Um livro vermelho para Lênin



O poeta e guerrilheiro de El Salvador, Roque Dalton, e sua família

Roque Dalton é o poeta da américa-latina que mais admiro, tanto por sua disposição militante para a luta, quanto pela sua poesia de vanguarda. Já venho traduzindo poesias dele há algum tempo. Parte dela pode ser vista aqui. Tempos atrás, ganhei de uma querida amiga o livro “Un libro rojo para Lênin”, em que Dalton elabora uma de suas mais ousadas obras, uma colagem de poesias suas e fragmentos de outros pensadores. Esse livro é fruto de seu longo estudo sobre o pensamento do líder da revolução russa, Lênin. Infelizmente, o pensamento leniniano, após a falência da experiência russa, foi enormemente distorcido. Muitos ainda associam a Lênin violência, autoritarismo, irracionalismo. Desprezam que Lênin foi justamente o filósofo-lutador marxista que mais brilhantemente se debruçou sobre o processo de consciência, sobre o processo necessário de organização, sobre a democracia operária. Roque Dalton busca com seu “livro vermelho”, ao mesmo tempo, prestar homenagem a esse grande pensador, mas também desafiá-lo, buscando compreender como o pensamento de Lênin poderia se adaptar a realidade latina (que na época passava pelas guerrilhas). Dalton monta seu discurso, ao longo do livro, recortando trechos de outros discursos e os iluminando a partir de seu olhar. Por isso, uma colagem. Dalton consegue, ao mesmo tempo, elaborar uma obra de arte e elaborar um livro filosófico, reflexivo, de teses. Homenageia e desafia Lênin como Lênin, certamente, gostaria.

Estou decidido a traduzir esse livro para o português. Abaixo alguns poemas. Antes, um dos últimos poemas de Mario Benedetti (grande poeta uruguaio que faleceu em 2009), um inédito divulgado recentemente pelo jornal La Vanguardia. Interessante notar como em um de seus últimos poemas Benedetti menciona Dalton, um dos poetas que mais admirava.

“LIVROS”, POEMA INÉDITO DE MARIO BENEDETTI

Quero ficar no meio dos livros
vibrar com Roque Dalton com Vallejo e Quiroga
ser uma de suas páginas a mais inesquecível
e dali julgar o pobre mundo
não pretendo que ninguém me encaderne
quero pensar rusticamente
com as pupilas verdes da memória franca
no breviário da noite instável
meu abecedario dos sentimentos
sabe pousar em meus queridos nomes
me sento cômodo entre tantas folhas
com advérbios que são revelações
sílabas que me pedem um socorro
adjetivos que parecem joguetes
quero ficar no meio dos livros
neles aprendi a dar meus passos
a conviver com manhas* e sopros vitais
a compreender o que criaram outros
e a ser por fim este pouco que sou.”

* pode ser também: manhãs

ELEMENTOS (Roque Dalton)

A organização de vanguarda
nível de experiência e organização das massas
a análise de conjunto e dos detalhes
a conjuntura de auge
a audácia as armas a serenidade a tenacidade
a intransigência na estratégia
a flexibilidade na tática
a clareza nos princípios
a clandestinidade operativa
a localização do momento preciso
os motores do amor e do ódio
métodos meios e preparação adequados
técnica ciência e arte
o conhecimento de toda a experiência anterior
mais e mais audácia
ofensiva constante
a concentração na direção principal
queimar as pontes e ao mesmo tempo
não jogar todo o jogo em uma só carta
máxima segurança só depois de aceitar
as últimas conseqüências
alianças uniões apoios neutralizações
planejamento global da confrontação
marco mundial
nível moral de nossas forças
mais audácia
autocrítica constante
e mais audácia

AS FORMOSAS CAIXINHAS (Roque Dalton)

Não nos negamos a nos auto-batizarmos
como marxistas-leninistas-maotsetunguistas-hochiminhistas-
kimilsunguistas-fidelistas-guevaristas.

Apenas
pensamos em dar os primeiros passos.

Porém
que orgulho interior!,
que imensa alegria,
se amanhã,
algum dia,
aqueles que não tenham medo das palavras
nos qualificarem assim!

RETRATO (A) (Roque Dalton)

“Como você, como eu, foi semelhante a todos.
Somente, talvez, bem perto dos olhos,
o traço do pensar lhe enrugava a pele
mais que em nós
e eram talvez mais firmes
e zombeteiros seus lábios.”

Maiakovsky, em V.I. Lenin.

RETRATO (D) (Roque Dalton)

(A idade de Lênin no aniversário de seu centenário)

Quando morreu tinha
54 anos de idade física.
E (unanimemente aceito como computável)
1924 anos de idade (sabedoria) mental.

Hoje (ainda que no mausoléu não aparente)
tem 100 anos de idade física.

E 1970 da outra.

AS ASPIRAÇÕES (MÍNIMAS E URGENTES) DE UM LENINISTA LATINOAMERICANO (Roque Dalton)

Aspiramos
(mas com nossa ação
não com nossos narizes)
à criação de um partido revolucionário de combate
que dirija as mais amplas massas do povo
como vanguarda da classe operária
real ou em potência
(as palavras “real ou em potência” se referem aqui
à classe operária não à vanguarda)
a uma estratégia tatificada
e a uma tática filha de uma estratégica
aspiramos
a honrosa inimizade dos oportunistas
a esvaziar as armas da crítica
e a carregá-las outra vez para disparar de novo
a exercer
a crítica das armas *
(depois de conseguir
construir
engraxar
manejar até a perfeição
e saber quando e contra quem usar
essas armas)
aspiramos dar três passos adiante **
para cada passo atrás
aspiramos nos curar de nossas doenças infantis ***
mas sem envelhecer
aspiramos a saúde juvenil perene
não a normal senilidade
e aspiramos
acima de todas as coisas
(por agora
mas também desde agora)
ao poder político em nossa nação
ao poder político
ao poder
ao poder

* Referência a famosa frase de Marx: “As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens.” (Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel)
** Referência ao famoso artigo de Lênin “Um passo adiante, dois passos atrás”.
*** Referência ao famoso texto de Lênin “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”

RECORDA (Roque Dalton)

(tese)

Tu
que pensas que aos homens
se deve jugá-los pelo que fazem
e não pelo que dizem
pensa bem
porém
recorda
que há alguns homens
que o que fazem
é dizer QUE FAZER*.

* Um dos livros mais célebres de Lênin, onde elabora, de forma inicial, sua teoria de organização, sua teoria do partido revolucionário, chama-se: “Que fazer?”

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~ por jeffvasques em 18/01/2011.

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