“Lênin foi um poeta, irmão, um poeta”


“Quatro pequenas histórias” abre “Um livro vermelho para Lênin” do poeta guerrilheiro Roque Dalton. Esse “poema” em quatro partes aparece antes mesmo do prólogo onde vai explicar o que se propõem a fazer com o livro. Logo, “Quatro pequenas histórias” funciona quase como uma epígrafe no livro, onde ele vai lançar um pequeno panorama, já polêmico, sobre Lênin. Com a história 1, Dalton nos diz querer fugir do lugar-comum-Lênin usando palavras sólidas, concretas (a questão da concretude volta na última história); na história 2, ironiza sua inocente aproximação das idéias e dos feitos do líder bolchevique; na história 3, Roque nos oferece um mosaico de apresentações sobre quem foi Lênin, frases e trechos que vão da direita à ultra-esquerda (apenas uma das frases não aparece com aspas, o que nos indica que é sua própria voz) Seria legal tentar descobrir quem proferiu cada umas dessas frases… algo pro futuro; e, por fim, na história 4, fala da contribuição de Lênin, um lutador que deu coração à verdade, deu carne e vida à luta. Dalton faz questão de mostrar como Lênin, ao contrário do que se diz dele, é um pensador de extremo dinamismo, pois entende a verdade como concreta: não concreta como um pedra, mas concreta como a própria luta de classes. Uma bonita abertura para o livro, já apontando o que nos espera.

1
Quatro pequenas histórias

“Um homem passou pela terra
e deixou seu coração ardendo entre os homens…
Tua morte criou um aniversário
maior que o aniversário de uma montanha…

Contigo a morte se faz maior que a vida…
Desde hoje nosso dever é defender-te de ser Deus.”
Vicente Huidobro

I
As palavras

É fácil dizer
o maior homem deste século
expor as palavras como flâmulas
porque outra festa vai começar
o mais humano o mais simples
coração do pensamento e
pensamento do coração
(incitados simplesmente a nos alegrar
o coração feito um jovem acordeón
para hinos e loas)
o que mais construiu
o que melhor ensinou a destruição construtiva
e a simples construção baseada no trabalho.

Porque a um homem como ele
se pode acudir tranquilamente com um lugar comum
com uma sentença tirada dos livros sagrados
ou com o que diz uma criança ao despertar.

No entanto
queremos para nomeá-lo palavras sólidas
que resistam em meio à noite
aos novos ventos do mundo
palavras filhas de suas palavras
fundadoras
pétreas
incomovíveis
preparadas para a luta e para a fraternidade
para a luta da fraternidade

As palavras não para a dança
ou declamação em nosso mundo urgente
senão para desentranhar a sede
o grito
o proclamado “Basta já!” dos famintos
mestiços pela obscuridade da exploração
e para a luz da fúria

As palavras para o canto das consciências

II
Em 1975 eu vi a Lênin em Moscou (I)

E escrevi então um poema com pedidos muito íntimos, de acordo completamente com os vintedois anos de idade de uma pessoa que desejaria ter toda a vida vintedois anos de idade:

“Para os campesinos de minha pátria
quero a voz de Lênin.

Para os proletários de minha pátria
quero a luz de Lênin.

Para os perseguidos de minha pátria
quero a paz de Lênin.

Para a juventude de minha pátria
quero a esperança de Lênin.

Para os assassinos de minha pátria,
para os carcereiros de minha pátria,
para os que que desdenham minha pátria,
quero o ódio de Lênin,
quero o punho de Lênin,
quero a pólvora de Lênin.”

Eu era ainda católico militante e, no entanto, antes de regressar a El Salvador, depois de uma longa travessia soviético-européia, fui interrogado ao sair de Lisboa, impedido de descer a terra em Barcelona e nas Ilhas Canárias, perseguido em Caracas (onde desembarquei por erro das autoridades pérez-jimenistas do porto de La Guaira), detido pelo FBI no Panamá, etcétera. Comecei a saber que Lênin, e tudo que se relacionava com ele era algo muito sério. Muito sério.

III
Concurso no Terceiro Mundo

“Me perguntam quem foi Vladimiro Ilich Uliánov, chamado Lênin, ou mais bem dito Ene Lênin, que era o pseudônimo que usara na clandestinidade e para assinar muitos artigos. Como todo o mundo sabe, Lênin foi quem aplicou o marxismo ao problema da tomada do poder na Rússia e à construção do primeiro Estado proletário do mundo. Mas não é isso o mais importante. Em seu livro fundamental, Materialismo e empirocriticismo, página 52 da edição Rússia, Lênin disse…”

“Lênin? O anticristo, sem dúvida. Tenho um pequeno opúsculo, com base rigorosamente bíblica, que o prova terminantemente.”

“Lênin, como Jesuscristo, era uma visão evoluída, no sentido de Teilhard de Chardin, do amor.”

“O camarada Lênin foi o genial discípulo e continuador de Marx, mestre do camarado Stalin, fundador da pátria do proletariado mundial, pai de todos os trabalhadores do mundo.”

“Lênin foi simplesmente um homem sério e disciplinado. Um homem de sentido comum. Ou seja: todo o contrário de um aventureiro. O que passa é que essas virtudes tão necessárias em um dirigente se encontram já juntas nestes tempos.”

“O companheiro Lênin foi, como todo estudioso sabe, antes de tudo, o autor do par de livros mais importantes da história do pensamento econômico moderno: O desenvolvimento do capitalismo na Rússia e O imperialismo, fase superior do capitalismo.

“Lênin foi o fundador da teoria da revolução permanente.”

“Lênin é a liberdade do homem na história. Um símbolo.”

“Lênin foi o homem novo que, como todo o mundo sabe, existiu sempre…”

“O camarada Lênin foi quem ordenou aos destacamentos revolucionários para se armarem “por si mesmos e com o que podiam (fuzil, revólver, bombas, facas, luvas, garrotes, cordas ou escadas de corda, pás para construir barricadas, minas de piroxilina, arames de puas, pregos contra a cavalaria, etcétera, etcétera)”. E foi quem agregou: “Em nenhum caso se deverá esperar a ajuda indireta, de cima, de fora: tudo deverá obter-se por meios próprios” (1905)”.

Lênin foi a primeira vítima importante de Stálin.

“Lênin? (Tosse). Bom, depois da paz de Brest…”

“Lenine foi o grande amigo e camarada (em sentido dialético) de León Trotsky”.

“Lênin foi quem formulou, em essência, a teoria do foco insurrecional.”

“Lênin salvou o bolchevismo do trotskismo.”

“Lênin? Uma formidável força moral. Não existirá outro Lênin e a autêntica revolução não poderá fazer-se em um país incapaz de produzir um Lênin. Não digo eu em nosso, em que um mínimo sentido de decência nos obriga aos revolucionários a renunciar aos êxitos de uma larga vida política, irreprovável e clara, e preferir o duro retiro e a meditação nas aras do dever moral de hoje, expulso das ruas e refugiado nos corações individuais dos fortes de espírito… (Tosse grave)”.

“Lênin: uma psicologia interessantíssima, com muito de oriental…”

“Lênin foi um poeta, irmão, um poeta”.

IV
A verdade é concreta

(a)

Tu destes um coração de carne e sangue à verdade
mas nos advertiu que funcionava
como uma bomba de tempo
ou como uma maçã.

Que poderia servir para voar a maquinaria do ódio
mas que também poderia apodrecer.

(b)
Ai dos que crêem que porque a verdade é concreta
ela é somente como uma pedra, como um bloco de concreto ou um ladrilho!

Uma bicicleta,
um jato,
uma astronave,
são coisas concretas como a verdade.

O mesmo que um quebra-cabeça.
E um combate corpo a corpo.

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~ por jeffvasques em 23/02/2011.

4 Respostas to ““Lênin foi um poeta, irmão, um poeta””

  1. Eu não vou ler nenhum dos posts sobre esse livro. Um dia, quando você enjoar dele, eu roubo, leio e depois volto aqui pra ver qualéqueé.

  2. olá, eu sou salvadorenha, e estou fazendo meu trabalho de pesquisa sobre Roque Dalton… gostei do fato que você esteja traduzindo o texto dele (coisa que eu também estou fazendo) e sobre tudo do inteires que mostras aqui. Como conheceu Roque Dalton??

    • Ola, Maria! Me passe seu email! Vamos conversar melhor! Quem sabe nao podemos unir forcas nas traducoes! Tenho grande dificuldade tambem de ter acesso aos livros do Roque! Talvez vc possa me ajudar! Abracao, jeff

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