Hans Magnus Enzensberger (Alemanha, 1929)


Cansado de trabalhar na dissertação, comecei a dar uma olhada na estante e reencontrei dois livros do poeta alemão Hans Magnus Enzensberger e decidi postar alguns poemas aqui. Esses poemas já estão traduzidos para o português, mas como sua poesia é pouco conhecida por aqui, resolvi divulgar uma seleção.

Hans Magnus é considerado um dos maiores poetas vivos da Alemanha. Estudou literatura, línguas e filosofia em universidades alemãs e na Sorbonne. É Ensaísta, organizador de livros, autor infanto-juvenil, dramaturgo, biógrafo e romancista. Com tom sarcástico, sua poesia ataca o capitalismo e a vida burguesa, mas tampouco poupa a esquerda esclerosada.

As traduções são de Kusrt Scharf e Armindo Trevisan, com exceção de “Defesa dos Lobos contra os cordeiros” traduzido por Afrânio Novaes.

BREVE HISTÓRIA DA BURGUESIA

Este foi o momento, quando nós,
sem nos apercebermos, durante cinco minutos
estávamos imensamente ricos, generosamente
refrigerados com a eletricidade no verão,
ou caso fosse o inverno,
a lenha, trazida de longe via aérea, ardia
em lareiras estilo renascentista. Curioso:
havia tudo, vindo por avião,
de certa maneira automaticamente. Elegantes
éramos, ninguém nos aturava.
Jogávamos pelas janelas concertos de solistas,
chips, orquídeas embrulhadas em celofane. Nuvens
que diziam: “Eu”. Únicos!

Íamos a todas as partes em vôos de carreira. Mesmo os nossos suspiros
eram pagos com cartões de crédito. Xingávamos
como gralhas, todos ao mesmo tempo. Cada um
guardava a sua própria desgraça debaixo do assento,
à mão. Que pena!
Era tão prático. A água
corria à toa das torneiras.
Lembram-se? Simplesmente atordoados
por nossos sentimentos minúsculos
comíamos pouco. Se soubéssemos
que tudo passaria
em cinco minutos, teríamos saboreado
bem mais, muito mais, o roast-beef Wellington.

PARA O LIVRO DE LITERATURA DE SEGUNDO GRAU

Não leia odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos por ti.

DEFESA DOS LOBOS CONTRA OS CORDEIROS

(Tradução de Afrânio Novaes)

deve o abutre se alimentar de flores?
o que exigis do chacal?
que ele mude de pele? e do lobo? que
ele mesmo limpe os dentes?
o que não apreciais
nos coronéis e nos papas?
o que vos deixa perplexos
na tela mentirosa?

quem irá então costurar para o general
a condecoração sanguinária em sua calça? quem
irá fatiar o capão diante do agiota?
quem irá ostentar orgulhoso a cruz-de-ferro
diante da barriga que ronca? quem
irá pegar a gorjeta, a soma,
a propina? há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
então os aplaude? quem
lhes coloca a insígnia? quem
é ávido pela mentira?

vede no espelho: covardes,
que evitam a fadiga da verdade,
avessos ao aprender, o pensar
é deixado a critério dos lobos,
a coleira é vossa jóia mais cara,
nenhuma ilusão é tão estúpida, nenhum
consolo é tão barato, qualquer chantagem
ainda é para vós branda demais.

cordeiros, irmãs são
as gralhas comparadas a vós:
cegais uns aos outros.
a irmandade reina
entre os lobos:
eles vão em bandos.

louvados sejam os predadores: vós,
convidativos ao estupro,
vos atirais sobre o leito negligente
da obediência. mentis e ainda
soltais ganidos. quereis
ser estraçalhados. vós
não mudais o mundo.

UMA VAGA LEMBRANÇA

Nos nossos debates, companheiros,
me parece às vezes
havermos esquecidos algo,
não é o inimigo.
não é a linha.
não é a meta.
não consta no Breve Curso.

Se nunca o tivéssemos sabido
não haveria luta.
Não me perguntem o que é.
Não sei como se chama.
Apenas sei que é
o mais importante
aquilo que esquecemos.

RAZÕES ADICIONAIS PARA OS POETAS MENTIREM

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

MODELO DA TEORIA DO CONHECIMENTO

Aqui tens
uma grande caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a abrires
encontraras nela
uma caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a abrires –
agora me refiro
a esta caixa
não àquela – ,
encontrarás nela
uma caixa
com o rótulo
etcetra;
e se continuares
depois de infindáveis fadigas
uma caixa
infinitamente pequena
com um rótulo
tão miúda
que, por assim dizer,
se evapora diante de teus olhos.
É uma caixa
que existe só na tua imaginação.
Uma caixa totalmente
vazia.

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~ por jeffvasques em 23/01/2011.

4 Respostas to “Hans Magnus Enzensberger (Alemanha, 1929)”

  1. é, Jeff, você me põe em contato com poetas incrivelmente profundos e intelectuais!

  2. Oi Jefferson, apenas uma correção, a tradução que aí consta de “Verteidigung der Wölfe gegen die Lämmer” (Defesa dos Lobos contra os Cordeiros) fui eu que fiz. Só por uma dúvida, em algum outro lugar de onde consultou consta tal informação? Grato!

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