Mais poesias de Idea Vilariño


Um pouco mais de tra(b)duções de Idea Vilarinõ. Achei na internet um arquivo de áudios com a própria Idea lendo dezenas de poemas. Estou disponibilizando esse arquivo para download aqui. Reparem que coloquei alguns áudios dela declamando em alguns poemas, tanto deste post como no anterior! Aqui vão misturados poemas de amor e poemas políticos.

O QUE SINTO POR TI É TÃO DIFÍCIL

O que sinto por ti é tão difícil.
Não é de rosas abrindo-se no ar,
é de rosas abrindo-se na água
o que sinto por ti. Isto que roda
ou se quebra com tantos gestos teus
ou que com tuas palavras despedaças
e que logo incorporas em um gesto
e me invade nas horas amarelas
e me deixa uma doce sede dobrada.
O que sinto por ti, tão doloroso
como pobre luz das estrelas
que chega dolorida e fatigada.
O que sinto por ti, e que no entanto
anda tanto que às vezes não chega.

TE ESTOU CHAMANDO

Na voz de Idea:

Amor
desde a sombra
desde a dor
amor
te estou chamando
desde o poço asfixiante das recordações
sem nada que me sirva nem te espere.
Te estou chamando
amor
como ao destino
como ao sonho
à paz
te estou chamando
com a voz
com o corpo
com a vida
com tudo o que tenho
e que não tenho
com desesperação
com sede
com pranto
como se fosses ar
e eu me afogasse
como se fosses luz
e eu morresse.
Desde uma noite cega
desde o olvido
desde horas fechadas
no solo
sem lágrimas nem amor
te estou chamando
como a morte
amor
como a morte.

BUSCAMOS

Buscamos
cada noite
com esforço
entre terras pesadas e asfixiantes
esse leve pássaro de luz
que arde e se nos escapa
em um gemido.

COM OS BRAÇOS ATADOS

Com os braços atados às costas
um homem
um homem feio e jovem
um rosto algo vazio
com os braços atados às costas
o afundavam na água daquele rio
– um pouco nada mais
o estavam torturando não matando –
com os braços atados às costas.

Não falava e o chutavam
o chutavam o ventre os testículos
se enrolava no solo
o chutavam.

Agora mesmo
hoje
o estão chutando.

A JOSÉ VARONA

Era porto-riquenho e era
estudante
moreno
delicado.

Foi o primeiro
creio
que me mostrou no piso da noite
lá embaixo estrelada contra o solo
Londres como uma jóia agonizante.

Tinha vinte anos
tantas coisas
tua causa
Porto Rico.

Não sei que me contaste de teu pai
que era alguém
quiçá
que se opunha
seguramente.

Conheceste a Mauricio
me dizias
e irias ao Vietnam logo
talvez.

Depois de tempinho
olhando-te dormido em teu canto
tão pouco mais que um menino
eu invejei tua vida.

E foi ao Vietnam e foi
pouco depois.

Os yanquis
tiveram também algo para ti
não mais que uns fragmentos de uma bomba
e agora tu
teus vinte anos
teu amor porto-riquenho
– disse o jornal de hoje –
por lá estão estirados
José Varona
mortos.

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~ por jeffvasques em 12/01/2011.

2 Respostas to “Mais poesias de Idea Vilariño”

  1. Querido Jeff,

    Mais uma vez, parabens pelo levantamento e apresentação destes/as poetas tão necessários.

    Os textos da camarada Idea são fabulosos.

    São, sem sombre de dúvida, lençoes manchados de sangue, semem e lágrimas.

    Abraços

  2. Jefferson, há quanto tempo! Bem, escrevo desde sempre e publico na net desde de 2007.Sem grandes pretensões.Não frequento a Casa das Rosas, mas por falta de companhia…=) Parabéns pelo livro publicado e pelo blog. Vou ficar de olho no que rolar por aqui. Bj!

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