Rodrigo Lobo (Brasil)


Segue uma pequena coletânea de poemas do camarada-poeta Rodrigo Lobo, que só conheço virtualmente, mas que já me traduziu diversas vezes com suas palavras. ;) Rodrigo escreve regularmente no Nada Direito.

Ainda que nos cansemos

Ainda que nos cansemos
um do outro
teremos nosso vilarejo
com estopa suficiente para embalar
sonhos,
cacoetes
e estojos de lápis de cêra.
É o combinado que fizemos
(cabeça pra baixo)
plantando bananeira.

Vim do pálido

Vim do pálido.
De criancices tristonhas e outros trava-línguas que falharam.
De rabugices e omissões odiosas diversas que escravizam.

Meu gênesis é a ponta de uma agulha inchaçeada
Que por artimanha de fagulha intrépida
Explodiu num grande BUM!

Quando for crescido para domar meu sonho no gladiar do mundo
serei inventor contra-mestre de massagens,
coreógrafo de alquimias infundadas,
experimentador contratado para degustação industrial de panetones.

Serei sem medo a potência amenizada por naufrágio afogadeiro.
Desejo rebelado das sereias em titânico anti-empuxo.

Serei um xamã travesso enterrando no bojo inimigo o brilho do caco de espelho.

Minha história é dos privilegiados

Minha história é dos privilegiados.
Pequenos privilegiados.
Não tive como assinalar uma pena.
Foi mais forte o sono.
O sono dos que não sofrem o bastante.
O sono dos trastes bem comportados.
Cansados de tanto descansar.

Não fui louco
e ao dizê-lo
fica ridículo a birutice forjada em cima do palco.

Não passei fome,
estupro ou grande infortúnio.
Não sofri como deve sofrer um maldito.
Minha dor cotidiana,
coisa de abacate na feira em promoção pague 3 leve 4,
dilui-se em soro caseiro
quando lembro da África
(o continente sem países),
quando olho para o espetáculo policialesco de circo bizarro nas ruas de São Paulo.

Me calo como se uma códea de pão seco encalacrasse.

Tive problemas familiares.
Mãe doente de precisar de ajuda para ir ao banheiro.
Pai infeliz de morrer enfartado.
Tive meu quinhão de traumas e psicopatias.
Mas fiz faculdade e me preocupei com acnes e obesidade.

Não tive como assinalar uma pena ou outra tristeza de comover a platéia.
Mas acho a Veja uma bosta.

Caminho rumo à uma padaria.
Um cemitério.
Uma droga que me desligue por um tempo.
Protesto contra o sistema com minha camisa cheia de farelos.
Leio livros e adormeço.
É o que acho que posso fazer.
Vem o amanhã, a morte, a alegria.
Caio em contradição.
Resta escrever e chorar.

Ninguém entretanto me tira o direito de reclamar.
Sempre vou encrencar com a TV naquela tagarelice doméstica e fútil e saudável.
Sempre vou andar pelado e peidar no ermo da sala
lendo panfletos subversivos e contos eróticos com sodomia.
É o que posso fazer:
não ignorar a dor
e me indignar
e torná-la minha,
nossa,
única.
Sem que seja preciso assessoria de imprensa
ou marketing
ou relações públicas.

Queria me pôr a vista

Queria me pôr a vista.
Ensolarar a pele.
Me tornar algo de lâmpada com incandescência interna.
Estive engavetado tempo suficiente para me descontrolar e não saber onde ir no labirinto do arquivo.
Era preciso caminhar ao descampado sem o resguardo da mínima sombra.

Cada raio de sol vem do espaço.
E no espaço não se cobra pedágio pela energia dispensada.

Agora adentro descansado de novo no purgar do esconderijo.
Fiz trilhas com migalhas de panetone pela floresta.
Espero com isso ter semeado namoricos entre bichos glutões diversos.

Saibam:
todos esses poemas foram regados a maconha,
a punheta,
ao pornô amador vingativo dos corações mais irritadiços e intensos.

Esses versos nunca foram além de um escuro que me cerca.
A madrugada sempre me aconchegou pelado enfrentando aos sonhos.
Eu e a lua.

Se tua lápide desmanchar, pai

Se tua lápide desmanchar, pai,
posso me perder.
Sei que não descansas num calmo além-mundo.
Já esganei todos os credos.
Sei que tu, pai, só estás na minha memória
e que os cemitérios hospedam nossas lembranças.
Não converso enquanto coloco flores no túmulo
mas teu nome inscrito na pedra já basta
para que eu, contrário a mim, sinta tua mão amparando o equilíbrio da bicicleta.

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~ por jeffvasques em 17/03/2011.

Uma resposta to “Rodrigo Lobo (Brasil)”

  1. não da medo

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