Thiago de Mello (Brasil, 1926)


Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha-AM, 1926) é um dos maiores poetas brasileiros vivos. Dono de um estilo forte, simples e lírico, Thiago tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Sua poesia ficou muito conhecida pelo seu engajamento no período da ditadura com os livros “A Canção do Amor Armado”, “Faz escuro mais eu canto” e “Poesia comprometida com a minha e tua vida”. “Faz Escuro, mas eu Canto” foi transformado em show e tornou-se um libelo da luta pela liberdade naqueles anos escuros. Preso durante a ditadura, exilou-se no Chile, e se tornou bom amigo de Pablo Neruda. Com o fim do regime militar voltou a sua pequena cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje. Thiago traduziu para o português obras de Neruda, Cesar Vallejo, Ernesto Cardenal.

Sempre, desde o meu primeiro livro, fui um poeta comprometido com vida do homem (a minha de permeio). Escrevo sobre o que me comove, o que instiga a minha sensibilidade ou a minha inteligência. O que me alegra ou me dói. Quando a ditadura militar, com o seu terror cultural e a indignidade da tortura, feriu a própria dignidade da condição humana, os meus versos se ergueram em defesa do homem. Nunca fui panfletário (nada tenho contra o panfleto bem sucedido) nem populista. Não há porque negar que os meus livros Faz Escuro Mas Eu Canto e A Canção do Amor Armado me fizeram popular. O Faz Escuro vai hoje na sua vigésima edição. Não tenho culpa. “Escrevo sobre o silêncio sonoro da floresta ou sobre a menina que dorme com fome. Sobre as ancas da moça que passa ou sobre o milagre do telescópio que fotografou a luz fossilizada dos primeiros estilhaços do big-bang. Sobre a dor dos deserdados e a esperança de quem tem fé.” (Thiago de Mello)

Em especial, acho o “Poesia comprometida com a minha e tua vida” um dos melhores livros dessa sua vertente engajada, militante. É também um livro que me ajudou muito durante um período tenso de minha vida, de rachas políticos e emocionais. Havia comprado vários volumes desse livro, que é fininho, num sebo. Mas fui dando de presente e fiquei sem nenhum. Por isso mesmo, a seleção que faço desse livro é do que pude achar na internet ou tenho guardado, aqui, impresso.

O próprio nome do livrinho já traz uma reflexão sobre sua poesia e militância. O título mais óbvio seria “Poesia comprometida com a NOSSA vida”, mas Thiago fez questão de escrever “comprometida COM A MINHA E COM A TUA VIDA”! Está implícita, aqui, a necessidade de que o seu engajamento com a luta social deva passar, também, por sua própria vida. Portanto, o engajamento político não pode ser uma anulação de sua humanidade em prol de um coletivo abstrato, mas é porque ele deseja mais humanidade pra si, mais vida e alegria pra si, é que pode ele desejar e lutar por humanidade e vida para os outros. O contrário também é válido: a luta pela humanidade dos outros também traz mais vida pra si e o torna mais humano. O importante aqui é quebrar esse “NOSSA” que poderia tornar tudo abstrato e redentor demais, sem observar esse jogo tenso e, muitas vezes contraditório, entre lutar pela felicidade dos outros mas também pela sua.

É um livro de auto-crítica (lindamente anunciada no poema “Aprendizagem no vento”) e daí vem sua profundidade e honestidade. Após seus livros de engajamento mais feroz (“amor armado” e “faz escuro”) segue esse pequeno, mas potente, livrinho, onde repassa sua militância buscando compreender o que há de belo e justo, mas, também, de errado nela… daí vem sua beleza, dessa coragem de expor as dificuldades e tensões da militância política, algo que não é fácil já que há essa imagem tão consagrada de que os militantes de esquerda são super-heróis, melhores do que todos os outros… mas não, são humanos, formados na sociedade burguesa, carregados dos vícios e contradições dessa sociedade (o poema “Não somos os melhores” traduz muito bem isso). Com esse livro, Thiago desbanca a arrogância militante (que surge, muitas vezes, como uma defesa à hostilidade conservadora da sociedade às mudanças), buscando abrir o peito e se enxergar, concretamente, enquanto ser que depende dos outros e luta conjuntamente (como em “Para os que virão”). Defende a sua emoção e sensibilidade diante da frieza e racionalidade excessivas que a luta muitas vezes cobra em “Não aprendo a lição”. Defende também a importância do amor, palavrinha que muitas vezes é ridicularizada e esquecida dentro das organizações e movimentos populares, em “As ensinanças da dúvida” e “Recado de Companheiro”.

É um livro de auto-crítica e não de crítica. Portanto, é a voz de um militante-poeta observando a sua prática e a de seus companheiros. O dedo que se levanta e aponta o erro, a falha, aponta para si mesmo. Por isso, é um livro cheio de esperança, de que, apesar dos pesares, devemos continuar, mesmo que ainda seja difícil distinguir “o sujo do encardido”, é com esta luz mesmo, “difusa e dolorida”, que devemos avançar (“Mormaço da Primavera”). Para a atual conjuntura brasileira, um livrinho essencial, para repensar os erros e não desistir de avançar e lutar.

Infelizmente, esse livrinho (que chegou a ser premiado no período da ditatura!), é dos menos conhecidos dele. Por isso mesmo, divulgo aqui. No final, vão 2 vídeos: Thiago declamando “Os estatutos do homem”, poesia que eu não gosto muito, mas é sua poesia mais conhecida… então vá lá… e, uma curiosidade: um vídeo do Thiago no Tonico’s Bar aqui em Campinas, recentemente… perdi uma chance enorme de conhecê-lo nesse dia :(

APRENDIZAGEM NO VENTO

O vendaval findou.
Agora é só o vento
soprando a sua ferocidade
mais fria do que a pele
enrijecida e azulada
dos operários fuzilados.

O vendaval findou.
Agora é só o vento cotidiano,
implacavelmente morno, hálito podre.
É com ele que se tem de aprender
a lição do revés, vida vivida.

Dos tantos que saíram,
poucos, muito poucos, se reencontrarão
um dia, tomara, naquilo que foram
ou quenão puderam ser.
Por enquanto, a cordilheira transposta,
o que se alteia
é o desvario da boca,
é cada vez mais o muro
entre a boca e a mão.

Aos que sonhavam mesmo, vendo o claro,
e que puderam permanecer
no coração ardente da sombra,
cabe o labor maior da aprendizagem.
É aprender com tudo o que foi feito
e também com tudo que deixou de ser feito,
como rasgar o caminho da esperança
que lateja, que lateja,
na frágua da paciência operária.

O vendaval findou. Telhados ocos
não poderão servir de abrigo a pássaros.

PARA OS QUE VIRÃO

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
– muito mais sofridamente –
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

AS ENSINANÇAS DA DÚVIDA

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor

NÃO SOMOS MELHORES

A vida repartida dia a dia
com quem vinha querendo que a vida
pudesse um dia ser vida,
posso dizer que alguma coisa aprendi
(primeiro com amargura,
depois com essa dolorida lucidez
que nos ensina a ver nossa feiúra.)

Aprendi, por exemplo,
que não somos os melhores.
Custou, mas aprendi.
Tempo largo levei para enxergar
que era de puro desamor a chama
que crescia no olhar do companheiro.

Não somos nem melhores nem piores.
Somos iguais. Melhor é a nossa causa.

Todos os que chegamos dessas águas
barrentas e burguesas, para dar
(pouco sabemos dar) uma demão
na roda e transformar a vida injusta
dos que conhecem mesmo a banda podre,
mostramos a nós mesmos, mais que aos outros,
a face verdadeira que levamos.

É repetir: melhor é a nossa causa.
Mas no viver da vida, a vida mesma,
quando é impossível disfarçar,
quando não se pode ser nada mais
do que o homem que a gente é mesmo,
na prática cotidiana da chamada vida,
que é a verdadeira prática do homem,
fomos sempre e somente como os outros,
e muitas vezes como os piores dos outros,
os que estão do outro lado,
os que não querem, nem podem, nem pretendem
mudar o que precisa ser mudado
para que a vida possa um dia
ser mesmo vida, e para todos.

Thiago de Mello com Pablo Neruda

NÃO APRENDO A LIÇÃO

A lição de conviver,
senão de sobreviver
no mundo feroz dos homens,
me ensina que não convém
permitir que o tempo injusto
e a vida iníqua me impeçam
de dormir tranquilamente.
Pois sucede que não durmo.

Frente à verdade ferida
pelos guardiães da injustiça,
ao escárnio da opulência
e o poderio dourado
cujo esplendor se alimenta
da fome dos humilhados,
o melhor é acostumar-se,
o mundo foi sempre assim.
Contudo, não me acostumo.

A lição persiste sábia:
convém cabeça, cuidado,
que as engrenagens esmagam
o sonho que não se submete.
E que a razão prevaleça
vigilante e não conceda
espaços para a emoção.
Perante a vida ofendida
não vale a indignação.
Complexas são as causas
do desamparo do povo.
Mas não aprendo a lição.
Concedo que me comovo.

O QUE ME ESPANTOU

Não foi a multidão indo para casa
(nós no meio dela, disfarçando),
cabeça baixa, as pernas pesadas,
seguindo a ordem que o inimigo lhe dava.
Eram operários, homens e mulheres.
Eram homens de todas as idades,
subindo silenciosos a Grande Avenida.
Nenhum brado, nenhum braço erguido.
Nem foi a organização perfeita do inimigo,
a pontaria espantosa de seus aviões,
o rigor implacável do seu ódio.
Nem a ingenuidade dos que atenderam
ao turvo e meloso apelo
da monstruosidade humana
repetido pelo rádio.
Pois acreditaram na idiosincrasia,
e de mão beijada se entregaram
ao reino das trevas e do ranger de dentes,
onde até hoje, tirante os que foram mortos,
aprendem todos os escalões do escárneo.
O que me espantou foi o assombro
que de repente, desorbitado,
o chão fugindo, o ar faltando,
eu vi se erguer no olhar, no peito,
nas mãos que não se achavam,
daquele companheiro
marinheiro de tanto mar,
quando ele compreendeu,
depois de tanto acreditar amando,
que as barricadas, os grupos de combate,
os cordões de milhares, a vanguarda de fogo,
não íam chegar, não íam se erguer, não,
e que os planos e projetos de resistência
(escorriam de brasa as suas lágrimas)
eram planos e projetos de palavras.

RECADO DE COMPANHEIRO

Para que não chegue o dia
em que a flama da esperança
que arde no chão de teu dia
amanheça recoberta
de uma fuligem tão fria
como um ferrão de incerteza
no azul da alegria;
para que esse dia – e é o dia
em que te começa a morte –
não chegue, tens de guardar
dia a dia, mesmo doendo,
o amor no teu coração:
sabendo que amor só cresce
quando se reparte inteiro
e se deixa de crescer
de ser amor também deixa…

MORMAÇO DE PRIMAVERA

Entre chuva e chuva, o mormaço.
A luz que nos entrega o dia
não dá ainda para distinguir
o sujo do encardido,
o fugaz, do provisório.
A própria luz é molhada.
De tão baça, não me deixa
sequer enxergar o fundo
dos olhos claros da mulher amada.

Mas é com esta luz mesmo,
difusa e dolorida,
que é preciso encontrar as cores certas
para poder trabalhar a Primavera.

THIAGO DECLAMA “OS ESTATUTOS DO HOMEM”

THIAGO DE MELLO NO TONICO’S BAR/CAMPINAS

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~ por jeffvasques em 27/01/2011.

7 Respostas to “Thiago de Mello (Brasil, 1926)”

  1. Jeff,
    que vida tem as poesias dele. Tão reais, tão pé no chão. Lindo demais! Cada dia que passa me apaixono mais…
    brigada!
    beijinho :) saudade de vc!

  2. Eita, Jeff…O Thiago de Mello tem mudado minha vida. Foda demais. Valeu muito pelo livro de presente e tb pelos outros que peguei emprestado. Logo logo te devolvo…

    bjbj
    tati

  3. Estou fazendo um trabalho e esse trecho abaixo de Tiago de Mello segue colado ao pensamento que tento passar. Queria usá-lo como citação, mas precisava da fonte ecompleta inclusive páina onde se pode enontrá-lo. poderia me ajudar?

    Não, não tenho caminho novo.
    O que tenho de novo
    É o jeito de caminhar.
    Aprendi
    (o caminho me ensinou)
    A caminhar cantando
    Como convém a mim
    E aos que vão comigo.
    Pois já não vou mais sozinho.

    • Ana, esse trecho faz parte do poema “A vida verdadeira” que, se não me engano, está no livro “Faz escuro mas eu canto”! Abraços, jeff

  4. GENTE, quem pode me ajudar em quando foi escrito o poema as ensinanças da duvida de thiago de mello????

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