Não me dê trégua


Poemas de Cortázar que traduzo como quem tenta se curar.

ENCARGO

Não me dê trégua, não me perdoes nunca.
Fustiga-me no sangue, que cada coisa cruel seja tu que
voltas.
Não me deixes dormir, não me dê paz!
Então ganharei meu reino,
nascerei lentamente.
Não me perdas como uma música fácil, não sejas carícia nem
luva;
tálha-me como um sílex, desespéra-me.
Guarda teu amor humano, teu sorriso, teu cabelo. Os dê.
Vem a mim com tua cólera seca de fósforos e escamas.
Grita. Vomíta-me areia na boca, rompe-me as goelas.
Não me importa ignorar-te em pleno dia,
saber que jogas cara ao sol e ao homem.
Compartilha!

Eu te peço a cruel cerimônia do talho,
o que ninguém te pede: as espinhas
até o osso. Arranca-me esta cara infame,
obriga-me a gritar ao fim meu verdadeiro nome.

INSTRUÇÕES PARA CHORAR

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

POEMA

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

HAPPY NEW YEAR

Veja, não peço muito,
somente tua mão, tê-la
como um sapinho que dorme assim contente.
Necessito essa porta que me davas
para entrar a teu mundo, esse trocinho
de açúcar verde, de redondo alegre.
Não me emprestas tua mão nesta noite
de fim de ano de esfomeados roncos?
Não podes, por razões técnicas.
Então a tramo no ar, urdindo cada dedo,
o pêssego sedoso da palma
e o dorso, esse país de árvores azuis.
Assim a tomo e a sustento,
como se disso dependesse
muitíssimo do mundo,
a sucessão das quatro estações,
o canto dos galos, o amor dos homens.

AMOR 77

E depois de fazer tudo o que fazem, se levantam, se banham, se
entalcam, se perfuman,
se penteiam, se vestem, e assim progresivamente vão voltando a ser
o que não são.

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~ por jeffvasques em 04/12/2010.

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