Mahmoud Darwish (Palestina, 1941-2008)



Alguns dias atrás, conversava com uma querida amiga acerca de sua viagem a Israel, sobre o massacre e a humilhação cotidiana a que o povo palestino é submetido por Israel e sobre a resistência dos palestinos. Fiquei pensando cá com meus botões como conhecemos pouco a história dessas lutas e resistências. Imaginei que, certamente, deveria haver poesia da resistência palestina. E fui procurar, curioso por conhecer e por torná-las conhecidas. E fiquei bem feliz de encontrar muita coisa, muitos poetas lutadores palestinos: Hayil’Assaqilah, Mu’Ammar Hammuda Az-zaghbi, Fadwa Tuqan e muitos outros! Neste post, em específico, optei por falar de Mahmoud Darwish que é considerado o maior poeta da causa palestina.

Na época da Nakba (êxodo palestino de 1948), Darwish tinha sete anos. Fugiu com a sua família de Birweh, uma aldeia na Galiléia. A família voltou em 1949, correndo o risco de ser assassinada pelas milícias sionistas que impediam os palestinos de voltar às suas casas. O seu avô decidiu ir viver numa colina de onde se via a sua terra. Até morrer, o seu avô observou os imigrantes judeus do Iemen que viviam em sua casa, que ele nem sequer podia visitar. Darwish conquistou aos 12 anos a reputação de poeta precoce. Pediram-lhe, então, que escrevesse um poema para um recital público no “Dia da Independência” de Israel. O seu poema descrevia os sentimentos de uma criança que regressa à sua cidade para descobrir outras pessoas dormindo na sua cama e cultivando as terras do seu pai. Chamado pelo governo militar, disseram a Darwish que se ele continuasse a escrever material subversivo revogariam a autorização de trabalho do seu pai. Esse incidente marcaria Darwish para toda a vida.

Os seus poemas militantes definiram a existência palestiniana face à afirmação de Golda Meir (uma das fundadoras do Estado de Israel) de que “não há palestinos”. Entre 1961 e 1976, foi encarcerado cinco vezes. Israel acabaria por retirar de Darwish sua “cidadania” e ele passou a fazer parte da diáspora palestina (circulou pelo Egito, Jordânia e finalmente Líbano). Como membro do Partido Comunista israelita passou um ano estudando na União Soviética, onde ficou desiludido com o stalinismo.

Em 2002, o ministro israelita da Educação tentou que fossem introduzidos cinco poemas de Darwish num currículo escolar “multicultural”. Isso gerou um turbilhão de controvérsias no parlamento israelita, onde a proposta foi totalmente derrotada. Darwish comentou: “Eles ensinam aos estudantes que o país estava vazio. Se ensinassem os poetas palestinos, romperiam esse conhecimento. A maior parte da minha poesia fala do amor pelo meu país.” E acrescentou: “É difícil acreditar que o país militarmente mais poderoso do Médio Oriente seja ameaçado por um poema”. O governo israelita considerou, até ao fim, Mahmoud Darwish um perigoso inimigo.

Darwish foi o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestino Iasser Arafat quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestino.

“Bilhete de Identidade”, logo abaixo, é o seu poema mais famoso. Escrito em primeira pessoa, conta o momento em que um árabe fornece os números de seu documento em uma barreira israelense, na tentativa de retornar à sua terra. Escreveu 20 livros de poesia e foi traduzido em mais de 20 línguas.

BILHETE DE IDENTIDADE

Toma nota!
Sou árabe
O número do meu bilhete de identidade: cinquenta mil
Número de filhos: oito
E o nono… chegará depois do verão!
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Trabalho numa pedreira com os meus companheiros de fadiga
E tenho oito filhos
O seu pedaço de pão
As suas roupas, os seus cadernos
Arranco-os dos rochedos…
E não venho mendigar à tua porta
Nem me encolho no átrio do teu palácio.
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Sou o meu nome próprio – sem apelido
Infinitamente paciente num país onde todos
Vivem sobre as brasas da raiva.
As minhas raízes…
Foram lançadas antes do nascimento do tempo
Antes da efusão do que é duradouro
Antes do cipreste e da oliveira
Antes da eclosão da erva
O meu pai… é de uma família de lavradores
Nada tem a ver com as pessoas notáveis
O meu avô era camponês – um ser
Sem valor – nem ascendência.
A minha casa, uma cabana de guarda
Feita de troncos e ramos
Eis o que eu sou – Agrada-te?
Sou o meu nome próprio – sem apelido!

Toma nota!
Sou árabe
Os meus cabelos… da cor do carvão
Os meus olhos… da cor do café
Sinais particulares:
Na cabeça uma kufia com o cordão bem apertado
E a palma da minha mão é dura como uma pedra
… esfola quem a aperta
A minha morada:
Sou de uma aldeia isolada…
Onde as ruas já não têm nomes
E todos os homens… trabalham no campo e na pedreira.
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Tu saqueaste as vinhas dos meus pais
E a terra que eu cultivava
Eu e os meus filhos
Levaste-nos tudo excepto
Estas rochas
Para a sobrevivência dos meus netos
Mas o vosso governo vai também apoderar-se delas
… ao que dizem!

… Então

Toma nota!
Ao alto da primeira página
Eu não odeio os homens
E não ataco ninguém mas
Se tiver fome
Comerei a carne de quem violou os meus direitos
Cuidado! Cuidado
Com a minha fome e com a minha raiva!

(1964)
[Tradução de Júlio de Magalhães]

ELE É CALMO, E EU TAMBÉM

Ele é calmo,
E eu também.
Ele bebe chá de limão,
e eu bebo café.
(esta é a única coisa diferente entre nós)
Ele, como eu, usa uma camisa folgada básica
E eu olho, como ele, para uma revista mensal.
Ele não me vê enquanto eu o olho discretamente;
Eu não o vejo enquanto ele me olha discretamente.
Ele é calmo,
E eu também.
Ele pede algo ao garçom;
Eu peço algo ao garçom.
Um gato preto passa entre nós,
E eu toco sua noite de pêlos;
Ele toca sua noite de pêlos.
Eu não digo a ele: o céu está claro hoje,
mais azul;
Ele não me diz: o céu está claro hoje.
Ele é o visto e o que vê;
Eu sou o visto e o que vê.
Eu movo minha perna esquerda;
Ele move sua perna direita;
Eu balbucio a melodia de uma canção;
Ele balbucia a melodia de uma canção.
Eu penso: Ele é o espelho onde eu me vejo?
Então eu olho direto em seus olhos, e eu não o vejo.
Eu deixo o Café com pressa,
Eu penso: talvez ele seja um assassino,
ou talvez ele é apenas um homem passando
e eu sou um assassino.

(tradução minha do inglês)

CONFISSÃO DE UM TERRORISTA

Ocuparam minha pátria
Expulsaram meu povo
Anularam minha identidade
E me chamaram de terrorista

Confiscaram minha propriedade
Arrancaram meu pomar
Demoliram minha casa
E me chamaram de terrorista

Legislaram leis fascistas
Praticaram odiada apartheid
Destruíram, dividiram, humilharam
E me chamaram de terrorista

Assassinaram minhas alegrias,
Seqüestraram minhas esperanças,
Algemaram meus sonhos,
Quando recusei todas as barbáries

Eles… mataram um terrorista!

NÃO ME CANSO DE FALAR

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre as
mulheres e as árvores,
sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não
encontrei em nenhum passaporte.
Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra
dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens?
Onde está então o meu casebre? Onde estou eu? A
assembleia aplaudiu-me
durante três minutos, três minutos de liberdade e de
reconhecimento… A assembleia acaba de aprovar
o nosso direito ao regresso, como o de todas as galinhas e
todos os cavalos, a um sonho de pedra.
Aperto-lhes a mão, um a um, depois faço uma saudação,
inclinando-me… e continuo a viagem
para outro país, onde falarei sobre a diferença entre
miragens e chuva.
E perguntarei: Senhoras e senhores de bom coração, a
terra dos homens é
de todos os homens?

ÁRVORE DOS SALMOS

No dia em que minhas palavras forem terra…
Serei um amigo para o perfilhamento do trigo
No dia em que minhas palavras forem ira
Serei amigo das correntes
No dia em que minhas palavras forem pedras
Serei um amigo para represar
No dia em que minhas palavras forem uma rebelião
Serei um amigo para terremotos
No dia em que minhas palavras forrem maças de sabor amargo
Serei um amigo para o otimismo
Mas quando minhas palavras se transformarem em mel…
Moscas cobrirão
Meus lábios!…

(Traduzido por Fabio Vieira)

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~ por jeffvasques em 13/03/2011.

9 Respostas to “Mahmoud Darwish (Palestina, 1941-2008)”

  1. puxa, que descoberta! gostei muito…

    • Lá, em breve tem mais… chegou em minhas mãos, pelo Cássio, o “Poesia Palestina de Combate”!!! Vou fazer uma seleção do melhor! ;) bejin, jeff

  2. parabéns, precisamos de muito mais disso.

  3. Realmente estou impressionada, não conhecia…maravilhoso..quero saber mais… Mabrouk !! Bjos

  4. JV, você arrebentou com meu coração; é que eu tenho duas coletâneas de poesias palestinas, adquiridas com os Comitês de Solidariedade Pro-Palestina na década de oitenta, especialmente com o pessoal da OLP, que frequentava a UFF-Niterói-Rj, e eu sempre destaquei esse poeta Mahmud Darwish como um dos mais consistentes tanto literária quanto ideológicamente, e, ontem eu estava “olhando” o blog de um amigo e fiquei sabendo que Ele já morreu…Lá peguei seu URL e vim conferir e é verdade. É de doer! Abraços… Antonio Cabral Filho.

    • Ah, caro, Cabral! É uma pena mesmo, mas nos resta esse seu sopro de palavras que podemos levar sempre cada vez mais longe… responsabilidade de todos nós divulgar! Grande abraço e obrigado pela visita! Adoraria ter acesso a essas coletaneas de poesia! Abraços, jeff

  5. JV, só se for através de cópia. Não sei ainda aonde vc reside; mas se for possível, está às ordens. Meu endereço ´Rua São Marcelo, 50-202, atrás do PROJAC-GLOBO, próximo ao RIOCENTRO. Será um prazer.

  6. Que lindo, Jeff! Chorei aqui, engolindo canhões e bombardeios. Obrigado por esse trabalho bonito, firme e necessário que você faz!

  7. Obrigada pelo seu excelente trabalho! Já partilhei alguns dos poemas. Tem que ser divulgada a cultura do povo que está a ser vítima de genocídio. Bem haja!

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