“Há poucas coisas tão ensurdecedoras como o silêncio!”



A frase título do post é do escritor uruguaio Mário Benedetti (1920-2009), um dos escritores latino-americanos mais conhecidos e lidos na atualidade. Mário Benedetti foi um escritor engajado, colaborou em um dos maiores semanários do mundo, “Marcha”, dirigido na época por Eduardo Galeano e que tinha como colaboradores os maiores escritores engajados do mundo, tais como Bertrand Russel, Júlio Cortazar, Simone Beauvoir, Darcy Ribeiro, Carlos Fuentes, etc. Viveu mais de 10 anos em exílio por causa da ditadura uruguaia.

“- Literatura comprometida?

– Mais de uma vez disse que o panfleto é um gênero tão legítimo como qualquer outro. Existem obras mestras do panfleto: Marx. Engels, Lenin, o Che, Fanon, Fidel têm verdadeiras obras mestras, mas a literatura panfletária é outra coisa, e não me entusiasma para nada… Falta saber o que passa com os artistas do exílio, como trabalha em cada um a nostalgia, o ódio, a apartação, como se afirma ou se debilita sua identidade nacional. Isto nos traz de novo a falar do papel do escritor.

Creio que não se deve exigir a priori que um artista assuma tal ou qual atitude: Primeiro deverá transformar-se como ser humano e depois essa transformação se refletirá em sua obra a posteriori. Quando um autor escreve sobre temas políticos sem que isso esteja respaldado por uma atitude consequente, sua obra soará oca. É como escrever poemas de amor sem estar enamorado, sem sentir o amor, e a política é também uma forma de amor. (Mário Benedetti)”

Abaixo segue um poema em homenagem ao Che (escrito assim que soube de seu assassinato); outro poema lindo sobre o companheirismo (obrigado, Poli, por me enviar!); um poema homenagem ao poeta e guerrilheiro salvadorenho Roque Dalton (que morreu “justiçado” pelos próprios companheiros de Partido, pois seu jeito irreverente e heterodoxo causava “suspeitas”; Roque era famoso por ter conseguido escapar de prisões mais de uma vez, mas não escapou, ironicamente, de seu próprios companheiros de luta) e por fim um poema sobre os “desaparecidos” pelas ditaduras… ao final, esse mesmo poema musicado por Daniel Viglietti (Benedetti declama o poema ao fundo!).

CONSTERNADOS, RAIVOSOS

Assim estamos
consternados
raivosos
ainda que esta morte seja
um dos absurdos previsíveis

dá vergonha olhar
os quadros
as poltronas
os tapetes
pegar uma garrafa da geladeira
teclar as três letras mundiais de teu nome
na rígida máquina
que nunca
nunca esteve
com a fita tão pálida

vergonha ter frio
e enconstar-se no aquecedor como sempre
ter fome e comer
essa coisa tão simples
abrir o toca-discos e escutar o silêncio
sobretudo se é um quarteto de Mozart

dá vergonha o conforto
e a asma dá vergonha
quando teu comandante está caindo
metralhado
fabuloso
nítido

és nossa consciência crivada

dizem que te queimaram
com que fogo
vão queimar as boas
as boas novas
a irascível ternura
que trouxeste e levaste
com tua tosse
com teu barro

dizem que incineraram
toda tua vocação
menos um dedo

suficiente para nos mostrar o caminho
para acusar o monstro e seus tições
para apertar de novo os gatilhos

assim estamos
consternados
raivosos
claro que com o tempo a plúmbea
consternação
nos irá passando
a raiva diminuirá
se fará mais limpa

estás morto
estás vivo
estás caindo
estás nuvem
estás chuva
estás estrela

onde estejas
se é que estás
se estás chegando

aproveita enfim
para respirar tranqüilo
para encher de céu os pulmões

onde estejas
se é que estás
se estás chegando
será uma pena que não exista Deus

mas haverão outros
claro que haverão outros
dignos de te receber
comandante

ME SERVE E NÃO ME SERVE

A esperança tão doce
tão polida tão triste
a promessa tão leve
não me serve

não me serve tão mansa
a esperança

a raiva tão submissa
tão débil tão humilde
o furor tão prudente
não me serve

não me serve tão sábia
tanta raiva

o grito tão exato
se o tempo o permite
alarido tão belo
não me serve

não me serve tão bom
tanto trovejar

a coragem tão dócil
a bravura tão afiada
a intrepidez tão lenta
não me serve

não me serve tão fria
a ousadia

sim me serve a vida
que é vida até morrer-se
o coração alerta
sim me serve

me serve quando avança
a confiança

me serve teu olhar
que é generoso e firme
e teu silêncio franco
sim me serve

me serve a medida
de tua vida

me serve teu futuro
que é um presente livre
e tua luta de sempre
sim me serve

me serve tua batalha
sem medalha

me serve a modéstia
de teu orgulho possível
e tua mão segura
sim me serve

me serve teu caminho
companheiro.

À ROQUE

Chegaste cedo ao bom humor
ao amor cantado
ao amor decantado

chegaste cedo
ao rum fraterno
às revoluções

cada vez que te arrancavam do mundo
não havia calabouço que te caísse bem
assomavas a alma por entre os barrotes
e mal os barrotes se afrouxavam turvados
aproveitavas para livrar o corpo

usavas a metáfora pé-de-cabra
para abrir os ferrolhos e os ódios
com a urgência inconsolável de quem quer
regressar ao assombro dos livres

tinhas ojeriza ao proibido
às desgarraduras para pretensão e orquestra
ao dedo admoestador de algum colega isento
algum apócrifo bom samaritano
que desde da europa te queria ensinar
a ser um bom latinoamericano

tinhas ojeriza à pureza
porque sabias como somos de impurezas
como mesclamos sonhos e vigília
como nos pesam a razão e o risco

por sorte eras impuro
fugido de cárceres e armadilhas
não de responsabilidades e outros gozos
impuro como um poeta
que isso eras
apesar de tantas outras coisas

agora recorro trama a trama
nossos muitos acordos
e tambem nossos poucos desacordos
e sinto que nos restam diálogos inconclusos
reciprocas perguntas nunca ditas
malentendidos e benentendidos
que não poderemos embaralhar de novo

mas tudo volta a adquirir seu sentido
sim recordo teus olhos de garoto
que eram quase um abraço quase um dogma

o fato é que chegaste
cedo ao bom humor
ao amor cantando
ao amor decantado
ao rum fraterno
às revoluciones
mas sobretudo chegaste cedo
demasiado cedo
a uma morte que não era a tua
e que a esta altura não saberá que fazer com tanta vida.

DESAPARECIDOS

Estão em algum lugar marcados
desconcertados surdos
buscando-se buscando-nos
bloqueados pelos signos e pelas dúvidas
contemplando as velhas das praças
os timbres das portas as velhas que enlouquecem
ordenando seus sonhos seus esquecimentos
quiçá convalescentes de sua morte privada

ninguém os explicou com certeza
se já se foram ou se não
se são faixas ou tremores
sobreviventes ou superstições

vêem passar árvores e pássaros
e ignoram a que sombra pertencem

quando começaram a desaparecer
há três cinco sete cerimônias
a desaparecer como sem sangue
como sem rosto e sem motivo
vieram pela janela de sua ausência
o que ficava atrás desse arcabouço
de abraços céu e fumaça

quando começaram a desaparecer
como o oásis nos espelhismos
a desaparecer sem últimas palavras
tinham em suas mãos os pedacinhos
de coisas que queriam

estão em algum lugar nuvem ou tumba
estão em algum lugar estou seguro
lá no sul da alma
é possível que tenham extraviado a bússola
e hoje vagueiam perguntando perguntando
onde caralho fica o bom amor
porque vêm do ódio.

Daniel Viglietti & Mario Benedetti – Desaparecidos


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~ por jeffvasques em 14/11/2010.

3 Respostas to ““Há poucas coisas tão ensurdecedoras como o silêncio!””

  1. engraçado…
    que nas minhas viagens cibernéticas de agora, descobri 3 livros do mario benedetti nas bibliotecas da unicamp. me lembrei dele porque encontrei uns escritos pela florestan ontem. e aí ele surgiu de novo na minha vida. resolvi aceitar. daí olho aqui…e não é que ele apareceu de novo.

  2. Atrás de poemas que expressassem alguns conteúdos do meu TCC, enontrei o seu blog.
    Parabéns pela iniciativa e obrigada por compartilhar tanta coisa boa. Entre outras coisas, nada como a poesia cumprindo o papel de nos “reoxigenar” para a luta.
    Abraços de uma camarada de Cuiabá!

  3. Le e Raquel, benvindas ao Passarin! :) Voltem sempre! Beijos, jeff

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