase nunca revela em suas poesias autocentradas) estejam hoje internados em uma clínica psiquiátrica em Pernambuco, como ele afirmou em uma entrevista contra o movimento anti-manicomial (fiquei chocado com a postura de pai dele face aos seus próprios filhos doentes mentais e tenho dúvidas a respeito da própria doença mental deles; para mim, os filhos foram as principais vítimas da aventuras político-ideológicas do pai nos anos 1960-70 e ele não está nem aí por estas consequências, como se elas não tivessem nada a ver com ele e suas decisões).
    Parabéns por sua análise.
    Concordo plenamente com ela.

    • Grande Alberto! Já entrei, tempo atrás, em teu blog e vi umas análises muito boas também… lembro de vc declamando uma poesia do Gullar no sarau da biblioteca… tempos tristes estes em que poucos poetas se formam, e os bons, trocam de lado… mas seguimos! Obrigado pela visita e pelas palavras! Abração, jeff

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