Guerra Civil Espanhola, Neruda, “Ay, Carmela!”


Esta foto, acima e abaixo, é de um antepassado assassinado durante a Guerra Civil Espanhola [não sei de que lado lutava, mas é muito provável que do lado dos franquistas :( ]. Todos meus avós fogem da Espanha nesse período e vêm pro Brasil. Se instalaram no único “bairro espanhol” do Brasil, que fica em Sorocaba, na região do “Além Ponte”, bairro “Vila Hortência”. Todas as ruas desse bairro fazem referência à Espanha. Nasci na rua Sevilha e brincava nas vizinhas ruas Madrid e Catalunha. Na minha infância, era comum ouvir pelas ruas expressões e comentários em espanhol… os palavrões e repreensões, invariavelmente, saíam em espanhol! Teimosos, turrões, mãos-de-vaca, pobres, os espanhóis ali, como meus avós, começaram trabalhando na terra (eram conhecidos como “ceboleiros” pelas enormes plantações de cebola, cultura que trouxeram da Espanha), e aos poucos foram se metendo a fazer de tudo.

Bom, essa introdução toda é porque, de uns tempos pra cá, tenho buscado resgatar minhas raízes… nessa busca, achei um ótimo livro “Os Espanhóis”, de Sérgio Coelho de Oliveira, que conta a história do bairro em que cresci… fala das famílias, da cultura que trouxeram dalém mar… um livro muito bonito e forte, pra mim… descobri, inclusive, surpreso, que desse bairro surgiram núcleos de resistência anarco-sindicalistas que tiveram importante influência e foram inclusive perseguidos durante a ditadura!

Meu interesse tem passado, obviamente, pela poesia espanhola. Recentemente, ganhei de uma amiga querida algumas antologias sobre a poesia espanhola, basca, catalã… é nítido como a poesia recente da Espanha é fortemente marcada pela Guerra Civil. Ainda estou me aproximando dessa poesia e selecionando algo pra por aqui no Passarin. Por agora, vai uma poesia de Neruda sobre a Guerra Civil (vai um vídeo também em que o poeta chileno, antes de declamar seu poema, fala como a Guerra Civil foi um marco de virada na sua vida e poesia, donde surge o livro “Espanha no Coração”… a declamação é encantatória!). Neruda era diplomata e morava em Madrid, na famosa Casa das Flores de que trata o poema abaixo, quando explodem os bombardeios que também darão origem à “Guernica” de Picasso (a Casa das Flores pode ser visitada e possui uma arquitetura ímpar, veja aqui).

A Guerra Civil, apesar de toda a tragédia – que me fez estar aqui, agora – também foi um momento de forte organização dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, com a participação ativa de brigadas e milícias internacionais. (Aqui um documentário interessante sobre a Guerra). No final do post, depois do poema de Neruda, vai uma das canções preferidas pelos milicianos, a “Ay, Carmela” onde se canta, de forma alegre, a resistência e o amor. Essa canção jocosa, insinua que é por Carmela que os milicianos resistem… se lutam com toda a energia é porque querem voltar para os braços de Carmela! :) Essa música também é conhecida por “El Paso del Ebro” e “Viva la XV Brigada” e foi ganhando diferentes letras ao longo do tempo e em diferentes lugares. Abaixo, coloco a versão de Miguel Naharro, grande violonista espanhol, e outra, mais próxima do original (nesse vídeo, há imagens muito legais de cartazes da época chamando para a luta revolucionária).

PABLO NERUDA DECLAMANDO “EXPLICO ALGUMAS COISAS”

EXPLICO ALGUMAS COISAS – PABLO NERUDA

Perguntam-me: onde estão os lírios?
E a metafísica coberta de papoulas?
E a chuva que muitas vezes golpeava
suas palavras enchendo-as
de frestas e pássaros?

Vou lhes contar tudo o que me passa.

Eu vivia num bairro
de Madrid, com campanários,
com relógios, com árvores.
Dali se via
o rosto seco de Castela
como um oceano de couro.
Minha casa era chamada
a casa das flores, porque por todas as partes
brotavam gerânios: era uma bela casa
com cachorros e crianças.

Raul, lembra? **
Lembra, Rafael? **
Frederico, lembra? **
Debaixo da terra,
lembram da minha casa com balcões
onde a luz de junho afogava flores em suas bocas?
Irmão, irmão!

Tudo
era burburinho de vozes, o sal das mercadorias
aglomeração de pão palpitante,
mercados de meu bairro de Arguelles com sua estátua
como um tinteiro pálido entre as merluzas:
o azeite chegava em colheres,
uma profunda palpitação
de pés e mãos enchia as ruas,
metros, litros, essência
aguda da vida,
pescados amontoados,
contextura dos tetos com sol frio no qual
a flecha se fatiga,
delirante marfim fino das batatas,
tomates se espalhando até o mar.

E numa manhã tudo estava ardendo,
e numa manhã fogueiras
saiam da terra
devorando seres,
e desde então fogo,
pólvora desde então,
e desde então sangue.
Bandidos com aviões e mouros,
bandidos com anéis e duquesas,
bandidos com padres de preto abençoando-os
vinham pelos céus a matar crianças,
e pelas ruas o sangue de crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais rechaçariam,
pedras que o cardo seco morderia e cuspiria,
víboras que as próprias víboras odiariam!

Frente a vocês vi o sangue
de Espanha levantar-se
para afogá-los em uma só onda
de orgulho e de punhais!

Generais
traidores:
olhem minha casa morta,
olhem a Espanha dilacerada:
porém de cada casa morta sai metal ardendo,
em vez de flores,
porém de cada ferida da Espanha
desperta a Espanha,
porém de cada criança morta levanta-se um fuzil com olhos,
porém de cada crime nascem balas
que acharão um dia o vosso coração.

E me perguntam: por que os seus poemas
não falam dos sonhos, das folhas,
e dos grandes vulcões de seu país natal?

Venham ver o sangue pelas ruas,
venham ver
o sangue pelas ruas,
venham ver o sangue
pelas ruas!

** Neruda, provavelmente, está se referindo aos poetas Rafael Alberti,
Federico Garcia Lorca e Raúl Silva Castro. Lorca foi assassinado por nacionalistas durante a guerra. Segundo um juiz, ele era “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”.

“AY, CARMELA!” versão Miguel Ángel Gómez Naharro

“AY, CARMELA” VERSÃO CLÁSSICA

El Ejécito del Ebro
Rumba la rumba la rumba la
Una noche el río pasó
Ay Carmela! Ay Carmela!
Pero nada pueden bombas
Rumba la rumba la rumba la
Donde sobra corazón
Ay Carmela! Ay Carmela!
Contraataques muy rabiosos
Rumba la rumba la rumba la
deberemos resisitr
Ay Carmela! Ay Carmela!
Pero igual que combatimos
Rumba la rumba la rumba la
Prometemos resistir
Ay Carmela! Ay Carmela!

Anúncios

~ por jeffvasques em 28/11/2010.

8 Respostas to “Guerra Civil Espanhola, Neruda, “Ay, Carmela!””

  1. vendo essas fotos, me lembrei de uma artista que gosto bastante, se chama Rosângela Rennó. me lembrei porque o trabalho dela fala sobre memória, coleção, arquivamento e outras coisas. e essa fala se dá atravéz de muita escrita, fotografias, objetos antigos e intervenções ou não nesses materiais. essa primeira foto me lembrou uma série de trabalhos chamado Série Vermelha. um deles que pode ser visto nesse link gigante.
    http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.inhotim.org.br/uploads/Artistas/cbd48b6d33347a5c82c30136c2b8dc71.jpg&imgrefurl=http://www.inhotim.org.br/arte/artista/view/143&usg=__7ucbw4jJtoVAbjkSGeFZAufa2RI=&h=350&w=516&sz=29&hl=pt-br&start=10&sig2=3ZW0Ei4S9JgBVU4u5ZtB-g&zoom=1&tbnid=pixyh4knrI3wAM:&tbnh=113&tbnw=166&ei=G4_yTKr1EoG88gbst_C8DA&prev=/images%3Fq%3Drosangela%2Brenno%26um%3D1%26hl%3Dpt-br%26biw%3D1003%26bih%3D567%26tbs%3Disch:1&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=453&oei=mXzyTJ6-OoH98Ab0v_itCg&esq=4&page=2&ndsp=15&ved=1t:429,r:5,s:10&tx=91&ty=67

  2. Estou lendo bastante sobre a Revolução Espanhola, pois além de ser apaixonada por este marco estou dirigindo um espetáculo de flamenco com a história da guerra cívil espanhola como tema, fiquei muito feliz de saber sobre a resistencia espanhola aqui e gostaria de saber se posso utilizar a foto no espetáculo, utilizaremos projetores com fotos e imagens da época, como não sei se é de acervo pessoal…Muito obrigada e vou divulgar este seu trabalho.
    Karina Ferreira

  3. Karina, as fotos sao de acervo pessoal sim, pode usar! Mas me informe de onde e quando vai ser o espetaculo! Gostaria muito de tentar assistir! Obrigado, jeff

  4. Sou apaixonada pela história da guerra civil espanhola e seus ideais !!! Um pensar político forte, voltado para justiça social! pena que alguns cabeças foram traídos (Buenaventura Durruti). Admiro Dolores Ibarruri. Pessoas de uma inteligência fora do comum, visto que não cursaram faculdade, mas aprenderam na escola da vida.
    Grata pelas informações.
    Maria Aparecida de Toledo Verga

    • Fico feliz que tenha achado interessante, Maria! A vinda de minha família para o Brasil está toda relacionada a Guerra Civil… e, sim, pralém disso é uma guerra sui generis… Não conheço essas lideranças que citou, vou pesquisar! Obrigado!

      • Dolores Ibarruri foi presidente do Partido Comunista espanhol (se não me engano a partir de 1960). Mas era militante da esquerda. Tinha uma habilidade para discursar fora do comum, inflamava as multidões. Costureira de profissão. São suas 2 frases famosas: :No passarán”, uma alusão às tropas franquistas, que ela acreditava não chegariam a Madrid. A outra frase, eternamente atual, “es preferible morir en pie que vivir de rodillas”.
        Morreu pobre.
        Buenaventura Durruti, anarquista, idealista, lutou pelas questões sociais (se não me engano era mecânico) .Morreu pobre.
        Abraço
        Cida

  5. Ainda sobre a guerra civil, o filme “Ay Carmela” do Carlos Saura, fantástico! Cabe lembrar também, quando se fala em Guerra Civil Espanhola, nos vem na memória “Federico Garcia Lorca”, assassinado durante a referida guerra, oficialmente me parece que nunca o governo espanhol admitiu isso. Foi dado como desaparecido. Tem um filme muito bom “O desaparecimento de Garcia Lorca” com Andy Garcia no papel do próprio. Muito bom o filme.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: