Paulo José Vieira (Brasil)

Aqui, uma pequena seleção de poemas de meu amigo Paulo José Vieira. Uma dessas figuras impressionantes de se conhecer, que fazem a gente se sentir pequeno-querendo-ser-grande.

XIII. Caridade

Quando o restaurante fecha
ele lava bem as mãos
dos vermes de todas as notas
antes de pegar nos restos
de folhas que usará
no sopa que dará aos pobres

XVIII.

Uma obreira da igreja me chamou para entrar, quando eu caminhava na Santa Isabel
Não insistiu, nos últimos meses minha fisionomia é alegre e de pouco colesterol
Aceitei colocar o meu nome no caderno de orações, como minha gratidão
E coloquei também o nome da Andressa, do Alberto Caeiro e do filho que terei

Ela se preocupou comigo, ela não tinha metas de quantos pedestres pôr pra dentro
Ela me disse que Deus me ama e que pediria a Deus por mim e eu respondi
Que todo o Universo a ama, até Rimbaud e Judas, e que ela não se esquecesse
Do semáforo, a força elétrica de gesto humano que paira sobre nós e nos aconselha

Ela quis que a maior coisa do mundo e que fez o mundo perdesse tempo comigo
Essa noite rezarei por ela a Roberto Piva e não amaldiçoarei o mundo por tê-la
Proibido da poesia, porque minha poesia não é o Evangelho e nunca acreditei que
O Evangelho devesse chegar a toda criatura, o Evangelho nunca será pronto

Minha irmã no átomo, de saia longa e saia de uma verdade sem cor, amiga de Deus
Quero ouvir o Evangelho do seu amor, o Evangelho do que fez você ser obreira
O Evangelho do dia em que nasceu até os doze anos, e depois dos trinta até agora
Quero ouvir sua zombaria ao professor de olhos grandes, aquela ainda é você e bela

O muro do estacionamento da igreja anuncia cinco sessões de descarregos às terças-feiras
Usei as cinco sessões em minha casa para esvaziar minha mesa e ter dois livros por vez
Fico pensando que tudo é sacro se nada for, se o sagrado for melhor repartido
Aprendi com a obreira a propor sem malícias e a questionar no ouvinte o que proponho

Queria que o pastor roubasse a dicção da obreira e conhecesse o Evangelho dela
E o usasse nas sessões do descarrego, pois não creio que se descarregue algo a berros
Ele poderia usar de frases longas e mais ou menos autônomas, umas após as outras
As pessoas iam perdendo o conteúdo e ficando com o ritmo, até que ao final o branco

Ou as pessoas poderiam ouvir João Gilberto e lerem o Whitman rezar
E comentar os poemas uns dos outros, cada poema fosse lido uma só vez
Como o Evangelho do instante, como o esquecimento do Evangelho dos livros apócrifos
Que todos se vissem ali não concorrentes para o Céu, para o hospital, para um emprego

Atualizarão o Evangelho diariamente, e a voz do pastor será a voz daquela pequena obreira

XXXI. Terceirização

Antes de mais nada, me demitirão pela firma
e me contratarão pela firma contratada pela firma

A diferença entre o que eu poderia ser
e o que eu era na primeira firma
é o meu primeiro patrão

A diferença entre o que eu era na primeira firma
e o que eu serei na segunda firma
será o meu segundo patrão

A diferença entre o que eu poderia ser
e o que eu serei na segunda firma
é um trio de diletantes portando enciclopédias

Se eu martelasse menos a metalúrgica
teria ouvidos intactos para ouvir de madrugada
Stan Getz tocar saxofone do seu apartamento

(Ousaram terceirizar o Stan Getz em Kenny G)

Eu poderia ser uma porcentagem do Stan Getz
e de mais um cardápio da humanidade, sem virtuose
Ter minhas cinco reencarnações na única vida que tenho
e fazer não só bigornas, mas o que eu vim fazer aqui: viver

Eu poderia promover lingotes de alumínio a saxofones
e conhecer tanto o processo de produção a ponto de ao final tocá-los
a ponto de Sartre explicando a Jean Genet quem foi Jean Genet

Eu abriria um orfanato e resgataria todos os bilhetes
não premiados da probabilidade do que eu não fui
e reciclaria os tickets usados de metrô em vales (arbitrários feito notas)
que pudessem ser trocados por horas de folga

Mas, antes disso, me demitirão pela firma
e me contratarão pela firma contratada pela firma
E dirão que o sonho é luxo
agora que o sono é muito

XXXVI.

Um trompete em silêncio, guardado na caixa
e enfiado na mochila da garupa da moto
só o barulho da moto do Cássio*

Insisto, o trompete está em silêncio
está apenas sendo transportado

E dizer que não é hora de ouvi-lo –
porque ele vai na garupa da moto
e o Rodrigo* não pode tocar agora
porque usa as mãos para se segurar
e vai do ensaio direto
para o trabalho noturno nos Correios
– é já ouvir o trompete soar

Pelo menos na poesia é assim
O aço do trompete toca por si só
crava um ré metálico na imaginação
E por isso os católicos e Descartes
condenavam o corpo que há na imaginação

Mas, se eu disser “1, 2, 3… meu infarto agora!”
nada me acontecerá – veja, ainda escrevo
Porque o músculo do infarto (esse que vem
acabar a poesia quando menos se espera)
não se rende aos lábios sonoros da poesia

* Cássio, Rodrigo, Paulo, Gera e eu tocamos na banda “Paramnese“.

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~ por jeffvasques em 16/02/2011.

5 Respostas to “Paulo José Vieira (Brasil)”

  1. Faço minhas as palavras do Jeff. Grande Paulo! :)

    Genial:

    “E dirão que o sonho é luxo
    agora que o sono é muito”

  2. Jeff, puxa, muito legal mesmo você ter publicado… Seu blog está cada vez mais legal, sempre estou vendo e indicando. Seu trabalho de publicar seus poemas e suas traduções são muito interessantes.

    Só achei meio estranho meu nome aparecendo ali na seção “Brasil”, do lado de poetas muito grandes, pobre de mim… rs

    Denis, valeu o comentário!

    Abração!

    Paulo

  3. Ah agora eu conheci Paulo, o poeta, muito bom! Inclusive amanhã imprimirei a poesia da tercerização pros tercerizados da FUNAI que estão sem receber desde novembro e não tem para quem reclamar, porque são muitos chefes e pouca responsabilidade.

    • uau! Que massa, maíra! Não sabia que tinha tanto tercerizado na Funai!!!! A unicamp está toda tercirizada… bejin, jeff

  4. O Paulo é genial mesmo!

    Viva!

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