Estevão Daminelli (Brasil)


Dando continuidade às coletâneas de poetas vivos, camaradas e amigos que venho conhecendo ao longo do tempo, segue agora seleção de poesias de Estevão Daminelli, dos artistas mais ativos e criativos que conheci (e olha que nos conhecemos pouco!). Você pode conhecer mais da poesia do Estevão no Boi Morto e de suas canções no Macabeu Samsa.

As baratas fazem casas no abandono

As baratas fazem casas no abandono
na lembrança terna e frágil dos momentos
nos guardados e nos velhos documentos
e nos íntimos vapores do teu sono

Quando é noite e o silêncio nos abraça
como é doce nosso lar em hora morta!
Aos cupins o que sobrou da porta;
mariposas estampadas na vidraça

Vem o tempo e de repente somos nada.
De repente nunca mais dias felizes.
No armário jaz a roupa embolorada;

e não te doem mais as cicatrizes,
pois pra sempre vais olhar a grama
por um ângulo incomum: pelas raízes…

Zoogonia

intranquilo, anêmona de zinco
pulso e esquecimento
ateio fósforo-absinto ao vento

albatroz-pantera estranha
tu entranha-me o fumo
atroz do sonhamento

tua sede anima minha
sede a minha
fome anima
tua fome

animal de passos densos
que pensado
como que
desen
cantado
some

Réquiem sujo

poeta de carne e história
vou te compor uma desomenagem
à maneira de lírios ou crisântemos
que se oferece aos que já foram

este lamento fúnebre
dedico antes
não ao teu corpo
você não está morto
provavelmente ainda caga e fede
– ainda chora?
não é tua dimensão orgânica que pranteio
mas a porção que canta
– ainda canta?
suja, entre as ruínas e o espanto
da precariedade da vida
da servidão que desumaniza
do óleo asqueroso que se acumula entre os séculos

poeta de tempo e fígado
canto a morte não do titulo
os nomes morrem todos os dias
não a morte do ofício
enquanto existirem pedras no caminho,
nascerão josés todos os dias
mas a lenta e desencantada morte no teu peito
de uma idéia que também é minha
barganha perecível como estrelas
bela como estrelas
substância sem mercadoria
pois facilmente subtrai-se:

uma bandeira
um grito
um ribamar

e no granito da inércia
sobram duas rimas

pode ser ferreira
pode ser gullar

Desígnios Terceiros

ACORDO,
as luzes vívidas deflorando-me a retina
carne, carbono, linho.
morrendo.
eu, capital humano
de cujas mãos toda labuta não me nutre
em cujas células repousa uma fagulha
de existencia alguma.
estrangeiro de meu ser, LEVANTO.
não cabe chorar, não resta sentido no rastro de lágrimas.
engulo carne e graõs. morrendo.
me lavo e me visto e me faço apresentável
e sigo morrendo.

encontro fantasmas mirrados
alimentando no fundo de seus estômagos
um verme de esperança e medo.
e como sintoma de uma aguda miopia
o sorriso lhes corta a face:
ardil perverso
a pretesto de ostentar as presas.

-vejam estas 32 pérolas de cinismo esmaltado,
marfim amargo entre os lábios entreabertos.

triste ver um riso opaco, sem eco de razão que o legitime.
mas ainda sobre pernas, pele, cabelo e víceras, SIGO.

caminho entre coisas da civilização,
e sinto-me um macaco, cada dia mais.
chego a meu destino, cemitério de objetos funcionais
e objeto-me em função de anseios outros,
desígnios terceiros, alheios aos meus.
a certeza do final do dia,
o amor que se renova como apêndice de um roteiro
em que seres se debatem cegos.

consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir

beba, compre, venha, creia,
não perca, não pise, viva o melhor.
imperativos
como bocas a nos engulir completamente.
nada mais é livre de gerar receita:
sentimentos a granel, em tantas vezes sem juros.

em meio a este árido mercado de emoções,
volto para casa, morrendo, ciente de que contribuí
para a manutenção da propriedade.
em silêncio.

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~ por jeffvasques em 20/03/2011.

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